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Natalia Morari, activista moldava: "Há quem queira ir para Manhattan e ser estrela de cinema. Eu quero ficar aqui e mudar as coisas"

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Natalia Morari, activista moldava: "Há quem queira ir para Manhattan e ser estrela de cinema. Eu quero ficar aqui e mudar as coisas"

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A Moldávia, um dos países mais pobres da antiga União Soviética, está a viver um clima de instabilidade política desde que o resultado das legislativas de Abril foi contestado como fraudolento pelos partidos da oposição.

O Partido Comunista, no poder, ignorou as queixas, mas vai ter que responder nas urnas outra vez, este Verão, depois de não ter conseguido apoio parlamentar suficiente para o candidato que quer apresentar a presidente. Os comunistas estão no poder há oito anos. A Moldávia está à procura de laços mais estreitos com a União Europeia e é um dos alvos do programa de parceria da Comissão Europeia, destinado a promover a democracia. Os protestos contra o resultado das eleições levaram minhares de moldavos, na maioria jovens, às ruas do país, em Abril. As manifestações começaram de forma espontânea, por iniciativa das ONG, que protestavam contra a suposta inclusão dos nomes de 20 mil mortos nos cadernos eleitorais. Ao segundo dia de protestos, as coisas descontrolaram-se. Foram feitas centenas de detenções e há relatos de maus-tratos por parte da polícia, em relação aos detidos. Entre os organizadores das manifestações está Natalia Morari, uma jovem activista moldava, jornalista, que foi já expulsa da Rússia por ter denunciado alegados casos de corrupção. A euronews falou com ela na capital moldava, Chisinau, depois de terminada a prisão domiciliária. No entanto, continua impedida de saír do país. Sebastian Saam, euronews: Natalia, antes de mais obrigado pelo seu tempo. O Partido Comunista não conseguiu uma maioria no parlamento. Isso é uma vitória do movimento de protesto iniciado por si e outros activistas? Natalia Morari: Não penso que seja uma vitória do movimento de protesto, mas sim de todo o país. O facto de a oposição ter votado num candidato não-comunista foi um teste que o país tinha de passar e passou bem. euronews: Por que razão tantos jovens criticam em massa os comunistas e o governo? Natalia Morari: Conheço muita gente que estava à espera destes resultados e pensava: se a oposição ganhar, fico no país para continuar o meu negócio ou os meus estudos. Mas se os comunistas ganharem outra vez, saio do país pelo menos durante os próximos quatro anos. Não temos eleições correctas e justas, simplesmente porque os políticos não têm todos um livre acesso aos media. Se vivesse fora de Chisinau, mesmo a 30 quilómetros, não teria oportunidade de ver a oposição na TV, só veria os comunistas de manhã à noite. E quando falam da oposição é para dizer que são uns criminosos, que fazem isto e aquilo, ou que não fazem nada e dormem no parlamento, etc… euronews: No início os protestos eram pacíficos, mas depois tornaram-se violentos, houve mesmo algumas mortes. arrepende-se de alguma coisa? Natalia Morari: Sim, com certeza. Como qualquer outra pessoa com responsabilidades em relação ao futuro. Mesmo se não tivesse estado lá, teria pena do que aconteceu. Toda esta violência é terrível… euronews: A Moldávia ainda é muito desconhecida para os europeus e muitas vezes é mostrada como o país mais pobre da Europa. A situação é muito má para os jovens? Natalia Morari: Todos os jovens querem saír do país. É esse o aspecto mais pobre. Sim, temos alguns negócios, temos coisas diferentes, mas, mas… há muitos “mas”. Se o seu negócio começa a ter sucesso, não acredite no futuro. Alguém vai chegar e dizer que se o quiser manter vai ter que lhes dar uma parte, senão acaba na prisão. E esse alguém tem, normalmente, ligações com a família no poder. euronews: Deixou a Moldávia em 2002. Porquê? Natalia Morari: A minha história é comum, para qualquer jovem moldava. Com os comunistas no poder, não acreditava poder conseguir algo aqui. euronews: Entre 2002 e 2007 viveu e trabalhou na Rússia, mas deixou subitamente o país em 2007. O que aconteceu? Natalia Morari: Quando regressava de uma das minhas viagens de trabalho, fui presa no aeroporto e disseram-me que não tinha mais o direito de viver na Rússia, nem sequer de entrar no país. Não me explicaram nada, disseram apenas que trabalhavam para um certo tipo de serviços. Não disseram quem eram, mas disseram que tinham um documento do FSB, os serviços secretos russos. Natalia trabalha como jornalista para o jornal russo New Times. Durante o período em que viveu na Rússia, estudou na Universidade Estatal de Moscovo. A expulsão do país seguiu-se à publicação de um artigo em que denunciava alegados esquemas de corrupção. Na altura, estava a tentar conseguir a nacionalidade russa. O movimento de oposição ao regime moldavo é muito vasto e pouco uniforme. Se alguns, como Natalia, defendem a independência do país, há outros que defendem uma união com a vizinha Roménia, o que permitiria uma entrada na União Europeia. Para muitos, a emigração é a saída. Portugal e Itália são os destinos mais procurados pelos jovens moldavos. euronews: Muitos jovens moldavos saíram do país no passado e muitos vão querer saír no futuro. Por que razão prefere ficar aqui? Natalia Morari: Há quem queira ir viver para Manhattan, há quem queira ser uma estrela de cinema e há quem queira ser médico. Eu quero mudar as coisas à minha volta. Existem muitos rapazes e raparigas que pensam assim, e eu sou um deles. Mesmo se muita gente quer saír do país, há quem queira ficar e tentar mudar as coisas. euronews: Muitas vezes, falam da Moldávia como um país esquecido, embora faça fronteira com a União Europeia. Tem alguma mensagem para a Europa política? Natalia Morari: Penso que não é a União Europeia que tem que resolver os nossos problemas, por que razão o fariam? É algo normal para qualquer país ou federação. Mas vamos continuar a tentar chegar à União Europeia e conseguir empregos lá. É do interesse da Europa ter uma vizinhança normal. As autoridades europeias não deviam simplesmente ouvir os políticos moldavos, deviam também vir cá mais vezes e falar com as ONG, com os media, com pessoas que vivem aqui e não têm uma posição oficial. euronews: Chisinau é uma cidade atractiva para se viver? Natalia Morari: Depende de nós. Podemos fazer de Chisinau uma verdadeira capital europeia, acredito nisso. Dêem-nos mais 30 anos e vão ver uma nova cidade no globo… prometo!