Última hora

Última hora

Irão: o ABC do regime

Em leitura:

Irão: o ABC do regime

Tamanho do texto Aa Aa

O poder do guia supremo, autoridade religiosa dominante no Irão, pode estar a ser posto em causa. Mas é muito difícil sabê-lo num regime complexo onde, inclusivé, os opositores são filhos do regime.

A organização actual remonta a 1979, com a instauração da república teocrática islâmica e populista depois da tomada de poder do Ayatolah Komenei, quando regressou ao país depois de 15 anos de exílio. Desde então, o Irão é governado pelos ayatollahs e, principalmente, pelo o guia supremo, que controla todos os poderes. O Guia Supremo tem ao dispôr um corpo armado que lhe obedece exclusivamente. O Pasdaran, ou Guardas da Revolução, é uma elite militar separada do exército iraniano, com um ministério próprio, um efectivo de 120 mil elementos, unidades navais e aéreas próprias. Os Guardas da Revolução são acusados de apoiar o grupo Hezbollah do Líbano e os insurgentes iraquianos. Assente em dois pilares, a religião e o exército, o sistema iraniano faz coabitar duas legitimidades, uma democrática e política dada por sufrágio universal directo e uma religiosa incarnada pelo Guia Supremo. O povo escolhe o presidente, o Parlemento e a Assembleia de Peritos actualmente dirigida pelo ex-presidente Rafsandjani. Este último organismo é encarregado de nomear o Guia Supremo, que por sua vez controla o Exército, a justiça e o Conselho de discernimento, que arbitra os litígios nos diferentes corpos do regime. O Guia Supremo nomeia também, em parte, o influente Conselho dos Guardiães, que supervisiona o cumprimento da Constituição e da lei Islâmica e que pode opor-se às candidaturas às eleições directas. Em todos estes corpos, os religiosos são maioritários. Até agora, todo o projecto ou candidato reformista bloqueou face ao poder ou ao veto dos teocratas e fracassou. E as causas estão nas divisões profundas e nas rivalidades existentes entre as facções clericais que partilham o poder. Um poder que funciona como circuito fechado onde os críticos surgem enter os grupos de poder. A analista da universidade livre de Bruxelas, Firouzeh, faz a mesma análise: “Certamente que há uma luta de poder, que existe desde sempre. E talvez seja isso que dá a impressão, no estrangeiro, de que há uma democracia, porque há, efectivamente, uma discussão, há lutas no parlamento, há um debate mas é um debate entre pessoas do regime, já aceites pelo regime e que não contestam a forma do regime.” Se houver um dia uma mudança de regime no Irão não se espera que surja nas bases, no povo, mas sim das cúpulas do Estado, causada pelas lutas de poder entre as várias facções .