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Abou El Hassan Bani Sadr: "Se o movimento no Irão mantiver a característica actual de movimento generalizado, as forças de repressão não vão ousar atirar contra a população".

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Abou El Hassan Bani Sadr: "Se o movimento no Irão mantiver a característica actual de movimento generalizado, as forças de repressão não vão ousar atirar contra a população".

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Abou El Hassan Bani Sadr foi o primeiro Presidente da República Islâmica do Irão. Considerado como o filho espiritual do ayatolah Khomeini, foi obrigado a deixar o país em 1980, já que era um opositor à guerra do Iraque e defensor dos direitos humanos. Hoje vive no exílio, em Paris. A Euronews encontrou-se com o antigo Presidente, numa altura marcada pela contestação ao regime de Mahmoud Ahmadinejad.

Euronews: Pensa que é bom para o Irão estar em destaque nos meios de comunicação social? Abou El Hassan Bani Sadr: Certamente. Desta vez é diferente porque estávamos sempre em destaque nos media por razões relacionadas com o dossiê nuclear, a repressão e outras crises. Mas desta vez quem aparece é o povo em movimento que quer a democracia, a liberdade, que estamos seguros pode ser alcançada. Euronews: Tem havido sempre movimentos de contestação na sociedade iraniana, que nunca deram frutos, foram sempre uma decepção. Porque é que agora existe esperança de que algo mude? Abou El Hassan Bani Sadr: Desta vez, é uma incógnita. Será que estes dois candidatos que protestam podem acabar como o ex-Presidente Mohamed Khatami, no quadro do regime ou vão de encontro ao povo? Se agirem como Khatami agiu na sua época, então provisoriamente o regime pode colocar um fim ao movimento, mas esta ruptura é diferente do que aconteceu no tempo de Khatami. Pode ser o fim do regime, o começo do fim. Agora é claro para o povo que não pode esperar do governo nem reformas, nem uma outra política que resolva os problemas do país. Euronews: Acredita que o Ayatollah Ali Khamenei vai aceitar as reivindicações ou pensa que ele vai enviar os Guardiães da Revolução, para acalmar os ânimos? Abou El Hassan Bani Sadr: Até agora, os guardiães da revolução estão sempre presentes, os homens da repressão estão presentes, todos os dias, nas diferentes cidades do Irão. Atacam as reuniões do povo, que mais podem fazer? É esse o problema. Com a fragilidade interior do regime, não acredito que possam fazer muito. A única via aberta para eles, neste momento, é persuadir os dois candidatos perdedores a desistirem. Euronews : É possível que o façam? Abou El Hassan Bani Sadr: É possível, porque não podem ficar dentro do quadro do regime e opor-se a um guia espiritual que tem todo o poder, isso é muito difícil. Euronews: Se não for encontrada uma saída política, poderemos assistir a um banho de sangue? Abou El Hassan Bani Sadr: Um banho de sangue, não acredito. Se o movimento mantiver a sua característica actual de movimento generalizado, as forças de repressão não vão ousar atirar contra a população. Já mataram muitas pessoas. Falam em oito, mas segundo outras informações, há 32 mortos. Mas um banho de sangue, é outra coisa. Euronews: Ninguém, excepto o presidente Sarkozy em França, falou da fraude, há um certo compasso de espera. Barack Obama não foi muitos agressivo, bem como muitos países europeus. Qual a razão? Abou El Hassan Bani Sadr: É preferível que não intervenham. Barack Obama fez muito bem em manter-se neutro. Imaginemos um jovem iraniano, que sai de casa para manifestar-se, sabendo que pode ser morto. Ele pergunta a si próprio: “eu saio de casa para lutar pelos meus direitos ou pelo interesse das potências estrangeiras?” Se ele duvidar não sai de casa. É por isso que peço aos chefes de Estado estrangeiros para não intervirem, nem mesmo contra a repressão. Há muitas organizações humanitárias que defendem os direitos do Homem, são elas que devem manifestar-se. É preciso que as pessoas entendam que é o povo que decide, é o povo que deve agir pelos seus direitos. Euronews : Deixou o Irão há 28 anos. Acha que ainda tem um papel a desempenhar num movimento, em que 50 % são jovens nascidos depois da revolução e que não conhecem as personalidades que fizeram essa revolução? Abou El Hassan Bani Sadr: Creio que o movimento espontâneo é generalizado. As pessoas não acreditavam, o mundo dizia que os iranianos não estavam prontos para fazer de novo uma revolução, que não havia solução. Durante 28 anos alertei que apenas este movimento poderia permitir ao povo reencontrar a liberdade. Hoje, é o povo que lidera este movimento , o que mostra que eu tinha razão. Terá a população avançado porque falei de um movimento? Não, mas disse uma verdade. E agora que o povo se juntou, isso prova que eu tinha razão. Euronews : O que pode parar esse movimento? Abou El Hassan Bani Sadr: Se o regime aceitasse a anulação das eleições, daria uma grande alegria à população. E depois a organização de novas eleições seria uma forma de por fim ao movimento. Em segundo lugar, acho que o regime não pode pôr fim à contestação através de uma repressão sem precedentes. Em terceiro, se os dois candidatos, Karroubi e Moussavi renunciassem a continuar com os protestos e se o povo se desse conta que agiu em nome de pessoas que não o apoiavam como esperado, parava-se o movimento.