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Lee Myung-Bak: "O povo e o governo da Coreia do Sul estão preparados para qualquer eventualidade"

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Lee Myung-Bak: "O povo e o governo da Coreia do Sul estão preparados para qualquer eventualidade"

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Depois das ameaças da Coreia do Norte, do lançamento de mísseis e da detonação de dispositivos nucleares, o Presidente da Coreia do Sul afirma que o seu povo e governo estão preparados para qualquer eventualidade.

Lee Myung-bak, presidente da Coreia do Sul , veio à Europa participar na cimeira do G8, celebrar os vinte anos de uma aliança com a Polónia e dar os retoques finais num acordo de comércio livre com a UE. Na primeira grande entrevista a um canal de televisão europeu, desde que se tornou presidente, o homem, conhecido por “Bulldozer”, falou também sobre a doação da sua imensa fortuna pessoal a causas humanitárias. Euronews Sr. Presidente, tenho de questioná-lo sobre a vizinha Coreia do Norte porque, nas últimas seis semanas, têm havido testes nucleares e o lançamento de diversos mísseis, muitos deles nos últimos dias. Quão perigoso é o vosso vizinho? Lee Myung-Bak, Presidente da Coreia do Sul Globalmente há questões de segurança que representam uma grande pressão. O terrorismo é uma e, se olharmos para os países a nível individual, então a Coreia do Norte é, de facto, um problema muito sério. Uma das mais sérias e urgentes preocupações é o envolvimento da Coreia do Norte na proliferação nuclear. Se materiais nucleares são exportados para outros regimes então a segurança global está, seriamente, comprometida. Esse é um dos motivos porque a questão da Coreia do Norte é tão séria. Euronews Os mísseis lançados e, em particular, os testes nucleares, criaram ondas sísmicas que foram sentidas em vários pontos do mundo incluindo na Europa, que fica a milhares de quilómetros de distância. Pergunto-me como se terá sentido em Seul, tão perto? Lee Myung-Bak O povo e o governo da Coreia do Sul estão preparados para qualquer eventualidade na península coreana. Isto significa que estamos militarmente preparados e as pessoas estão também psicologicamente prontas para qualquer coisa. O povo da Coreia do Sul está preparado desde que nosso país foi dividido há 60 anos. Não fomos completamente apagados pela Coreia do Norte. As pessoas vivem o dia-a-dia normalmente e a economia segue o seu rumo, eu acho isso gratificante. Euronews Como caracteriza o seu adversário de Pyongyang, Kim Jong-il? Lee Myung-Bak O Presidente Kim Jong-il é o líder de um dos países mais isolados do mundo. Como todos sabemos o século XXI é uma era em que as nações, por todo o mundo, se abrem e, através da cooperação internacional desenvolvem as suas economias. Mas a Coreia do Norte continua a ser, provavelmente, o único país no mundo isolado e isso é algo que muitas pessoas não conseguem compreender facilmente. Euronews E, a um certo nível, mais isolado desde o corte quase total nas políticas dos últimos dez anos, da Coreia do Sul relativamente ao norte. Está a seguir, propositadamente, uma atitude mais agressiva em relação à Coreia do Norte? Lee Myung-Bak As administrações anteriores da Coreia do Sul deram cerca de 4.3 mil milhões de Euros de ajuda à Coreia do Norte nos últimos dez anos. A ideia era abrir a Coreia do Norte, mas não funcionou. Agora, têm armas nucleares ou estão a tentar fazê-las. A minha administração está a tentar encorajar a Coreia do Norte a vir para a mesa das negociações. Claro que um dos argumentos que vamos utilizar é a resolução adoptada recentemente pelo Conselho de Segurança da ONU. Euronews Parece que a Coreia do Norte tem ignorado toda a gente e tem vindo a fazer aquilo que quer. Qual é o próximo passo? Lee Myung-Bak É preciso dizer que eu compreendo que haja muitos assuntos domésticos, complexos, na Coreia do Norte que estão a levar ao actual comportamento. O meu governo vai continuar a fortalecer a cooperação internacional, especialmente com países como a China e a Rússia que estão já a trabalhar connosco. São países a favor de se encontrar uma solução pacífica para esta questão. E, tradicionalmente muitos dos estados membros da União Europeia tiveram relações muito próximas com a Coreia do Norte, por isso quero acreditar que vão continuar a ter interesse neste assunto para que possamos encontrar uma resolução pacífica para a questão nuclear na Coreia do Norte. Penso que através de uma cooperação internacional estreita podemos encorajar a Coreia do Norte a regressar à mesa das negociações. Vai ser difícil mas não é impossível. Euronews Está a negociar um acordo de comércio livre com a União Europeia. A que ponto é que já chegaram, quão perto estão de alcançar um acordo? Lee Myung-Bak Há algum tempo que estamos em negociações com a União Europeia sobre um acordo de comércio livre e penso que estamos a chegar ao final. Claro que compreendo que, internamente, a União Europeia tenha de encontrar respostas para algumas posições defendidas por cada estado membro. Quando isso estiver feito, esperamos que já este Verão, Julho ou Agosto, anunciaremos as conclusões das nossas negociações. Euronews Os opositores a este acordo, dentro da UE, podem temer um inundação, um influxo de carros coreanos baratos, quero dizer, carros que não são caros. Lee Myung-Bak A indústria automóvel é apenas um aspecto. Há muitos outros bens, produtos e serviços que vão circular entre a Coreia e a UE. Há aspectos que vão ser benéficos, haverá, em alguns casos, benefício para um lado, que não será tão benéfico para o outro. Mas, no geral, acredito que o acordo vai trazer benefícios tremendos para os dois lados. Em relação aos carros, não acredito que hoje sejam tão menos caros como no passado eram. Acredito que estamos em pé de igualdade, ou até que temos carros mais caros do que os dos construtores europeus. A questão coloca-se na qualidade, é aí que haverá competição entre carros europeus e coreanos. Mas este acordo vai permitir aos construtores europeus um maior acesso ao mercado coreano, onde já têm uma quota de mercado grande. E há um factor positivo, através de nós podem chegar a outras economias na Ásia. Se olharmos holisticamente, penso que será muito benéfico tanto para a Coreia do Sul como para a UE. Euronews Mencionou o G20 mas esta é a semana do G8. O G8 está obsoleto? Qual é o objectivo do G8? Lee Myung-Bak Há muitos desafios a nível global e eu acho que o G8 não pode responder de forma positiva a todas as preocupações globais que temos pela frente. É por isso que temos o G20, composto pelo G8 e pelas economias emergentes e em vias de desenvolvimento, para que possam trabalhar em conjunto através da cooperação internacional para resolverem algumas das questões que mais pressionam a nível global. Se acredito que o G8 está obsoleto? Claro que não. Acredito que o G8 tem um papel e responsabilidade substancial, que é único. Mas, ao mesmo tempo, penso que o G20 tem muitas formas de contribuir para resolver estas questões globais. Euronews Sr. Presidente gostava de perguntar-lhe sobre um gesto que foi altamente noticiado, e que é muito pouco usual no líder de um país. Que é o facto de ter doado todo o seu dinheiro. Pode falar-me um pouco sobre isso? Lee Myung-Bak É um pouco embaraçoso falar sobre isso mas, de facto, eu demarco-me de todos os presidentes por ter abdicado de toda a minha fortuna pessoal em prol da sociedade. Cresci numa situação de pobreza extrema. Ao longo da vida fui ajudado por muitas pessoas. Algumas delas também não viviam muito bem, estavam numa situação similar à minha na altura. Mas, como vê, tornei-me presidente devido à ajuda destas pessoas de bom coração. Agora que posso, sinto que é minha responsabilidade devolver tudo o que ganhei através da ajuda destas pessoas, especialmente às que trabalham muito mas não são muito bem pagas. É um prazer puro ter a possibilidade de fazer isto.