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Natalia Esterimova: uma voz sem medo

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Natalia Esterimova: uma voz sem medo

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Quando Moscovo anunciou o fim da operação antiterrorista na Chechénia as autoridades esforçaram-se por pintar um quadro idílico da realidade: a normalidade tinha regressado à república do Cáucaso. Mas o homicídio de Natalia Estemirova veio borrar a pintura.

No dia 9 Maio, pela primeira vez nos últimos cinco anos, os militares chechenos desfilaram nas ruas de Grozny para celebrar a vitória russa contra a Alemanha nazi. Uma ocasião para as tropas locais mostrarem a sua capacidade em manter a segurança na república depois da retirada de 20.000 soldados russos e que o homem-forte da Chechénia não deixou de sublinhar: “A lei impera no território da república da Chechénia. É claro que ainda existem alguns bandidos, dezenas deles, mas todos os dias apanhamos uns, todos os dias destruímos alguns. Temos instituições especiais que lidam com eles, como o ministério do Interior, e o nosso governo faz o seu trabalho. O resultado deste esforço colectivo é que temos prosperidade, estabilidade e o povo está feliz.” Em Junho do ano passado Grozny era ainda uma cidade em reconstrução. A presença policial e militar era maciça e por isso bem visível, de forma a evitar atentados. Mas o medo continuava a assombrar a vida das pessoas, como explicava Natalia Estemirova: “Têm-se registado menos sequestros mas isso não quer dizer que tenham acabado. Dantes as pessoas desapareciam, agora, a maioria regressa a casa ao fim de dois ou três dias, brutalmente espancada. As vítimas preferem esconder aos outros a sua experiência o que acaba por criar uma ideia de crime escondido. Na Chechénia o nível de criminalidade escondida é bastante elevado.” A activista dos Direitos Humanos era uma das raras vozes a criticar abertamente a governação musculada de Ramzan Kadyrov. Foi o caso em 2008 quando o presidente checheno impôs o uso do véu islâmico nas escolas: “Creio que esta decisão resulta do desejo de instalar uma ditadura e subjugar certas partes da população. E os homens permanecem em silêncio, não dizem que isto está errado, o que contradiz a tradição. É que apenas o marido, o pai ou o irmão pode dizer à mulher, à filha ou à irmã: tens de pôr o véu.” No ano passado Kadirov encorajou os homens à poligamia, como manda a tradição islâmica. De acordo com o presidente, na Chechénia há mais mulheres do que homens e elas precisam de ajuda para se instalar na vida.