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Durão Barroso acredita numa maioria para segundo mandato

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Durão Barroso acredita numa maioria para segundo mandato

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O presidente cessante da Comissão Europeia, Durão Barroso, candidato a um segundo mandato, quer convencer a maioria do Parlamento Europeu da necessidade de união. Para a Cimeira Extraordinária dos 27, preparou um programa político europeísta de consenso social, sobre a livre circulação e o mercado interno..que abordou em entrevista à Euronews.

euronews – Nos planos para os próximos cinco anos na Comissão Europeia, insiste muito na questão económica. Como é que a Europa pode sair desta crise? Durão Barroso – Bem, essa é a prioridade. É a principal preocupação dos nossos concidadãos e agora há que organizar a saída da crise. Mas, antes disso, há que manter os planos de estímulo da economia. É verdade que já surgem boas notícias, por aqui e por ali, mas ainda é muito cedo para falar de fim da recessão. euronews – Fala de um apoio à procura e, ao mesmo tempo, da luta contra o desemprego. Mas como o conseguir? D.B. – Há um esforço a fazer a nível nacional mas acho que também o devemos a nível comunitário, devemos utilizar e adaptar os nossos instrumentos, nomeadamente o fundo social. Fiz propostas para, por exemplo, suspender o co-financiamento dos Estados nesta fase pois há Estados que não têm a capacidade de ajudar mais na luta contra o desemprego. Acho que, a curto prazo é o que podemos fazer com os nossos meios. A médio prazo, é preciso investir nas novas fontes de crescimento, inovação e energia. Propus uma super rede de interligações energéticas para a Europa. Ou seja, investir na sustentabilidade da base industrial europeia. euronews – Que pensa das ideias vindas da Grã Bretanha, da França e da Alemanha para o G20. Acha que é a boa via, lutar contra os paraísos fiscais e conseguir ameaçá-los? É um som sinal da Europa? D.B. – Deixe-me dizer-lhe, talvez com pouca modéstia , que a Comissão já lançou propostas, infelizmente os Estados membros não notaram. Por exemplo, na minha Comissão em fins de 2004, fizémos uma recomendação para lutar contra as remunerações excessivas, e tudo aquilo a que chamam bónus. Relativamente aos paraídos fiscais, há já mais de 30 anos, que a Comissão luta contra os paraísos fiscais. Mas a verdade é que não havia consenso e, nos últimos meses fizémos mais do que em 30 anos, graças ao movimento que lançámos no G20 com os americanos, que também pressionaram alguns paraísos fiscais. euronews – Acha que os serviços financeiros devem ter mais liberdade de movimento? D.B. – Os serviços e os produtos financeiros são importantes. Dão muitos empregos na Europa. Mas têm de estar sujeitos a regras para ser credíveis. E, efectivamente, assistimos a comportamentos que vão contra toda a ética. Vimos isso. euronews -No entanto, a Comissão defendeu a livre circulação desses produtos… D.B. – Nós estamos…é um direito, uma obrigação do Tratado de Roma: a liberdade de circulação na Europa, dos capitais, dos serviços, das mercadorias, das pessoas. Somos pela liberdade, mas uma liberdade regulamentada. E é nisso que estamos a trabalhar de momento, há condições para o consenso. Eu próprio tomei a iniciativa de pedir um relatório ao grupo presidido por Larozière. euronews – Os europeus, os cidadãos europeus, estão cada vez mais preocupados com o que chamamos liberalismo, os excessos do liberalismo. Pensa que a Comissão Europeia deve criar uma directiva para a protecção dos serviços públicos? D.B. – No Tratado de Lisboa já havia propostas muito claras de defesa e de garantia dos serviços públicos. Eu acredito que os serviços públicos preenchem uma função essencial no nosso modelo europeu de sociedade. Estou pronto a discutir com o Parlamento Europeu a melhor maneira de garantir esta protecção e esta especificidade dos serviços públicos, dentro do respeito do mercado interno europeu. Temos reservas em relação às tentativas de uma certa renacionalização, de uma fragmentação do mercado interno. euronews – Quando e como está pronto a discutir com o Parlamento Europeu? Porque, para certos grupos no Parlamento europeu, é algo essencial, a protecção dos serviços públicos… D.B. – Na próxima semana, vou discutir com todos os grupos políticos que me convidaram, as grandes linhas para os próximos cinco anos… euronews – Está pronto a fazer concessões nesse sentido? Que concessão pode vir a fazer sobre… D.B. – Não é uma questão de concessão. Tento ter o máximo de ambição, mas qualquer coisa que seja realista. Para que, depois, possamos ter o apoio das diferentes forças políticas no Parlamento. euronews – Mas quando lhe falarem dos serviços de interesse geral e de uma necessidade de os proteger com uma directiva, uma directiva-quadro contra os riscos da concorrência e da liberalização, o que vai responder? D.B. – Isso vou discutir com as diferenças forças políticas. No documento que acabo de apresentar ao Parlamento Europeu, afirmo que devemos proteger os serviços públicos como algo de muito importante, os serviços públicos de interesse social, nomeadamente. Digo-o claramente: é a minha linha política, é a minha linha geral. Agora, como fazê-lo de um ponto de vista normativo? É o que falta discutir com as diferentes forças políticas. E quero estar seguro de que é algo que resulta. euronews – Acha que a Europa deve propôr uma taxa sobre o carbono a nível europeu? D.B. – Os Estados membros estão muito divididos sobre isso e acho que, por enquanto, até as forças políticas estão muito divididas e outras estão contra, no Parlamento. Acho que actualmente, devemos concentrar-nos nos resultados mais ambiciosos possíveis para Copenhaga. E depois, vamos ver qual é a possibilidade de introduzir medidas de protecção. Isto é, os impostos na Europa constituem um assunto difícil, é preciso a unanimidade… euronews – Sobre a imigração clandestina, a imigração ilegal, acha que, para lá das polémicas recentes com a Comissão Europeia e certos Estados membros…há Estados membros deixados sozinhos? Principalmente Estados do Sul em relação ao problema… D.B. – Sempre dissémos. Eu mesmo, aliás, disse que o problema da imigração não é apenas o problema dos países que têm imigração ilegal, é um problema da Europa no seu todo. Foi o que disse em Itália, em Malta, em Espanha. E as propostas que fizémos ao conjunto dos Estados membros, foram precisamente no sentido da solidariedade. Os imigrantes ilegais que entram, por vezes em Malta, têm como objectivo ir para toda a Europa comunitária. E o Comissário Jacques Barrot acaba de fazer propostas muito concretas em termos de realojamento para que os Estados membros se possam entre-ajudar. Mas é uma competência dos Estados acolherem bem as pessoas no próprio território. euronews – Uma última questão…acha que vai ter um segundo mandato como presidente da Comissão Europeia? D.B. – A verdade é que o meu nome foi o único que apareceu até agora. Tive o apoio de todos os Estados, com todas as tendências políticas. E isso é importante. Acho que agora não é tempo de fazer uma divisão partidária na Europa, mas de tomar partido pela Europa. Tenho um programa muito europeu e por isso acho que vou ter uma maioria clara no Parlamento. E trabalhei muito bem nos últimos cinco anos com o Parlamento. euronews – …uma clara maioria com o voto dos eurocépticos também… D.B. – Eu gostava de ter, principalmente, o apoio dos pró-europeus. O meu programa é muito europeu.