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"A Europa ficará numa situação difícil se a Irlanda votar "Não"", Dick Roche, Ministro Irlandês dos Assuntos Europeus

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"A Europa ficará numa situação difícil se a Irlanda votar "Não"", Dick Roche, Ministro Irlandês dos Assuntos Europeus

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Dick Roche, o Ministro dos Assuntos Europeus da Irlanda, tem uma missão: encorajar os irlandeses a votarem “sim” no segundo referendo sobre o Tratado de Lisboa. A questão não está isenta de controvérsia, o Primeiro-ministro é impopular e a campanha a favor do “não” acusa o governo de utilizar a crise económica na Irlanda para levar as pessoas a dizerem sim. Apesar do sim seguir à frente nas sondagens Dick Roche avisa que não descansará até ao referendo.

Euronews Senhor Ministro, benvindo à Euronews. Dentro de duas semanas, a dois de Outubro, toda a União Europeia vai estar de olhos postos no vosso pequeno país enquanto decidem o vosso futuro. Está nervoso? Dick Roche, Ministro Irlandês dos Assuntos Europeus Não estaria a dizer a verdade se dissesse que não estou nervoso. É difícil prever o resultado. Pedi votos, visitei as pessoas nas suas casas. Estive em sete ou oito municípios e o meu sentimento é melhor este ano. As pessoas estão mais interessadas. A crise criou uma preocupação com a realidade económica, as pessoas compreendem que a Irlanda, uma ilha pequena, depende muito das exportações e do investimento estrangeiro. é preciso sermos parte real do todo que é a Europa. Não podemos instalar-nos numa espécie de zona eurocéptica. As concessões, as garantias que nos deram são bastante prudentes, estão bem direccionadas, vão ao encontro das preocupações mencionadas na campanha do ano passado. Euronews Essas garantias não foram garantidas, por assim dizer, no primeiro referendo. Dick Roche Sim, é importantes dizê-lo porque depois do último referendo fizemos uma análise detalhada para percebermos o que fez os irlandeses, os mais positivos sobre a Europa, entre os 27, votarem não. Como é que pessoas tão positivas votaram não a Lisboa? Quando começamos a analisar questões concretas apercebemo-nos que 80 por cento das pessoas, quer tenham votado sim ou não ou nem sequer o tenham feito, sentiam que votar com a comissão era muito importante. Não porque vissem a comissão como representativa da Irlanda mas porque sentiam que era importante um pequeno país como a Irlanda ter assento na mesa da comissão. Esse foi um dos passos positivos. Euronews Um lado não tão positivo é a popularidade, o Primeiro-ministro, Brian Cowen, não é muito popular actualmente, não estão preocupados que este referendo possa transformar-se num voto de protesto contra ele e o seu governo? Dick Roche Tem razão. A popularidade do nosso partido está em baixo neste momento. É a mais baixa da nossa história, e temos uma longa história. Mas penso que as pessoas estão a diferenciar as coisas. A noite passada estivemos em campanha em Bray, onde vivo, e foi muito interessante. As pessoas diziam: “Bem, não estamos muito satisfeitas com algumas coisas que o seu governo anda a fazer mas vamos votar “sim”. As pessoas sabem, muito bem, que no futuro vai haver uma eleição geral e tempo para reflectirem se o governo fez um bom trabalho ou se alguém vai fazer melhor. Esta não é a ocasião para isso. Euronews Os defensores do “não” afirmam que vocês permitiram à Comissão Europeia assumir o controlo e forçar um novo referendo. Dick Roche Mas isso não é verdade. É completamente falso. Há quem acredite que se pode pegar numa grande mentira e repeti-la muitas vezes para que as pessoas acreditem”. Mas isso não faz da mentira verdade. Não há qualquer dúvida de que a atitude adoptada pelos responsáveis do estado e do governo, e pelas instituições europeias foi respeitadora. O povo da Irlanda falou e a sua decisão foi acatada. No que toca à nossa Constituição ele é a única autoridade soberana, a nossa Constituição só pode ser modificada com o aval do povo. Ele é autoridade soberana e têm que ser ouvido. Euronews Diz que o povo é soberano e isso é a democracia, mas, mais uma vez, os críticos afirmam que no ano passado se votou “não” e que “não” significa “não”, e não compreendem porque se pede aos irlandeses que votem o mesmo tratado. Dick Roche Vou contar uma história. Sou afortunado por continuar casado com a mesma mulher há 30 anos mas tive que pedir-lhe várias vezes para casar comigo antes dela decidir fazê-lo. Estou muito satisfeito por ter sido persistente. Agora a situação é diferente, o contexto é outro, a ocasião é outra. É um pacote de medidas diferente ao qual nós e a comissão dissemos sim. A questão do aborto, impostos e neutralidade estiveram sempre sobre a mesa, em todos os cartazes, anúncios, em todas as campanhas pelo “Não” na última consulta popular. Já solucionámos essas questões. Por isso voltamos a consultar as pessoas sobre o mesmo tratado, é verdade, mas tratasse do mesmo tratado num contexto diferente. E, a maior alteração é que passará a haver um comissário por cada Estado Membro. Euronews Se votarem “não” então não haverá garantias. Dick Roche Se votarmos “Não” a situação é simples. Passamos a reger-nos pelo Tratado de Nice. E o Tratado de Nice diz que com o actual número de Estados Membros tem que haver menos comissários do que Estados-membros. Isso é o que a lei diz. Nós ratificámos esse tratado tal como os restantes estados membros o fizeram. Por isso essa é a posição legal e ninguém irá contrariar ou optar por outra posição que não seja a legal. A Europa ficará numa situação difícil se a Irlanda votar “Não”. E uma coisa é certa, se votarmos não, ficamos numa posição em que todos teremos algo a perder. Euronews “O Ministro dos Negócios Estrangeiros garantiu que o governo não se demitirá se a 2 de Outubro o referendo falhar. Parece a forma mais estranha de fazer campanha pelo “Sim”, parece que estão a dizer que se o “sim” ganhar” há uma hipótese de se demitirem… Dick Roche “Não, não se trata disso. Ele estava a responder a uma questão específica. E essa questão não tinha nada a ver com o referendo, ou seja: “Se o não ganhar demitem-se?”. Nesse caso se respondesse de forma positiva transformaria o referendo numa eleição geral. Não era sobre isso. Aqui sim a questão é o referendo que vai decidir o futuro do Tratado de Lisboa. O Presidente francês Charles de Gaulle tinha razão, há uns anos, quando disse que o problema de um referendo é que te respondem a perguntas diferentes que as que formulaste. Nós queremos assegurar-nos de que isso não acontece. Como está escrito num dos cartazes de campanha de um dos maiores grupos económicos da Irlanda: “A recuperação começa com um voto pelo “Sim”. É a verdade. A nossa recuperação e a da Europa e isso é muito importante. Não se trata apenas da Irlanda mas de mais 26 estados-membros e de 490 milhões de pessoas em toda a Europa. É do interesse de todos que a Europa se torne num espaço mais democrático com uma estrutura institucional mais eficiente e com uma voz mais presente no mundo. Estas são as três coisas que o Tratado de Lisboa garante: mais democracia, mais eficiência mais eficácia. E quem pode opor-se a isto?