Última hora

Última hora

"Temos que nos distanciar de uma sociedade que está obcecada com o consumo e com o consumismo."

Em leitura:

"Temos que nos distanciar de uma sociedade que está obcecada com o consumo e com o consumismo."

Tamanho do texto Aa Aa

Era uma vez um príncipe sobre quem muito se escreveu sobre a sua vida privada. Quando e com quem vai casar o príncipe Alberto do Mónaco?

Hoje, o líder do principado mediterrânico está nas notícias por razões muito diferentes. Auto designou-se como um actor-chave na protecção do ambiente. O príncipe Alberto explica à euronews porque é que tentar salvar o planeta se tornou uma grande parte da sua vida. euronews – “Sua Alteza, obrigado por falar com a euronews! Desde que se tornou soberano do Mónaco ganhou o apelido de “Píncipe Verde”. Pergunto-me, com tantas causas importantes que existem porque escolheu o ambiente como prioridade? Alberto do Mónaco – Sabe, eu estive envolvido durante muitos anos com o meu pai, e com o principado, com o Estado, em diversas iniciativas. Foi na segunda cimeira da Terra, em 2002, em Joanesburgo, que eu realmente senti que havia necessidade de começar a fazer mais nessa área. Então, quando assumi o cargo deixado pelo meu pai, fiz da questão uma prioridade, não só para o Mónaco enquanto Estado, ou enquanto cidade-estado, para o povo monegasco, mas também para mim pessoalmente. Foi também por isso que criei uma fundação que tem o meu nome e que se dedica exclusivamente às questões ambientais e que tenta ser um actor no terreno. EN – Ninguém pode acusá-lo de fazer as coisas pela metade. O senhor assinou o Protocolo de Quioto, organizou expedições aos Pólos Norte e Sul. Por que razão essas expedições à ‘linha da frente’ ambiental foram tão importantes para si? AM – Acho que era importante descobrir as coisas pessoalmente e ser capaz de ir a essas áreas problemáticas, se quiser, em termos ambientais. Áreas muito frágeis que são indicadores claros das alterações climáticas. Foi por isso que fui ao Árctico Também tentei ligar isso aos 100 anos das expedições ao Árctico do meu trisavô Alberto I e em Janeiro fui à Antárctica. EN – Enquanto Príncipe amigo do ambiente, o senhor tem agora alguma concorrência, não tem? AM – O príncipe Carlos? EN – Exactamente. AM – Não é concorrência, é uma parceria! EN – É precisamente aí que quero chegar. Dois príncipes fazem melhor do que um só. Já pensaram juntar-se num projecto conjunto? AM – Já falámos sobre isso. É difícil combinar as nossas disponibilidades para termos um debate substancial sobre esta questão, mas estamos a estudar a possibilidade de colaborarmos. EN – Em relação ao príncipe de Gales não sei, mas no seu caso o amor pela natureza e pelo ambiente parece estar no seu ADN. É como uma tradição de família. Falou do seu trisavô, do seu pai, o príncipe Rainier. Ele foi uma inspiração para si no seu ‘despertar’ para as questões ambientais ao dar-lhe um mapa pouco usual nos anos 70. AM – Sim, exactamente. Foi um mapa publicado pela National Geographic em 1970, há quase 40 anos. Se olhar para ele vê que está escrito: ‘como o homem polui o seu mundo’. Os temas que aborda são temas actuais, não só ligados à poluição e ao tratamento de resíduos, mas também à desflorestação e à pesca excessiva. EN – Esse mapa é ainda muito importante para si não é? Li algures que o senhor o levou nalgumas das suas expedições… AM – Viajo com uma versão mais pequena e não com o mapa inteiro. Esteve no meu quarto durante muitos anos e obviamente olhei para ele com muita atenção quando o tive, mas depois foi como se o esquecesse. Estava ali na parede. Foi só nos últimos anos que disse cá para mim: ‘eu já li isto algures’ e esteve ali o tempo todo. EN – Sei que uma das causas que mais merecem a sua atenção é a protecção do atum rabilho. Por que razão é assim tão importante? AM – Se deixarmos essas espécies desaparecerem passaremos a ter uma grande lacuna no ecossistema marinho do Mediterrâneo e do sul do Atlântico. Isto tem consequências enormes na cadeia alimentar e em todo o ecossistema. EN – Quando se fala de Mónaco, muitas pessoas pensam em ‘paraíso fiscal’ ou em ‘terreno de jogo dos milionários’. Permita-me que o diga, mas o senhor chegou mesmo a ser considerado pela imprensa popular como um ‘príncipe playboy’. Até que ponto é que acha que o trabalho que está a fazer na área do ambiente ajuda a mudar essa imagem? AM – Eu não assumi este compromisso para mudar de imagem. A realidade do Mónaco sempre foi diferente daquela que era descrita por uma parte da imprensa. Não se trata apenas de casinos e turismo de luxo, muito embora façam parte da nossa economia. Mas não há só isso. Há muito mais que está a ser feito no Mónaco tanto em termos científicos, como na pesquisa, na educação, na cultura e no desporto… EN – Por razões óbvias, o paraíso fiscal mantém-se! AM – Por razões óbvias, mas acho que temos sido capazes de lidar com isso com algum êxito ao sermos retirados das diferentes listas relativas a informação fiscal e a lavagem de dinheiro. Acho que fomos capazes de provar que ultrapassámos essa imagem, muito embora eu seja muito realista e tenho a certeza que ainda nos vai perseguir durante algum tempo. EN – No final do ano vamos ter a cimeira de Copenhaga que pretende dar seguimento a Quioto… O Protocolo de Quioto expira em 2012. Está optimista sobre a tomada de uma decisão significativa na capital dinamarquesa? AM – Não sei se é uma questão de optimismo ou de pessimismo. É tudo uma questão de termos que chegar a acordo. Como disse o senhor Ban Ki-moon, o secretário-geral das Nações Unidas: ‘selar o acordo’. Não nos podemos dar ao luxo de não termos um texto que seja a próxima referência em termos de emissões de dióxido de carbono, em termos de quotas, para a próxima geração. Por isso, temos que chegar a acordo. EN – Para terminarmos de forma optimista, se tiver um conselho a dar a alguém como eu que sou uma ambientalista fracassada ou relutante, algo que eu possa fazer amanhã para fazer a diferença, o que é que me sugere? AM – Simplesmente temos que voltar a examinar não apenas o nosso modo de vida, mas a nossa concepção do que é qualidade de vida e que significado tem para nós. Temos que nos distanciar de uma sociedade que está obcecada com o consumo e com o consumismo. E isto tem que significar outra coisa, não sei o quê, mas tem que significar outra coisa, porque não podemos continuar a fazer o que fazemos hoje.