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Ismail Kadaré: "A Albânia e o Kosovo têm aspirações à Europa"

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Ismail Kadaré: "A Albânia e o Kosovo têm aspirações à Europa"

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Galardoado com o Prémio Príncipe das Astúrias, Ismail Kadaré é o escritor mais famoso da Albânia e uma referência internacional, desde os anos 60. Na sequência de eventos que se seguiram à queda do muro de Berlim, deixa Tirana e instala-se em Paris. Os seus romances são descritos como “a condenação aberta de todas as formas de totalitarismo”. O autor recebeu o jornalista Olaf Bruns, em sua casa, na capital francesa.

euronews – Tinha dez anos quando Enver Hoxha estabeleceu uma ditadura na Albânia. Cresceu com esta realidade. Para descrever a descoberta da liberdade, disse uma vez que foi através da litertura que encontrou a liberdade. Ismail Kadaré – É muito simples e lógico. Comecei a escrever muito cedo, quando tinha 11 anos. Com essa idade, para entrar dentro da literatura, não somos empurrados por razões políticas ou ideológicas. Pensava que vivia num país como os outros, não compreendia o quer era um país sem liberdade. E fui em direcção á liberdade através da literatura. Quer dizer, comecei a fazer literatura quando não sabia nada sobre liberdade. Quando era estudante, apercebi-me da situação na Albânia, de forma muito clara e directa. E isso foi testemunhado pela minha escrita nessa altura. euronews – Como se desenvolveu a tomada de consciência desse sistema totalitário? Ismail Kadaré – Não foi muito difícil. Agora, achamos que era uma grande descoberta, mas.. não! Era fácil de compreender que a Albânia era um país com um grande problema: a falta de liberdade. Na Albânia, podiamos ouvir a rádio ocidental ou ver a televisão ocidental. Não podemos dizer agora que não sabiamos nada, porque estávamos cegos. Não, na Albânia não éramos cegos! O regime era muito duro, muito estalinista, mas era diferente: a repressão era terrível, mas não tinhamos falta de conhecimento. euronews – Festejam-se agora os 20 anos da queda do muro, mas 1989 foi também o ano do massacre na praça de Tiananmen. Vem de um país que era aliado da União Soviética e da China, antes de se isolar completamente. Como viveu estes dois acontecimentos? Ismail Kadaré – Foram acontecimentos ligados directamente ao destino do meu país. Não só eu, como todo o povo albanês, o mundo inteiro, seguiu esses acontecimentos e toda a gente tirou as suas conclusões. euronews – Em1990 deixou a Albânia e veio para Paris. Porquê nessa altura? Ismail Kadaré – Tinha um objectivo muito preciso. A Albânia hesitava entre o ocidente e a ditadura, entre o espírito da liberdade e a escravatura. Percebi na época uma coisa que muita gente não sabia: o regime estava a fazer um jogo muito hipócrita. Esperava entender-se com a União Soviética… não com a União Soviética de Gorbatchev, mas com a União Soviética dos putschistas, que estavam a preparar-se para tomar o poder. Foi preciso fazer qualquer coisa escandalosa: deixei a Albânia, eu que era o escritor mais conhecido do país. Tinha de declarar abertamente que aquela ditadura ainda persistia. Em suma, dei um impulso à democracia e uma lição à ditadura. euronews – Nos últimos 20 anos, tem defendido a causa de um outro povo de língua albanesa: os kosovares, que agora têm um estado próprio. A Espanha, que lhe entrega agora um prémio literário, faz parte dos países que ainda não reconheceram a independência do Kosovo. O que tem vontade de dizer às autoridades espanholas? Ismail Kadaré – Defendi a liberdade do povo do Kosovo, uma coisa que faria pelos outros povos. Não foi nada de especial, só porque sou albanês. Era uma causa muito evidente, um grande escândalo no meio da Europa, um povo que vivia em condições de colónia. A minha reputação de escritor pode ter ficado danificada com isso, porque não é fácil quando um escritor insiste que a Jugoslávia deve ser punida, pela repressão terrível no Kosovo. Não é fácil para um escritor. Sabe, há aqueles clichés dos escritores… são contra as punições, os bombardeamentos, etc… No que diz respeito a Espanha, não sei exactamente como justifica o facto de não aceitar a independência do Kosovo. Penso que estabeleceram um paralelo entre os seus problemas internos e os Balcãs. euronews – Acredita que o Kosovo e a Albânia vão unir-se, mais tarde ou mais cedo? Ismail Kadaré – Essa tendência existe, é verdade. Mas é uma tendência mais sentimental e romântica… é algo que nem sequer é organizado, no seio dos partidos ou nos seus programas. Não podemos dizer agora que os albaneses renunciaram à ideia de que somos uma Nação. Mas com a entrada na Europa, creio que vamos desdramatizar isso. Não é como antes, quando o Kosovo estava totalmente separado da Albânia e fazia parte de um outro país completamente diferente. Agora a Albânia e o Kosovo têm aspirações à Europa.