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Delors regressa a 1989

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Delors regressa a 1989

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Há 20 anos, caía o Muro de Berlim. Uma notícia choque, para Jacques Delors, para a Europa e para o Mundo. O então presidente da Comissão Europeia assistiu aos acontecimentos na primeira fila.

Figura histórica da construção europeia, Delors teve um papel decisivo em todas as etapas que se seguiram à queda do muro. Numa entrevista exclusiva à euronews, Delors recorda estas semanas que mudaram a face da Europa. 20 anos depois, uma reflexão também sobre onde estamos e onde vamos no que toca às novas etapas e aos novos desafios do continente. Fabien Farge, euronews: Dentro de poucos dias, vamos festejar os 20 anos da queda do muro de Berlim. Nessa altura o senhor era presidente da Comissão Europeia. Qual era a atmosfera dos dias que precederam este acontecimento? Jacques Delors: A atenção de todos os membros da Comissão Europeia estava virada para a evolução dos acontecimentos. A Polónia tinha já dado grandes passos em direcção à democracia. Havia grandes manifestações na Alemanha de Leste, nomeadamente em Leipzig, e havia muitos alemães de Leste que tentavam passar para o Ocidente através da Hungria. Tudo isso foi possível graças à decisão do sr. Gorbatchov. Fabien Farge, euronews: Regressemos ao que se passou a 9 de Novembro de 1989. O muro cai. Onde estava quando soube deste acontecimento? Qual foi o seu sentimento pessoal e político, enquanto presidente da Comissão Europeia? Jacques Delors: O acontecimento foi um choque. Era preciso ver se tudo aquilo se ia passar de forma pacífica. Nunca sabemos o que pode acontecer, as reacções da polícia, dos dirigentes comunistas. Estávamos extremamente atentos ao que se ia passar. O que foi importante foram as semanas seguintes. Em primeiro lugar, porque o chanceler Kohl, o sr. Gorbatchov e o sr. Bush, na altura presidente dos Estados Unidos, multiplicaram os contactos para evitar incidentes que podiam ter tido como consequência dezenas de milhares de mortos. Do nosso lado, queríamos ver como tudo se ia passar. Os chefes de Estado e Governo reuniram-se no Eliseu, porque na altura a França tinha a presidência europeia. Foi preciso explicar que não havia razão para ter medo. Havia quem sentisse alguma ansiedade em relação à reunificação alemã. Trabalhámos muito nesse sentido. Em Abril de 1990, o conjunto da então Comunidade Europeia reconheceu a vocação dos alemães para se reunificarem. Fabien Farge, euronews: Enquanto presidente da Comissão Europeia, que posição adopta? O que faz, concretamente? Jacques Delors: A 12 de Novembro, respondi às questões de uma televisão alemã, dizendo que os alemães de Leste, entre aspas, tinham o seu lugar na Europa. Fui, sem dúvida, o primeiro na Europa Ocidental a pronunciar esta frase. Ao mesmo tempo, coloquei a questão ao chanceler Kohl: “Os alemães de Leste não têm o vosso nível de vida, nem a vossa escala de desenvolvimento, por isso estou pronto a propor à União Europeia que assuma uma parte do fardo”. Então, o chanceler Kohl disse que não, que isso seria muito mal visto pelos parceiros. Para já, era preciso convencer que a Alemanha reunificada não iria mudar de política, nomeadamente de política europeia. O que fizemos foi, simplesmente, propor que as políticas de desenvolvimento regional, que financiávamos no quadro do orçamento europeu, fossem estendidas aos lander ditos de Leste. Eu próprio e alguns dos meus colaboradores fomos a esses lander, montar programas de ajuda, o que foi bem recebido por todos. Fabien Farge, euronews: Havia uma verdadeira inquietação no seio da União Europeia quando a reunificação alemã foi posta em marcha? Jacques Delors: Houve interrogações da parte dos outros países. Diziam: “Será que a Alemanha de Berlim será igual à de Bona, no que toca à construção europeia?” Fabien Farge, euronews: Que lições tirou desse período? Jacques Delors: Em primeiro lugar, no que toca às modalidades da reunificação, considerava-as arriscadas. Custavam muito caro aos alemães, em termos de despesa pública, mas a decisão do chanceler Kohl, no que toca à moeda da Alemanha de Leste, foi acertada. Em segundo lugar, sempre considerei que a Europa não se construía por ela própria, mas sim para responder aos desafios da história. Para mim é uma grande alegria que tenhamos aberto os braços a todos estes países, que saíam das trevas do totalitarismo. Fabien Farge, euronews: Com este recuo de vinte anos, arrepende-se de alguma decisão que tenha tomado? Jacques Delors: Gostava que a Comunidade Europeia tivesse ficado com uma parte mais pesada do fardo mas, como disse, o chanceler Kohl recusou. Depois, mesmo estando muito contente com o alargamento, eu tinha na altura proposto que a nossa casa europeia se preparasse para receber mais 10 países. Na altura, falhei. Propus isso na cimeira europeia de Lisboa, em 1992, e os chefes de Estado e Governo não seguiram os meus pensamentos. Por isso tenho pena que a casa não tenha sido devidamente arrumada, que não tenha havido uma grande reflexão sobre o que seria uma Europa a 25 ou a 27, antes de concluír o alargamento. Fabien Farge, euronews: Justamente, a União Europeia tem actualmente 27 membros, provavelmente terá mais em breve e está no limiar de uma nova era, com o tratado de Lisboa, que os irlandeses acabam de aprovar em referendo. Qual é o seu sentimento sobre este capítulo novo que se abre para a Europa? Jacques Delors: O meu sentimento é que se queremos viver juntos, a 27 e amanhã a mais, é preciso que a liderança da União esteja à altura desse papel. Cada instituição tem um papel a desempenhar. Fabien Farge, euronews: Para si, o tratado de Lisboa não vai necessariamente no sentido correcto… Jacques Delors: Eu votei sim, mas tenho muitas reservas quanto à criação de um presidente permanente do Conselho Europeu. A solução ideal é que os governos considerem de novo a comissão pelo que ela deve ser e que o Conselho de chefes de Estado e governo não se meta em tudo e fique limitado às grandes orientações, às grandes opções, de uma forma simples. Dessa forma, pode funcionar. Mas repito: saber como fazer é tão importante como saber o que fazer.

O Muro de Berlim: pt.euronews.net/1989-2009