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Jaruzelski: "A minha decisão mais difícil foi declarar a lei marcial"

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Jaruzelski: "A minha decisão mais difícil foi declarar a lei marcial"

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Wojciech Jaruzelski foi o último dirigente comunista da Polónia. É uma figura polémica porque impôs a Lei Marcial, em 1981. Justificou a medida de excepção com a necessidade de salvar o país da invasão soviética. Milhares de militantes do Solidariedade foram para o exílio, Lech Walesa foi preso com outros dirigentes do movimento. Em 2008, começou o processo de Jaruzelski por crimes comunistas – ainda não terminou. Mas como chefe de Estado, em 1988, aprovou conversações entre o governo e o Solidariedade, que terminaram um ano depois, com um acordo de reformas no sistema político polaco.

euronews – Lembra-se do que fez no dia 9 de Novembro de 1989, quando caiu o Muro de Berlim? Wojciech Jaruzelski – Mal posso lembrar exactamente onde estava, provavelmente estava no meu escritório e devo ter tido a informação, antes de ser oficialmente divulgada. Confesso que não foi uma grande surpresa para mim. Tinha estado em Berlim a 6 ou 7 de Outubro. Estava lá Gorbachev, havia uma grande manifestação organizada por Honecker para celebrar os 40 anos da fundação da RDA. Quando os manifestantes passavam em frente à tribuna gritavam: “Gorby, Gorby, tem de nos ajudar!” Então aproximei-me de Gorbachev e disse: “Acabou, acabou”. Ele admitiu que era o fim. E, claro, podemos dizer que o Muro não passava de uma questão técnica. euronews – Qual foi a decisão mais difícil que tomou? W.J. – Sem dúvida, foi a introdução da Lei Marcial. Esta decisão não foi apenas um momento numa situação específica, mas foi precedida por muitos eventos dolorosos. O facto de pensar na lei marcial durante meses, semanas e horas, mesmo até às horas precedentes da lei marcial, pois até ao último momento não estava decidido. Tomei a decisão apenas a 12 de Dezembro (1981) às 14 horas. Foram dias de pesadelo. Tinha receios. Tomava a decisão, mas não queria tomá-la. Sabia que ia ser responsável. Era um drama também a nível pessoal. Hei-de carregar o peso da decisão na consciência até ao fim dos meus dias. euronews – Em mesados dos anos 80 podia imaginar o rumo que a história iria tomar? W.J. – Em qualquer caso, em meados dos anos 80, percebi que ia haver reformas profundas. Foi a chegada de Gorbachev, que nos deu a oportunidade. Nós, os polacos, fomos os percursores dessa via.. Gorbachev chegou a chamar às reformas polacas, obviamente limitadas à época, substitutos da democracia e da economia de mercado. Chamou-lhes laboratório da Perestroika. euronews – Que pensa, hoje, da época comunista? W.J. – O comunismo, a bíblia do comunismo foi criado, não na margem do Volga, mas do Reno. E continha muitas ideias belas e nobres, em parte utópicas, mas tenho a impressão que continuam válidas do ponto de vista filosófico e moral. Mas a ideia de comunismo foi desviada pelo estalinismo, antes do mais. euronews – Quais são as causas do fim do comunismo? W.J. – A queda do comunismo é consequência da falta de democracia, que é uma necessidade natural das sociedades, principalmente das sociedades civis modernas e, a seguir, às necessidades económicas e de reformas para tornar a economia eficaz e criativa, o que o antigo sistema não garantia. Foi possível obter depois da mudança de sistema. Pode parecer um pouco incompreensível para o homem do antigo regime: mas com toda a convicção, posso dizer hoje que essas mudanças têm sido absolutamente necessárias e benéficas para a Polónia e para toda a Europa. euronews – Considera que 89 foi um ano milagroso? W.J. – Foi um ano de grande reviravolta, principalmente para a Polónia, e também para toda a região. Posso dizer com orgulho que participei neste processo – que foi um pouco paradoxal – eu, o autor da lei marcial e, ao mesmo tempo, co-autor das mudanças que nos anos 80, tiveram uma dimensão muito importante não só para a Polónia. Estes eventos iniciaram uma série de mudanças – a Revolução de Veludo (Checoslováquia), a queda do muro de Berlim, mas nós fomos os primeiros. euronews – O que é que as duas últimas décadas trouxeram para a Polónia? W.J – Considero que, ao longo de nossa história difícil, este é um dos melhores momentos. O nosso país, a nossa terra é um grande cemitério, os exércitos estrangeiros passaram de leste a oeste e de oeste a leste. Pela primeira vez sentimos-nos seguros. Agora há verdadeiras possibilidades de desenvolvimento, especialmente no contexto da entrada da Polónia na União Europeia, o que nos dá uma possibilidade de dinamiser o crescimento e desfrutar da experiência dos países mais avançados do que a Polónia em termos sociais e económicos. euronews – Lamenta ter feito algo? W.J – Talvez eu não responda às suas expectativas, mas não considero a introdução da lei marcial um erro. Foi um acto decisivo amargo, dramático, mas não me arrependo porque considero que salvou a Polónia. Lamento, sim lamento, o que chamo o mal menor, que foi, depois de decretar a lei marcial, as muitas acções e operações injustificadas das diferentes forças do aparelho de Estado, que não eram do meu conhecimento e causaram muitos danos. Pedi desculpas publicamente por diversas vezes e desculpo-me. Disse-o na presença das autoridades que se houvesse um polícia que batesse nalguém, eu – que ocupava o mais alto cargo, ia sentir-me responsável.

O Muro de Berlim: pt.euronews.net/1989-2009