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Gorbachev: "O futuro vai desenvolver-se sob a influência da Perestroika"

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Gorbachev: "O futuro vai desenvolver-se sob a influência da Perestroika"

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“Tenho certeza de que a história de hoje e a do futuro vão desenvolver-se sob influência das ideias e dos projectos da Perestroika”, diz Mikhail £gorbachev, antigo presidente da URSS.

Em 1986, o regime soviético abriu a primeira brecha na Cortina de Ferro. Mikhail Gorbachev, então novo Secretário Geral do Partido Comunista, anunciou no 27° Congresso do Partido um ambicioso plano de reformas políticas e sociais. Um plano para salvar o regime que acabou por precipitar a Queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética.

Hoje, ao microfone da Euronews, Gorbachov não lamenta o fim da carreira política e defende o sucesso do projecto.

Regresso aos acontecimentos que marcaram a história.

Maria Piñeiro, euronews – Sr. Gorbachev, quis informar e modernizar a União Soviética com as famosas políticas Glasnost e Perstroika. Qual era a diferença entre elas e qual era o objectivo final?

Michail Gorbachev – Glasnost é a liberdade, a liberdade de expressão, de imprensa. Nós queríamos que os cidadãos pudessem ter acesso à informação no sentido lato. Era muito importante porque uma pessoa que não tem acesso à informação fica imediatamente à margem da política e da vida real.

A Perestroika era o programa com o qual chegámos ao poder e que nos ia permitir efectuar as mudanças que eram inevitáveis na União Soviética. Sem a Glasnost e sem o povo era impossível conseguir. Acho que se não tivesse havido Glasnost, a Perestroika nunca teria funcionado. A Perestroika era a participação do povo, era a obrigação de tê-lo sempre informado. Era a discussão, o diálogo no seio da sociedade. O poder exercia-se através da Glasnost e da liberdade de imprensa. Glasnost e Perestroika estão estreitamente relacionadas, eram as duas faces da mesma moeda.

euronews – Qual foi o impacto da queda do muro de Berlim no seu projecto de reforma? Houve um antes e um depois?

M.G. – Acho que nós participámos na queda porque nessa época, nesse momento, a URSS estava a levar a cabo reformas profundas, em política, em economia e noutras áreas. O facto de o muro cair foi a prova de que a União Soviética não queria intervir na escolha que os outros países do Pacto de Varsóvia tinham feito antes. Foi a confirmação de que esses países podiam escolher livremente os sistemas políticos, os regimes, os modelos.

Nos países do Pacto de Varsóvia fizeram-se as Revoluções de Veludo, esses povos fizeram a própria escolha e nunca interviémos. Seria bizarro tratar a Alemanha de outro modo, como um país leproso. Seria injusto para esse povo, nação.

As pessoas não deixaram as praças durante dias e dias. Para nós, era evidente que algo se ia passar, que uma mudança muito grande se preparava.
Três meses antes da queda do muro, eu estava em visita oficial na República Federal Alemã e os jornalistas perguntaram-nos – a mim e ao Senhor Helmut Khol, se durante as nossas reuniões discutíamos sobre “a questão alemã”. Nós respondemos que sim, claro, e então perguntaram-nos o que tínhamos decidido. Respondemos que estávamos conscientes de que devia tratar-se da questão, mas que achávamos que seria a História que resolveria o problema, provavelmente no século XXI.

Três meses depois acontecia. Nós tínhamos sido os maus profetas e a História deu-nos uma boa lição.

euronews – Onde estava a noite do 9 de Novembro de 1989? Como viveu essa noite? Que recordações tem?

M.G. – Estava em Moscovo e, como era noite estava a dormir.
Foi o nosso embaixador que me telefonou, de madrugada, a informar. E eu respondi que tínhamos de aceitar porque os alemães já tinham aberto algumas brechas no Muro. ..e como
isso não era suficiente acabaram por derrubá-lo.

Durante os três primeiros dias, três milhões de pessoas passaram o muro nos dois sentidos. Não era difícil compreender essa nação separada durante 40 anos, quando as pessoas não podiam por exemplo ver as famílias, aquilo era um drama…
Acho que devemos dizer bravo aos homens políticos dessa época. Certamente houve muitas dúvidas, discussões muito violentas. François Mitterrand, por exemplo, dizia que gostava tanto dos alemães que duas Alemanhas seriam melhores do que uma! Margaret Thatcher também não queria a reunificação. E tive a impressão, e não só eu, que eles queriam impedir a reunificação mas que fosse Gorbachev a tomar a decisão. Eu disse que não, que nem pensar, porque não achava justo. Nós reagimos como a situação nos obrigou, e também com responsabilidade, devido a tudo o que se estava a passar na Europa e no resto do mundo.

euronews – Depois de passar mais de um ano na presidência, um golpe de Estado obrigou-o a demitir-se em 1991. Logo depois a União Soviética desapareceu. Porque falhou o projecto?

M.G. – Antes do mais, não estou de acordo com a conclusão de fracasso do nosso projecto. Pelo contrário, foi um sucesso tal que as reformas democráticas puderam começar na União Soviética. Depois da desintegração, a Rússia de hoje continua a desenvolver-se, a economia de mercado e o pluralismo em diferentes áreas como a política, as ideologias, a religião, etc.
Mais ainda, hoje podemos ver como resultado dessas mudanças, que já nada pode obrigar o país a fazer marcha atrás, apesar de a Perestroika ter sido interrompida à força.
Portanto a Perestroika ganhou, e sobre isto, a minha opinião é diferente da sua. Fui eu quem perdeu como homem político… mas isso acontece.
Também devo dizer, que durante todas essas mudanças não houve derramamento de sangue ou quase. Infelizmente houve algumas vítimas mas pudémos evitar um banho de sangue.
E essa é mais uma vitória da Perestroika.

euronews – Cometeu algum erro?

M.G. – Sim, cometemos muitos erros. Demorámos a fazer a reforma do Partido Comunista e a reforma da União Soviética. Não fomos capazes de ver a tempo os grandes problemas sociais. Quando a população começou a ganhar melhor, o mercado não tinha capacidade de lhe fornecer os produtos de consumo. Havia filas de espera enormes…
Estou de acordo com os que pensam que ,neste sentido, os mestres da Perestroika fizeram erros.

Mas isto não anula o facto de que a Perestroika teve um papel decisivo na Rússia, na Europa e no resto do mundo porque foi graças a ela que se produziram mudanças na Europa Central e do Leste. Foi a Perestroika que deu lugar ao desarmamento e a muitas outras coisas.

Retomámos as relações com a China. Trinta anos de hostilidades deram o lugar a uma amizade intensa. Sem falar do feito com os Estados Unidos estabelecemos uma relação de verdadeiros parceiros.

euronews – Senhor Gorbachov, o senhor passa à história como um herói para uns como o responsável de um desastre para outros. Com que parte da história fica?

M.G. – É normal. As conclusões das pessoas são o resultado da compreensão que têm das coisas. Tenho certeza de que a história de hoje e a do futuro vão desenvolver-se sob influência das ideias e dos projectos da Perestroika. Provavelmente o que digo não é muito modesto mas eu não fui o único responsável da Perestroika. Antes de mim, as forças progressistas começaram a trabalhar na União Soviética, depois isso propagou-se a outros povos, como aos dos países do Pacto de Varsóvia. As relações com os maiores países ocidentais mudaram. Hoje tenho a consciência tranquila.

O Muro de Berlim: pt.euronews.net/1989-2009