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Scowcroft: " Estamos a seguir o caminho certo no Afeganistão, uma estratégia anti-insurgência em vez de uma estratégia de anti-terrorismo"

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Scowcroft: " Estamos a seguir o caminho certo no Afeganistão, uma estratégia anti-insurgência em vez de uma estratégia de anti-terrorismo"

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Brent Scowcroft é uma das grandes figuras da política norte-americana. Estava na Casa Branca quando se deu a queda do Muro de Berlim; foi conselheiro de Segurança Nacional dos presidentes George Bush Pai e Gerald Ford e serviu como conselheiro militar durante a administração Nixon. Apesar de ser próximo à família Bush, Scowcroft foi um feroz opositor à guerra no Iraque. Com 84 anos, assistiu o presidente Barack Obama na escolha do “staff” para o gabinete de Segurança Nacional. A euronews falou com ele.

Anna Bressanin – euronews – Como recebeu a notícia de que a queda do muro de Berlim era iminente? Brent Scowcroft – Havia relatórios dúbios, muito confusos. Ia cair ou não? Havia rumores, se incluiria Berlim ou não. E no meio da confusão um assessor de imprensa, Marlin Fitzwater chegou e disse ao presidente: “vai ter de falar disto na conferência de imprensa”. E eu disse “não sabemos o que se passa, como podemos falar?” Um dos jornalistas disse “senhor presidente, não parece muito entusiasmado, achava que ia gostar de dançar em cima do muro”. E ele disse: “não sou um tipo de pessoa eufórica”. O que ele queria dizer era que não tinha a certeza do que se passava e não queria parecer exaltado. Estávamos preocupados com a reacção do presidente Gorbatchev, porque ele poderia ser posto em perigo pela linha dura do Kremlin, que sentia que ele estava a desistir da União Soviética. Anna Bressanin – euronews – De que forma os Estados Unidos contribuíram para a queda do Muro de Berlim? Brent Scowcroft – Creio que todos contribuímos para a queda do muro através da nossa posição firme em relação à União Soviética. Quando o presidente Bush tomou posse, houve muita gente a dizer que a Guerra Fria já tinha acabado. E não há dúvida de que a retórica de Gorbatchev era muito diferente, promissora e encorajadora. Mas a Guerra Fria era realmente a divisão da Europa e isso não tinha mudado, havia tropas soviéticas pela Europa. E aí, fixámos um objectivo: retirar estas tropas da Europa. E com isso conseguimos demovê-las da Alemanha de Leste. Anna Bressanin – euronews – De que forma mudou o mundo desde de 1989? Brent Scowcroft – Já não existe a ameaça de um conflito nuclear, isso mudou de forma dramática. E por outro lado, já não existe apenas um problema no mundo, que era o facto de estar dividido em dois blocos. Em vez disso, os problemas são mais pequenos e dispersos. É um mundo muito diferente. Anna Bressanin – euronews – Depois da queda do muro, os Estados Unidos foram a única potência sobrevivente. Vinte anos passados, estão em guerra no Iraque e no Afeganistão. Serão estas areias movediças uma ameaça para a liderança americana? Brent Scowcroft – A globalização corroeu o poder do Estado Nação. Cada vez mais, os problemas mundiais só podem ser resolvidos com a colaboração entre os Estados. Não acredito que a liderança dos Estados Unidos possa ser feita com base em frases como: nós vamos e outros seguir-nos-ão. Isso já não funciona assim. Anna Bressanin – euronews – Foi contra a segunda guerra no Iraque. Na sua opinião, qual deve ser a estratégia a seguir agora no Afeganistão? Brent Scowcroft – O Afeganistão representa um problema muito complicado. Se não estivéssemos no Afeganistão, não creio que fossemos para lá agora. Mas estamos e por isso, criámos uma série de circunstâncias, o que significa que não podemos dizer “isto não funciona, vamos embora”, porque se trata de uma região muito volátil. Acredito que estamos a seguir o caminho certo, que é uma estratégia anti-insurgência em vez de uma estratégia de antiterrorismo”. Anna Bressanin – euronews – Qual é a principal diferença entre contraterrorismo e contra-insurgência? Brent Scowcroft – Deixe-me dar um exemplo. Se a sua estratégia for o contraterrorismo e se vir um líder talibã, vai atacá-lo. Se matar alguns civis nesse ataque, é uma tragédia, mas é um dano colateral. Se a sua estratégia for a contra-insurgência e se vir o mesmo líder, não vai atacá-lo, porque a morte de civis provoca mais estragos à sua causa que apanhar o mau da fita. É esta a diferença. Anna Bressanin – euronews – Quais foram os erros cometidos pela Casa Branca depois da queda do Muro de Berlim, em termos de política externa? Brent Scowcroft – Um dos maiores erros foi a euforia pelo Muro ter caído e pelo fim da Guerra Fria… Esquecemo-nos que para o povo russo, foi uma humilhação nacional e um trauma psicológico. E ao esquecermo-nos disso, não lhes prestámos a devida atenção. Fizemos coisas com tendência a aumentar esse sentido de humilhação e creio que Vladimir Putin é um reflexo disso. Já o ouvi dizer: “quando estávamos em baixo, vocês andaram por cima de nós, levaram a NATO até à fronteira com a Rússia, denunciaram o tratado antibalístico ABM. Agora, somos de novo fortes e não vamos tolerar isso”. Creio que esta atitude está a dificultar a cooperação com a Rússia, no sentido que a cooperação é importante para nós em questões como o Irão, na luta contra o terrorismo, etc. Por isso, penso que esse foi o maior erro que cometemos. O segundo foi que tínhamos um poder nunca antes visto na História, pelo menos desde os tempos do Império Romano. E acreditávamos que podíamos fazer tudo com esse poder e que não precisávamos de ajuda. Creio que este foi outro erro que cometemos. Anna Bressanin – euronews – Há algum outro muro que possa cair, neste momento? Brent Scowcroft – Não me consigo recordar de nada que seja tão simbólico da Guerra fria como o Muro de Berlim. Era um símbolo físico de uma divisão entre duas visões diferentes de como o mundo devia ser organizado”. Anna Bressanin – euronews – Ainda existem muros no mundo, como o de Israel. Brent Scowcroft – Por vezes, pode-se argumentar que os muros evitam a guerra porque separam as pessoas que se odeiam. Mas em geral, os muros evitam a comunicação e essa é a única maneira de resolver problemas, que não se solucionam com muros.