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Wolfgang Thierse: "Primeiro exigimos liberdade, depois unidade"

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Wolfgang Thierse: "Primeiro exigimos liberdade, depois unidade"

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euronews: 9 de Novembro é uma data importante para a Alemanha. Neste dia, em 1918, foi anunciada a primeira democracia alemã: a República de Weimar. 71 anos depois, o Muro de Berlim caiu e a Alemanha reunificou-se. Wolfgang Thierse viveu esse momento enquanto membro do movimento cívico Neues Forum. Actualmente é vice-presidente do Bundestag.

O que fez nesse dia? Wolfgang Thierse: Foi um dia normal. Eu estava em casa, com a minha mulher, a ver a televisão da Alemanha Ocidental. Houve uma conferência de imprensa com o Günter Schabowski, que fez anúncios bizarros e obscuros sobre novas regras para viagens ao exterior. Nós perguntámos a nós mesmos: “O que é que ele quer dizer?” Nós não acreditávamos. Mais tarde nas notícias, o apresentador disse que a República Democrática Alemã tinha aberto as fronteiras. Foi como se um raio nos atingisse. E apenas após esta reportagem, os alemães de Leste correram para a fronteira e pressionaram. Finalmente, um oficial abriu a barreira e então ninguém os conseguiu parar. euronews: Que esperanças é que sentiu? Não foi apenas a liberdade de viajar… Wolfgang Thierse: Semanas e meses antes nós manifestamo-nos a favor da democracia, contra a autocracia do Partido Comunista. Nós exigimos liberdades básicas, eleições livres. Nós queríamos ser outro país. É bom realçar que, primeiro, exigimos liberdade e, depois, unidade. Esta revolução pacífica não é apenas a pré-história da queda do Muro. Foi também uma revolução democrática. Foi um momento mágico na história da Alemanha, da liberdade europeia e da história da democracia. euronews: Houve tantas mesas redondas, tantas tentativas para formar um novo sistema a partir dos dois existentes. Porque é que a Terceira Via, entre o comunismo e o capitalismo, não resultou? Wolfgang Thierse: A partir de Dezembro de 89 houve mesas redondas. Foi a tentativa de organizar uma mudança pacífica do poder, porque o SED, o Partido Comunista não queria deixar o poder voluntariamente. Com as mesas redondas, os alemães de Leste estavam a aprender. Mas a pressão aumentou em 1990, com a impaciência dos alemães de Leste que queriam o marco alemão; com a promessa de Helmut Kohl, que disse ‘Eu conduzo-vos à terra prometida: o Ocidente”; e com a incerteza acerca do que iria acontecer na política externa, se Gorbatchov e a União Soviética iriam aceitar a unidade alemã. A República Democrática Alemã torna-se parte da Alemanha Ocidental. Tornamo-nos parte do sistema ocidental: da sua economia, da democracia parlamentar. A maioria quis isto. A minoria sonhou com uma Terceira Via, mas não foi possível. euronews: As suas esperanças concretizaram-se? Ou poderia ter sido feito de uma melhor forma? Wolfgang Thierse: Tudo o que se relacionava com democracia e direitos de liberdade concretizou-se, mas ainda não vivemos num país unido. Há diferenças sociais e económicas enormes entre o Oeste e o Leste. A Justiça ainda é uma questão política. O capitalismo acaba de mostrar o seu lado brutal, que atinge fortemente algumas pessoas, especialmente no leste da Alemanha.