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Solana: "A possibilidade de existir proliferação nuclear é um drama"

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Solana: "A possibilidade de existir proliferação nuclear é um drama"

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Javier Solana tem sido o “Sr. diplomacia” da União Europeia há mais de 10 anos. Agora está prestes a entregar o testemunho à britânica Catherine Ashton, nomeada na última semana para o cargo de Alto Representante para os Assuntos Externos e Segurança.

Solana falou com a euronews sobre o passado, o presente e o futuro. Sergio Cantone, euronews: Javier Solana, bemvindo à euronews. O que pensa das recentes nomeações para os cargos de topo da União Europeia? Acha que vão reforçar o papel dos 27 no palco mundial? Javier Solana: Acontece que eu conheço bem os dois, o Presidente e a Alta Representante. Está a falar sobre a Alta Representante, Catherine Ashton. Conheco-a bem já há alguns anos, acompanhei o seu último periodo aqui em Bruxelas, onde ela teve em mãos um importante dossiê na Comissão, na área do Comércio. Não existem dúvidas de que hoje em dia a componente económica das relações externas, o dossiê do comércio, é muito importante. É verdade também que outras áreas da política externa – a crise de gestão – vão estar no coração das funções mas isso é algo que é preciso aprender como em todas outras coisas. EN: Um dos desafios mais importantes para a União Europeia é o Médio Oriente, onda a situação é ainda muito difícil. JS: Não temos conseguido avançar, mesmo agora, porque o governo israelita não parou com os colonatos, por exemplo, e criou uma dinãmica contraprodutiva. EN: Então, não sua opinião, os israelitas é que devem dar o primeiro passo? JS: Ontem à noite estive a ler um longo trecho das conversa do Presidente Clinton numa análise de Camp David e há uma parte que gostaria de citar: “o mais forte é aquele que no final tem que dar o passo mais difícil”. Isto porque ele é forte, porque já tem um país, o outro é fraco e ainda não é um país. EN: E qual é o passo que Israel tem que dar? JS: Acho que o passo deveria ter sido – e espero que seja dado – o de criar condições para proporcionar um ambiente de confiança ao pararem com a construção dos colonatos. EN: Acha que o governo de Netanyahu vai conseguir fazer isso? JS: Ainda não perdi a esperança de que vai ser possível. Temos que ser muito tenazes, muito teimosos e ao mesmo tempo temos que acompanhar os nossos amigos palestinianos no sentido de colocar os governos no terreno. Isso é muito importante. E nisso, o primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana está a fazer um trabalho muito, muito bom. EN: Teve um papel muito importante como mediador, como negociador na questão iraniana. O que é que vai acontecer? JS: Temos que continuar à procura de garantias objectivas de que o programa nuclear do Irão é pacífico. Isso é fundamental. A possibilidade de existir proliferação naquela região é um drama. EN: Mas acha que os iranianos terão a boa vontade de parar a construção nuclear, porque trata-se de um problema de vontade e se eles não querem… e a mensagem que transmitem é a de não quererem… JS: Temos de facto que recuperar o sentimento de confiança. É por isso que a posição do presidente Obama, naquilo que escreveu, a afirmação no Ano Novo, foi muito importante. O facto é que nestas negociações os Estados Unidos colaboraram comigo. Acho que é importante e logo veremos. EN: Mas a resposta iraniana a esta abertura da administração Obama tem sido um extremar de posições. JS: O nível de desconfiança é ainda muito profundo e a política externa baseia-se em confiança e confiança não se constrói nalgumas horas. Constrói-se com muito esforço e tenacidade. EN: Poderia definir Yasser Arafat nalgumas palavras? JS: Tive um relacionamento muito profundo com Yasser Arafat. Acho que ele confiava em mim… e acho que tive alguma responsabilidade nisso. Falava regularmente com ele, visitava-o com frequência mesmo quando ele esteve detido na Mucata. EN: Ariel Sharon? JS: Com Ariel Sharon tive um relacionamento muito mau no início e novamente foi uma questão de falta de confiança. Ele não confiava em mim. Ele pensou que pelo facto de ser Europeu não poderia ser amigo de Israel mas acabou por mudar de ideias. Recordo a última vez que eu o vi, antes de ter o colapso, tivemos uma longa conversa e de certa maneira, para alguém como Sharon, ele pediu-me desculpa, frente a frente, pelo erro que cometeu quando lidou comigo com desconfiança no início. EN: Comparando a experiência de Catherine Ashton com a experiência que tinha quando assumiu este cargo, existem muitas diferenças, não acha? JS: Bom, talvez experiências diferentes mas não significa que a capacidade para fazer um trabalho está apenas relacionada uma experiência anterior. EN: E quanto a Hamid Karzai e o cenário no Afeganistão? JS: Vi a evolução dele, quando foi eleito. Provocou-me alguma tristeza, o facto de não ter sido capaz de acabar completamente com a corrupção que existia no governo e com alguns dos senhores da Guerra e a trágica história do Afeganistão. EN: Acha que a guerra no Afeganistão vale a pena ser travada pelos países europeus? JS: Acho que sim, neste momento, sim. Acho que temos que estar lá mas temos que ver até que ponto o povo e o governo querem a nossa presença. E a prova vai ser a forma como vão actuar, terá que ser de cooperação, de verdadeira cooperação. Não queremos tomar conta do país, é o país deles. Se querem ir numa direcção completamente oposta em relação àquela que nós queremos, será muito difícil manter as opiniões públicas nos nossos países, incluindo nos Estados Unidos.