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José Sócrates: "Desemprego começa a recuperar em 2010"

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José Sócrates: "Desemprego começa a recuperar em 2010"

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Aos 52 anos, José Sócrates acaba de iniciar  um segundo mandato como primeiro-ministro. Um percurso difícil nestes tempos de crise, que não o impedem de acreditar que Portugal pode reencontrar a via do crescimento, nomeadamente através da educação, inovação e novas tecnologias.
 
Mas, quatro anos e meio depois da chegada ao poder, aquilo de que mais se orgulha, neste momento, é de ter corrido a última etapa, de ter feito ‘o sprint final’, da longa prova de estafeta que foi o Tratado de Lisboa. 
 
Maria Barradas - O Tratado de Lisboa está aí, finalmente. O senhor está satisfeito com este tratado ou, dois anos depois, acha que teria sido possível fazer de outra forma?
 
José Sócrates –   Todos os tratados, quando se iniciam, significam um novo começo e a Europa, com o Tratado de Lisboa, fica mais forte e mais capaz de responder àquilo que são os anseios da sociedade europeia, mais capaz de corresponder àquilo que são as necessidades da economia europeia, mas também mais capaz de responder àquilo que são os desafios do mundo. O mundo precisa de uma Europa mais forte, não apenas os europeus precisam de uma Europa mais forte, mas todo o mundo precisa que os valores, a perspectiva, a cultura europeia sejam mais fortes e o Tratado de Lisboa é um bom começo, numa perspectiva de a Europa se afirmar cada vez mais no mundo.
 
M.B - Bom, na fase seguinte – que foi a escolha dos altos representantes da União Europeia -ficámos com a sensação de que a escolha do sr. Herman van Rompuy e da senhora Catherine Ashton é uma forma de a Europa mostrar que renuncia a uma posição política forte, para privilegiar, cada vez mais, um espaço de mercado único. Isto é verdade?
 
J.S – Não. Eu não vejo as coisas assim. Eu acho, aliás, que a nomeação dessas duas personalidades, que têm um longo trajecto político e provas dadas em favor do projecto europeu, é uma nomeação que, em primeiro lugar, sublinha a importância de associar as duas famílias políticas mais importantes – o Partido Popular e o Partido Socialista – no apoio às instituições europeias. Isso era da maior importância e foi conseguido. Por outro lado, as duas personalidades têm, como digo, uma longa experiência política e, quer o primeiro-ministro belga, quer a comissária britânica, são personalidades bem conhecidas do mundo europeu e vão estar certamente à altura daquilo que são as suas funções e a sua missão.
 
M.B – Mas acha que o mundo os percebe verdadeiramente como personalidades fortes?
 
J.S – As personalidades fortes são fortes depois de fazerem bem o seu trabalho e eu não tenho a mínima dúvida de que o primeiro-ministro belga vai fazer muito bem o seu trabalho. Eu conheço-o muito bem, conheço o seu pensamento, conheço o seu empenhamento pela Europa, é um grande europeu, um homem de valores e de princípios políticos e de perspectiva política muito assente naquele que é o ponto de vista europeu e não tenho dúvidas de que fará um excelente trabalho para a afirmação da Europa.
 
M.B – Nota-se uma certa frustração, na opinião pública, na escolha destes dois candidatos. Num momento em que se fala tanto na necessidade de aproximar os cidadãos da Europa e vice-versa,  parece-lhe que este processo de escolha contribui, de facto, para essa aproximação?
 
 
J.S – Essas duas personalidades foram escolhidas segundo as regras do Tratado de Lisboa. Não vejo de que outra forma se havia de escolhar as personalidades, já que o presidente do conselho é escolhido pelo Conselho e é uma selecção absolutamente democrática, porque à volta da mesa, não havia nenhum primeiro-ministro que não tivesse sido eleito e que não representasse os seus cidadãos.
 
 
M.B – A imprensa falou muito na falta de definição prévia de um perfil, como se não se soubesse muito bem que tipo de perfil é que se procurava para a Europa…
 
J.S – Bom, eu acho que o perfil mais adequado para o presidente da Europa é ser europeísta e esse perfil, não há dúvida nenhuma que o primeiro-ministro belga o tem.
 
M.B. – Passados os efeitos mais nefastos da crise económica, Bruxelas dá quatro anos a Portugal para cumprir os critérios dos Pacto de Estabilidade e Crescimento e reduzir o défice aos 3% que estão consignados. Este prazo é realista e é obrigatório da parte do governo português?
 
J.S – Eu acho que esse prazo é realista, mas gostaria de começar por lhe dizer o seguinte: os efeitos mais nefastos da crise já passaram, alguns e outros não. Nós temos de ter consciência de que o dever de todos os Estados europeus é empenharem-se no crescimento económico e no emprego. Essa é a prioridade, não há outra. Depois disso, naturalmente, devemos começar a reduzir os défices públicos, de forma a dar confiança aos mercados internacionais e assegurarmos a sustentabilidade das contas públicas. Mas o mais importante que tenho para lhe dizer neste momento é isto: a União Europeia tem uma política de manutenção dos estímulos orçamentais até ao fim da crise e a crise ainda não acabou, basta, aliás, olhar para os números do desemprego em toda a Europa. Nós não podemos deixar os nossos compatriotas na situação de desemprego, temos de continuar a dar um estímulo orçamental, isto é, dar um contributo por parte do investimento público para criar mais emprego.
 
M.B – Quanto tempo é que pensa ainda que, por exemplo, um desemprego de dois dígitos poderá durar em Portugal?
  
J.S – Nós encetámos um caminho de recuperação em Portugal, nos dois últimos trimestres tivemos já crescimentos positivos em cadeia, comparados com os trimestres anteriores, mas isso não teve ainda efeito no emprego. A minha perspectiva é que no ano de 2010, finalmente, comecemos a recuperar emprego. A principal preocupação e prioridade que tenho no meu espírito é continuar a fazer aquilo que o Estado deve fazer neste momento que é apoiar o dinamismo económico para recuperar emprego.
 
M.B  Portugal foi anfitrião da cimeira ibero americana, cujo tema foi inovação e conhecimento. Que importância tem um encontro desta natureza para um país como o nosso?
 
J.S – A cimeira permitiu duas coisas, permitiu, em primeiro lugar, discutir a crise e a resposta que os Estados deram à crise, e permitiu também identificarmos aquilo que são os pontos em que nos podemos pôr de acordo para participarmos na reforma das instituições mundiais e estou-me a referir a todas – Banco Mundial, FMI – há muita mudança a fazer e na regulação económica mundial, também. Qual é o segredo para o sucesso económico numa sociedade? Eu diria que é o conhecimento, a inovação e a tecnologia. Portugal estava, por exemplo, no ranking europeu dos serviços públicos on-line – na disponibilidade e na sofisticação desses serviços públicos – salvo erro, no 14° ou 16° lugar, nós estamos neste momento em primeiro lugar e isso significa que fizémos uma reforma muito rápida nos nossos serviços públicos em apenas quatro anos, que nos permitiu estar na vanguarda. Nós temos todas as nossas crianças, hoje, a aprender inglês desde que entram na escola. Todas as crianças em Portugal, não sei se sabe, todas elas têm acesso a um computador, sejam ricas sejam pobres, seja no interior ou no litoral. Todas têm acesso a um computador é por isso que esperamos, no futuro, ser um país que fala melhor inglês e que domina as tecnologias de informação e de comunicação. E só lhe estou a dar este exemplo para que se perceba que são projectos deste tipo que podem desenvover e mudar rapidamente uma sociedade em benefício de melhor crescimento económico e mais sustentado.