Última hora

Última hora

Boyko Borisov: "Não há vacas sagradas no governo búlgaro"

Em leitura:

Boyko Borisov: "Não há vacas sagradas no governo búlgaro"

Tamanho do texto Aa Aa

A questão energética está no centro da estratégia europeia da Bulgária. O primeiro-ministro do país, Boyko Borisov, procura por isso boas relações com a Rússia, a Turquia e os parceiros da União Europeia.

Borisov quer aproveitar o máximo o facto de a Bulgária ser ponto de passagem do gasoduto russo South Stream e do rival europeu Nabucco. Mas esta estratégia de agradar a todos pode pôr em risco a posição do país no seio da União Europeia, numa altura em que a UE aperta o cerco ao crime organizado búlgaro – um polvo que parece ter já estendido os tentáculos ao sector da energia. Sergio Cantone, euronews: Senhor primeiro-ministro, bem-vindo à euronews. Agora que o Inverno está a chegar, está preocupado com eventuais cortes de energia, nomeadamente de gás, e de uma repetição do cenário do ano passado? Boyko Borisov: Queria, antes de mais, saudar os telespectadores. É normal que estejamos preocupados, até porque já vivemos uma situação semelhante. Espero que as relações entre a Ucrânia e a Rússia não se deteriorem como aconteceu no ano passado. Neste momento, estamos a constituir as nossas reservas, nos reservatórios de Tchiren, onde temos as quantidades necessárias, e ao mesmo tempo estamos a preparar uma ligação com a Grécia, para obter gás em caso de penúria. Sergio Cantone, euronews: Se houver outra crise entre a Ucrânia e a Rússia, desta vez a Bulgária pode fazer face à situação sem problemas… Boyko Borisov: Espero que sim, que consigamos. Sergio Cantone, euronews: Porque diz que espera? Não é certo? Boyko Borisov: Não… simplesmente, depende da duração da crise, se houver. Sergio Cantone, euronews: O seu país tem boas relações com a Rússia. Não é paradoxal encontrar-se numa situação como a do ano passado? Boyko Borisov: É verdade que não é normal, por isso esperamos que a construção dos gasodutos Nabucco e South Stream resolvam este problema. Sergio Cantone, euronews: Jusatmente, falou dos dois gasodutos, Nabucco e South Stream. Sabe que no seio da União Europeia há dois grupos de países que estão em desacordo sobre esse tema. Como é que se posiciona nesses dois campos opostos? Boyko Borisov: Nesse caso preciso, temos uma posição estratégica entre a Ásia e a Europa e na campanha eleitoral dissemos que o projecto prioritário era o Nabucco, sendo que a União Europeia participa nele e nós estamos prontos a participar com 300 milhões de euros. Por isso, em relação ao Nabucco não há qualquer problema. Quanto ao South Stream, nas conversas que tive com o primeiro-ministro Putin disse-lhe que não nos opúnhamos ao projecto. Como disse, havia já um acordo com o governo precedente e penso que ambos os projectos podem ser realizados. Sergio Cantone, euronews: Tendo em conta os interesses económicos russos presentes no sector energético búlgaro, pensa que é fácil para a Bulgária ter uma política energética independente, estando entre o South Stream e o Nabucco? Boyko Borisov: Repito que não há qualquer problema em os projectos South Stream e Nabucco se desenvolverem em paralelo, no que diz respeito aos interesses energéticos. Sergio Cantone, euronews: E para os russos? Boyko Borisov: Não posso falar por eles. Sergio Cantone, euronews: Com certeza, mas recebeu mensagens, sinais, por parte dos russos, assim como por parte da União Europeia. Boyko Borisov: Não, não há mensagens, nem declarações. Trabalhamos no South Stream e, pessoalmente, coloquei-lhes a questão no que diz respeito ao Nabucco. Dizem que ambos os projectos se podem desenvolver e não nos pedem mais nada. É do nosso interesse que os dois projectos se desenvolvam. Mas, bem entendido, o Nabucco é a nossa prioridade, por causa da União Europeia. Sergio Cantone, euronews: O cheque de 300 milhões de euros que a Comissão Europeia deve pagar para a energia nuclear na Bulgária é fundamental, deste ponto de vista, para convencer os parceiros? Boyko Borisov: Sejamos claros. Os 300 milhões de euros dados para o fecho dos reactores 3 et 4 de Kozloduy são muito pouco, tendo em conta que estes dois reactores davam ao país entre 800 milhões e 1200 milhões de euros por ano. Por outro lado, os reactores 3 e 4 são totalmente seguros e podem durar mais 20 anos. Muitos países prolongaram a vida das centrais nucleares. Nós respeitamos estritamente as condições da União Europeia. Por isso estes 300 milhões de euros são importantes, mas repito que demos muito mais. Sergio Cantone, euronews: Há algumas preocupações, também no seio da União Europeia, sobre o papel do crime organizado, na Bulgária, no sector da energia. que medidas estão prontos a adoptar? Boyko Borisov: Houve acusações contra responsáveis de grandes empresas energéticas, tal como antigos ministros, e isso envolve dezenas de milhões de euros. No sector energético, não faremos qualquer compromisso. Neste momento, há investigações a decorrer, algumas estão na mesa do procurador e tenho a certeza que, a esse nível, haverá também investigações complementares sobre os responsáveis das centrais eléctricas e das minas de carvão e os fornecedores. Simplesmente, é preciso tempo para que as investigações cheguem a bom termo. Houve já acusações seguidas de condenações e assim faremos com o governo. Sergio Cantone, euronews: Quanto tempo vai ser preciso para fazer esse trabalho de limpeza que foi pedido pela Comissão Europeia? Boyko Borisov: É preciso fazer esse trabalho todos os dias. Com certeza, é preciso fazer revisões e não se pode admitir que o governo actual cometa os mesmos erros. Ainda mais porque não vamos parar esse processo. Vamos continuar a lutar por ter a confiança da Europa e é assim que a vamos ganhar. Sergio Cantone, euronews: Por acaso desconfia de alguém no seu governo? Boyko Borisov: Não, não tenho dúvidas sobre ninguém, mas também digo que não há vacas sagradas.