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Aliyev: "Queremos fim pacífico para Nagorno-Karabakh"

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Aliyev: "Queremos fim pacífico para Nagorno-Karabakh"

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Ilham Aliyev é o presidente do Azerbaijão desde 2003, ano em que sucedeu ao pai, Heydar Aliyev, que governou o país durante uma década.

Situado no Sul do Cáucaso, o Azerbaijão está há duas décadas em conflito com a Arménia por causa de Nagorno-Karabackh, um enclave dominado pela etnia arménia situado dentro das fronteiras do Azerbaijão, internacionalmente reconhecidas.

Será que há uma solução pacífica para o conflito, 16 anos após o cessar-fogo? A euronews viajou até Baku, para fazer esta e outras perguntas ao presidente do Azerbaijão.

euronews: Presidente Aliyev, comecemos por Nagorno-Karabakh. Quais são as hipóteses de uma resolução pacífica do conflito?

Ilham Aliyev: Temos esperanças, porque o processo, desenvolvido há muitos anos, deve levar a uma resolução pacífica. Mas claro que vai depender da vontade da Arménia para cumprir as normas de direito internacional, para retirar as tropas dos territórios internacionalmente reconhecidos do Azerbaijão e, então, a paz será estabelecida.

en: Portanto, o senhor está bastante optimista, se bem percebi…

I. A.: Posso dizer-lhe que as propostas dos mediadores se baseiam na restauração da integridade territorial do Azerbaijão, na retirada das tropas arménias de todos os territórios ocupados, para além dos limites administrativos de Nagorno-Karabach, no regresso dos deslocados internos azerbaijaneses a essa terra e na abertura de todas as comunicações.

en: O senhor disse, algumas vezes, que se a Arménia não retirasse as tropas dos sete territórios ocupados do Azerbaijão e não devolvesse a terra, que o Azerbaijão retomaria essas províncias através de uma ofensiva militar. Mantém esta posição?

I. A.: Este é um direito fundamental do Azerbaijão, como eu mencionei anteriormente, que nos foi dado pelas organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas. Não podemos permitir que o conflito se mantenha num impasse por mais 15 anos.

en: Já está num impasse há 16…

I. A.: Claro! Portanto deve pôr-se termo a isso. Queremos pôr um fim de forma pacífica e estamos a trabalhar nisso, mas, ao mesmo tempo, a nossa paciência tem limites. Eu espero que aquilo que acordámos antes e aquilo que estamos a planear acordar em 2010 ponha um fim ao conflito e a paz chegue ao Cáucaso.

en: Há algum espaço para concessões no que respeita ao estatuto final de Nagorno-Karabakh?

I. A.: O Azerbaijão nunca vai concordar com a independência de Nagorno-Karabakh nem com nenhum tipo de mecanismos ou procedimentos que leve eventualmente a uma secessão. Um estatuto provisório para Nagorno-Karabakh pode ser uma das soluções. Nós vivemos juntos. Os arménios vivem aqui, os azerbaijaneses viveram na Arménia. Portanto, não houve problemas no passado. Portanto, a reconciliação deve acontecer… e, depois disso, as pessoas vão comunicar e vamos ver qual poderá ser o estatuto final de Nagorno-Karabakh.

en: Embora seja prematuro antecipar um acordo entre a Turquia e a Arménia… Como é que vê o impacto da reconciliação turco-arménia na resolução do conflito de Nagorno-Karabakh? É uma oportunidade ou uma ameaça?

I. A.: Estamos preocupados que, caso isso aconteça, independentemente de algum progresso em Nagorno-Karabakh, as perspectivas do processo de paz de Nagorno-Karabakh sejam muito fracas. E depois? Na nossa perspectiva, vai originar mais dificuldades na região. Portanto, eu acho que agora é uma oportunidade única, quando já temos progressos no processo turco-arménio, e, ao mesmo tempo, chegámos à fase final de negociações entre a Arménia e o Azerbaijão. Podemos combinar a energia desses dois processos, de forma a que nenhum país na região se possa considerar abandonado, nem que os seus interesses nacionais sejam ignorados… e se isso acontecer, as tensões são inevitáveis.

en: O seu país estabeleceu a primeira república democrática no mundo muçulmano, antes de ser incorporado à força na União Soviética. O que pensa daqueles que dizem que o senhor dirige o seu país como uma ditadura pós-soviética?

I. A.: Este tipo de expressões é insultuoso para nós. Algumas vezes, somos o tema de ataques injustificados e tendenciosos, nos media internacionais, nos chamados grupos de direitos humanos. Estas tentativas de apresentar o Azerbaijão como antidemocrático são inaceitáveis.
Nós entendemos que, como a importância do Azerbaijão está a crescer, as tentativas de influenciar o Azerbaijão estão a aumentar em diversas partes do mundo.

en: E aqueles que dizem que a oposição no Azerbaijão não tem uma verdadeira oportunidade e que muitos dos seus opositores foram silenciados?

I. A.: Bem, cabe às pessoas decidirem… Se a oposição no Azerbaijão é fraca, a culpa não é nossa. E eu posso dizer-lhe por que é que a oposição está agora numa situação desastrosa: as pessoas do Azerbaijão estão a viver cada vez melhor. Durante a crise, em 2009, a nossa economia cresceu 9,3%; a indústria, 8,6%; a inflação, 1,5%; as reservas de divisas são 20,4 mil milhões de dólares. Nestas circunstâncias, o que é que a oposição pode fazer? Apenas criticar? Bem, está a fazê-lo numa base diária, não nos opomos.

en: Mas, em Março de 2009, houve um referendo e houve uma mudança na Constituição, que aboliu o limite de mandatos presidenciais. Quer ficar no gabinete indefinidamente?

I. A.: Bem, isso não foi feito por razões pessoais. Esta prática existe em muitos países.

en: Não nos países democráticos…

I. A.: Bem, depende… Se há um rei, que é um chefe nominal de Estado, e um primeiro-ministro que pode ser eleito cinco vezes não é muito diferente do que temos aqui. Se olhar para os países europeus, vai ver…

en: Não se considera um rei, pois não?

I. A.: Não, não… Eu considero-me o chefe do poder executivo, o que é, no caso dos vossos países, o primeiro-ministro, que pode ser eleito várias vezes. Portanto, por que é que as pessoas devem ser privadas deste direito? Se elas têm uma escolha, se têm a oportunidade de escolher…

en: Se…

I. A.: Elas podem escolher quem quiserem… e o processo democrático no Azerbaijão é muito activo. Nós não interferimos nos assuntos internos dos vossos países, embora haja imensas coisas de que possamos não gostar, a que nos podemos opor, e que podemos considerar ridículas… mas nunca o dizemos.

eu: Por exemplo?

I. A.: É por isso que nunca dizemos. Nós comportamo-nos de uma forma delicada. Os assuntos internos de um país, as tradições, a história, o sistema político, a atitude, os líderes nacionais devem ser deixados ao critério do povo desse país.

en: Mas o Azerbaijão é um membro do Conselho da Europa…

I. A.: Se alguém… Se alguém quer usar este factor, de forma a conseguir algo, não vamos permiti-lo.