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Sargsyan: "Apelo ao Azerbaijão para assinar um acordo contra o uso da força"

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Sargsyan: "Apelo ao Azerbaijão para assinar um acordo contra o uso da força"

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Serzh Sargsyan é presidente da Arménia, um país com uma história tumultuosa, tal como aconteceu com outras ex-repúblicas soviéticas. No início do mês de Março, concedeu à euronews uma entrevista na qual falou sobre o genocídio arménio, as relações com a Turquia e o conflito por resolver em torno de Nagorno-Karabakh.

Situada no Sul do Cáucaso, na encruzilhada entre dois continentes e interesses geopolíticos, a Arménia é um país encurralado.

Desde 1993, após a guerra em Nagorno-Karabakh, as fronteiras, a Ocidente com a Turquia e a Leste com o Azerbaijão, estão fechadas com pesadas consequências para os três milhões de habitantes do território e para os sete milhões de arménios da diáspora.

Laura Davidescu, euronews: Com 23 votos a favor e 22 contra, a Comissão de Assuntos internacionais da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou uma resolução que declara que o massacre de mais de um milhão de arménios pelos turcos otomanos, em 1915, foi um genocídio. Porque é que pensa que a comissão votou a resolução agora?

Serzh Sargsyan, presidente arménio: As discussões sobre o reconhecimento do genocídio arménio não são novas na vida política americana. Nos últimos dez anos, a Câmara dos Representantes tentou, por várias vezes, votar a resolução. Quarenta e dois estados norte-americanos reconheceram o que se passou como um genocídio, por isso, o voto de 4 de Março não foi para nós nem uma surpresa nem uma novidade.

euronews: Pensa que há um motivo particular para que a resolução fosse aprovada agora, neste contexto de reconciliação turco-arménia?

S. Sargsyan: Estamos a discutir com a Turquia o restabelecimento das relações. Isso deve ser feito sem pré-condições e a Turquia não tem o direito moral de nos acusar do que quer que seja ou impor condições. Restabelecer relações sem condições prévias significa que podemos discutir todos os assuntos, para conseguirmos obter resultados.

Digamos que, por um milagre, o parlamento turco ratifica os protocolos e o parlamento arménio faz o mesmo. Restabelecemos as nossas relações… e um país terceiro, que se opõe à retoma, se debruça de propósito sobre a questão do genocídio. Será que que os turcos vão usar isso como pretexto para interromper as relações?

euronews: Os grandes problemas da Arménia, actualmente, são o desemprego, o isolamento económico e os diferendos que se prolongam com a Turquia e o Azerbaijão. Será que estes problemas poderão ser resolvidos de forma mais fácil agora com a resolução?

S. Sargsyan: Os nossos diferendos com a Turquia não datam de ontem. Há 17 anos que a fronteira com a Turquia está fechada. Será que, há 17 anos, existia o problema da resolução?

Percebemos perfeitamente que a Turquia é um grande país, em termos de território, população ou poder.

Se cada um vivesse isolado, compreenderíamos. Mas se nós, Arménia e Turquia, fazemos parte da comunidade internacional, tal como os Estados Unidos, a França e a União Europeia, a comunidade internacional deve avaliar as situações e estudar as implicações dos novos desenvolvimentos.

euronews: Regresso ao reconhecimento do genocídio arménio. Se esta questão tem um significado crucial para os arménios, na terra natal ou na diáspora, pode explicar-nos porque é que a Universidade pública de Erevan concedeu um título honorífico aos presidente Mahmmoud Ahmadinejad em 2007? O presidente iraniano nega o Holocausto…

S. Sargsyan: Sabe, não podemos obrigar os dirigentes de países vizinhos a pensar da mesma forma que nós. Não se deve personalizar….o facto de dar uma recompensa a dirigentes de um qualquer país significa exprimir a nossa gratidão e reconhecimento em relação ao povo desse país.

Os iranianos são nossos vizinhos há séculos e são importantes para nós.

euronews: Considera que a decisão da Universidade pública de Erevan é “realpolitic”?

S. Sargsyan: Considero que a Universidade pública de Erevan teve uma abordagem especial para uma questão particular e que é uma abordagem corrente na Europa e nos países democráticos e civilizados.

euronews: Você foi citado como tendo dito, em Fevereiro, em Londres, que Nagorno-Karabakh nunca fez parte do Azerbaijão independente. A comunidade internacional tem uma opinião diferente, outra interpretação.

S. Sargsyan: Não penso que a comunidade internacional tenha uma visão diferente. A história é conhecida.

Nagorno-Karabakh não fazia parte do Azerbaijão independente. Foi o gabinete para o Cáucaso do Partido Comunista da União Soviética que integrou Nagorno-Karabakh no Azerbaijão.

Porque é que a comunidade internacional saudou o desmembramento da União Soviética? Porque é que a comunidade internacional não considerou que a Arménia, o Azerbaijão, a Geórgia, o Cazaquistão ou o Uzbequistão eram parte integrante da União Soviética?

No caso de Nagorno-Karabakh diz-se que é parte do Azerbaijão. Não tem lógica, pois não?

euronews: Que género de compromissos está disposto a fazer para conseguir resolver este conflito de forma pacífica?

S. Sargsyan: Não podemos eliminar as consequências deste conflito sem resolver as causas. Quando falamos das causas…falamos do reconhecimento do direito à autodeterminação do povo de Nagorno-Karabakh.

O reconhecimento desse direito e a sua aplicação. Quando isso for feito, todos os outros problemas vão resolver-se facilmente.

Sabe, as partes arménias, a Arménia e Nagorno-Karabakh, estão muito interessadas numa resolução rápida do conflito. É óbvio que estamos mais interessados em resolver este conflito, mas em resolvê-lo de forma durável. Que permita criar paz e segurança na região mas sem dar Nagorno-Karabakh como prenda ao Azerbaijão, isso significaria o fim da existência de Nagorno-Karabakh.

euronews: O Azerbaijão é claro…diz que nunca aceitará uma entidade independente em Nagorno-Karabakh. Nunca abrirão mão…

S. Sargsyan: O que é que nos propõe a comunidade internacional? Propõe resolver este conflito através de três princípios do direito internacional. Primeiro: integridade territorial. Segundo: direito à auto-determinação. Terceiro: o não uso da força.

Quero aproveitar esta oportunidade e lançar, através de vocês, dos media, um apelo ao Azerbaijão para assinar um acordo contra o uso da força. Isso daria confiança aos povos arménios, de Nagorno-Karabakh e da Arménia, e, num ambiente de confiança, poderemos começar as negociações.

Nós, arménios, dissemos várias vezes o que significa para nós a integridade territorial do Azerbaijão. Será que os azerbaijaneses podem dizer o que entendem por autodeterminação do povo de Nagorno-Karabakh?

Quando fazemos declarações comuns sobre o direito de autodeterminação, o Azerbaijão não fala certamente da autodeterminação do povo arménio… mas do direito de autodeterminação de uma das principais partes do conflito, o povo de Nagorno-Karabakh.