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Dacian Ciolos: "Precisamos de uma PAC, vamos ver como a tornar mais eficaz"

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Dacian Ciolos: "Precisamos de uma PAC, vamos ver como a tornar mais eficaz"

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A Política Agrícola Comum (PAC) é tradicionalmente tema de divergência entre os Vinte e Sete. Para preparar a reforma da PAC, em 2013, a Comissão europeia lança um debate público. Quer conhecer a opinião dos europeus antes de fazer uma proposta e de dar início às negociações.

No início desta etapa, a euronews foi conhecer a posição do comissário europeu para a Agricultura e o Desenvolvimento Rural. Encontramos o romeno Dacian Ciolos numa quinta da região belga da Valónia.

Sergio Cantone, euronews: Porquê lançar agora um debate público sobre a agricultura?

Dacian Ciolos, comissário europeu para a Agricultura e o Desenvolvimento Rural: Esta Política Agrícola Comum dirige-se a toda a população europeia, a todos os contribuintes que alimentam o orçamento desta política. É, por isso, importante, do meu ponto de vista, que, antes de se passar a uma análise da reforma da PAC, se ouçam as opiniões não só dos agricultores, mas também do conjunto da sociedade europeia.

euronews: Parece, antes de mais, uma defesa da importância da PAC face a certos países do Norte, como, por exemplo, o Reino Unido, que gostariam de livrar-se dela. É isso?

D. Ciolos: Ao ouvir os ministros da Agricultura ou os membros do Parlamento Europeu de todos os Estado membros não ouvi até agora um político que tivesse dito: “Não precisamos de uma Política Agrícola Comum”. Em geral, dizem que precisamos. Vejamos como a tornar mais eficaz.

euronews: Há agricultores que consideram que, analisando os próprios interesses financeiros, seria muito melhor não fazer nada e receber as ajudas directas…

D. Ciolos: As ajudas directas devem ser reformadas, o mecanismo de apoio ao mercado deve ser revisto e adaptado à abertura do mercado europeu ao mundo. O segundo pilar, a política de desenvolvimento rural, também deve ser revista. Precisamos de modernização, não só para sermos mais competitivos, mas para integrar melhor as expectativas relativas às mudanças climáticas.

euronews: Há também uma pressão da Organização Mundial do Comércio (OMC). Do seu ponto de vista, a União Europeia tem necessidade de se pôr de acordo com outros blocos, ou seja, reduzir o peso da agricultura e a protecção dos seus próprios agricultores?

D. Ciolos: A reforma da nossa PAC não está ligada às negociações na OMC, são duas coisas completamente….

euronews: Mas responde um pouco a isso….

D. Ciolos: …Sim, mas nós já fizemos isso. A União Europeia já fez uma proposta que ainda não foi igualada por outros países com peso nas negociações da OMC. Essa oferta já existe e esperamos para ver as contrapropostas dos outros parceiros. Depois olhe para a outra potência económica, os Estados Unidos, e diga-me se é mais liberal do que a União Europeia em termos de agricultura, diga-me se o apoio à agricultura nos Estados Unidos é menor do que na União. Vai perceber que não é de todo o caso. Por isso, penso que a Política Agrícola Comum é para os europeus e não para o Mundo.

euronews: Na sua opinião, há demasiados agricultores na União Europeia?

D. Ciolos: Penso que isso é um falso debate. Demasiado ou insuficientes. O importante é o que pedimos à agricultura, aos agricultores, antes, aos europeus e em função disso é necessário um ajuste que se faz de forma natural, não deve ser feito artificialmente.

euronews: Em relação ao leite, por exemplo, há agricultores que o vendem a um preço muito baixo, e que têm mais despesas do que receitas.

D. Ciolos: É certo que a produção deve respeitar a procura. Mas há certos sectores, como por exemplo, o leiteiro, e nesse ponto é um bom tema, em que mesmo se a procura varia a oferta não se pode adaptar, pois uma exploração, como esta onde estamos, investiu a longo prazo, por dez, 15 anos. Não se pode mudar os níveis de produção de um ano para o outro, como fazemos com os legumes, com os frutos e mesmo com os cereais.

euronews: Sim, mas quando um agricultor diz que custa 32 cêntimos por litro e o vende a 25 cêntimos, há um problema, não?

D. Ciolos: Nesse ponto também penso que há coisas que devem ser feitas para melhorar a venda do leite para transformação. Mas há também outros instrumentos como nesta exploração onde nos encontramos. Uma parte da produção é transformada na quinta, para venda directa, é verdade que não são quantidades importantes, mas na venda directa na quinta um litro de leite custa um euro. Fazem também manteiga e mesmo gelados…

euronews: Dizem que é um comissário sensível à posição da França. Está aqui para defender a Política Agrícola Comum segundo os interesses da França e dos países que se colocaram ao lado da França nesta batalha?

D. Ciolos: Não é só a França que tem agricultura, não é só a Alemanha, não é só a Polónia, a Espanha ou a Itália. Temos agricultores europeus e é essa diversidade que eu considero como a riqueza europeia…

euronews: …sim, mas há pontos de vista divergentes entre, por exemplo, a visão francesa da PAC, os interesses franceses ligados à Política Agrícola Comum, mesmo de outros países, e de outros Estados como o Reino Unido, e outros países do Norte como a Dinamarca ou a Suécia…

D. Ciolos: A Comissão é que vai propor. Esta divergência de opinião e as negociações para chegar a um compromisso vão ser conduzidas pela Presidência do Conselho. Vão ser conduzidas também pelo presidente da Comissão da Agricultura do Parlamento Europeu. Eu sou o comissário europeu, trabalho em nome do interesse da Europa, da agricultura europeia, dos agricultores europeus. Não trabalho para defender o interesse de um país.