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Mundial2010: insegurança ameaça competição na África do Sul

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Mundial2010: insegurança ameaça competição na África do Sul

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O jornalista da Euronews, Chris Cummins visitou Diepsloot, um bairro no exterior de Joanesburgo, na África do Sul.

A 50 quilómetros daqui está a Soccer City, onde vai decorrer a cerimónia de abertura e a final do Campeonato do Mundo, mas podíamos estar noutro mundo.

A segurança é um problema sério no país. Os ricos vivem em residências fechadas, praticamente invisíveis vistas do exterior.

No acampamento que continua a crescer à volta de Diepsloot a história é outra, como nos conta o jornalista local Golden Mtika.

Golden Mtika – Aqui o crime é o pão nosso de cada dia.

Chris Cummins, Euronews – E como é que a comunidade se protege?

GM – Bem, a comunidade faz justiça pelas próprias mãos porque não tem confiança na polícia, porque o que acontece na maioria dos casos é que quando alguém é entregue à polícia, dois dias depois essa pessoa está cá fora, está de novos nas ruas, o que irrita a comunidade.

CC – E quais são as consequências?

GM – As consequências são uma justiça mafiosa. Quando se suspeita de alguém, agarram nessa pessoa, põem um pneu à volta dela, pegam em petróleo e pegam-lhe fogo.

CC – Ou seja queimam pessoas vivas?

GM – Sim queimam-nas vivas. Podem fazer o que quiserem, lapidá-las com pedras ou com objectos pontiagudos até que a pessoa fique inconsciente e depois pegam-lhe fogo.

CC – Durante o dia há muitas pessoas aqui. Há homens, mulheres, crianças, lojas, pessoas na rua com um sorriso no rosto. O que é que acontece quando a noite cai?

GM – Quando a noite cai é perigoso. O futuro não é bom para as pessoas que vivem aqui, porque há uma escassez de serviços básicos. Por isso vai haver um forte protesto que está a ser organizado, que está em preparação.

CC – E o que é que acha que vai acontecer aqui?

GM – Na maioria das vezes é violento, tem tendência para ser violento.

CC – Porque é que há uma ligação tão grande entre política e violência?

GM – Bem, foi durante muitos anos a única estratégia que o ANC (African National Congress) usou para lutar contra o regime. Eles recorriam às danças de guerra e à queima de pneus. Isto ficou enraízado no povo e é assim que ele expressa a sua raiva.

CC – E qual é o problema com o fluxo de zimbabueanos que vêm para a África do Sul para fugir do regime de Mugabe?

GM – Há bastantes. Eles saltam por cima da rede na fronteira onde têm uma camioneta à espera com um passador que os traz para a África do Sul. Quando chegam aqui a Diepsloot o que acontece é que são fechados numa barraca. Podem ser 20 ou 15 e não podem sair da barraca. Só são livres quando pagam. Nessa altura o passador abre a porta para libertar o que pagou.

CC – Ou seja ficam lá fechados?

GM – Ficam lá fechados e têm um balde pequeno que é usado como uma latrina. Por vezes há mulheres entre eles e já houve queixas de abuso sexual junto da polícia.

GM – Vai acontecer muita coisa depois do Campeonato do Mundo. Basta recordar os problemas de xenofobia que tivemos no ano passado em Maio. Eu acho que ainda vai acontecer muita coisa. As pessoas estão calmas porque querem proteger o campeonato do mundo e não querem dar uma imagem de má nação à África do Sul. Mas as pessoas começam a falar e não é nada bom.