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David Milliband: "A liderança do Labour é sólida"

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David Milliband: "A liderança do Labour é sólida"

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Já falta pouco para as eleições britânicas e a batalha está a aquecer. É a corrida mais renhida dos últimos tempos. Nem os trabalhistas, no poder, nem os conservadores parecem poder vir a ter a maioria absoluta que permite governar o país, o que sugere uma coligação. Quais as chances de uma reeleição do Partido Trabalhista? Foi o que viémos a Londres perguntar ao actual ministro dos negócios estrangeiros, David Milliband.

Seamus Kearney, euronews: Sr. Miliband, o que aconteceu à estratégia do Labour para dar a volta às sondagens de opinião? Onde está essa estratégia?

David Miliband: O nosso plano é aquele que delineámos, que é oferecer uma visão positiva do futuro da Grã-Bretanha, baseando-nos em duas prioridades: assegurar a recuperação, alimentar esta retoma económica frágil e continuar a trabalhar nas decisões que tomámos. Em segundo lugar, renovar o país, continuar o investimento no sector público e nas reformas, para que o crime continue a baixar e para que a Grã-Bretanha tenha uma palavra forte a dizer no mundo. Essa aposta dupla, alimentar a recuperação e renovar o país, está no centro da estratégia trabalhista, que vamos continuar a seguir, independentemente dos outros partidos.

Seamus Kearney, euronews: Mas ainda não conseguiram subir nas sondagens…

David Miliband: Penso que há só uma sondagem que conta, é a do dia das eleições. A campanha está a começar. O Labour tem que se agarrar à estratégia. Sabemos qual é o registo contra o qual lutamos, e acima de tudo, sabemos onde queremos levar o país. É isso que nos distingue dos outros partidos.

Seamus Kearney, euronews: Mas no que toca à recuperação, por exemplo, diz que há um novo relatório segundo o qual a recessão piorou por causa de um excesso de despesas feitas por Gordon Brown antes de 2007.

David Miliband: Não, o relatório não diz isso. O importante é que o primeiro-ministro desafiou a sabedoria convencional, desafiou as opiniões da oposição e deu passos decisivos em Setembro e Outubro de 2008, que salvaram a economia. Sem essa intervenção, você nem conseguiria levantar dinheiro no multibanco.

Seamus Kearney, euronews: Mas a enorme dívida que se acumulou antes de 2007 tornou a recessão mais longa, não?

David Miliband: Não, não foi uma enorme dívida. É importante saber escolher as palavras a usar. A Grã-Bretanha tem uma das dívidas mais baixas dos países do G7, abaixo da média do G7, mais baixa que a de muitos países europeus e o governo reduziu a dívida nos primeiros anos.
 
Sim, subiu nos últimos anos, por causa de circunstâncias extraordinárias, mas a dívidas mantêm-se mais baixas que as da Alemanha, da França e dos Estados Unidos.

Seamus Kearney, euronews: Mas há muita gente que diz que 13 anos foram muito tempo para resolver os problemas económicos, sociais e políticos e o Labour falhou em muitos pontos, por isso é altura de mudar…

David Miliband: Não, A Grã-Bretanha é uma economia muito mais rica do que era em 1997, os nossos serviços públicos funcionam melhor, a criminalidade é mais baixa e o país é forte no mundo, enquanto em 97 estava na berma da Europa. Não somos complacentes. Estamos orgulhosos das mudanças que operámos no país, mas ainda não estamos satisfeitos. Por isso digo às pessoas que estão a ver este programa: o Labour vai melhorar o vosso futuro, vamos assegurar o serviço público e continuar a criar uma comunidade mais forte e uma sociedade mais justa.

Seamus Kearney, euronews: Assistimos a uma grande divisão dentro do partido trabalhista, com desafios à liderança de Gordon Brown. Espera que o público acredite que estas divisões acabaram e são agora uma família unida, pronta para governar o país?

David Miliband: Este é o Labour menos dividido ideologicamente das últimas duas ou três gerações. É um partido unido à volta do líder e deste programa. Penso que a mensagem passou de forma muito clara. Temos a força e os valores para tomar decisões duras, que são necessárias para a economia, mas temos também a visão de uma sociedade justa.

Seamus Kearney, euronews: E as pessoas só querem uma mudança. Como responde a isso?

David Miliband: Mudança em relação a quê? É preciso mudar para melhorar as coisas, não para fazer o relógio andar ao contrário. É importante ver que esta não é uma eleição entre mudar ou não mudar, mas entre que tipo de mudança queremos.
Quer correr o risco de voltar às políticas económicas falidas dos anos 80, que os conservadores nos ofereceram, à falta de fundos para o sector público, quer que a Grã-Bretanha fique fraca e isolada no estrangeiro? Não penso que os britânicos queiram isso. Querem uma mudança para melhor, por isso dizemos que é preciso investir em partes diferentes da economia.

Seamus Kearney, euronews: Quanto a Gordon Brown, há pessoas, dentro do próprio partido, que têm pedido que ele seja substituído.

David Miliband: Não, não aceito isso. O primeiro-ministro liderou o país de forma muito forte ao longo dos últimos três anos. Ele mostrou o que significa ter valores e capacidade de julgar nas alturas mais difíceis. Ele respondeu às chamadas mais importantes, em forte contraste com a oposição.

Seamus Kearney, euronews: Mas houve planos para que ele fosse afastado, substituído…

David Miliband: Não, desculpe. Não aceito isso. Temos uma plataforma clara e uma liderança muito clara.

Seamus Kearney, euronews: As sondagens, nos últimos meses, foram sempre mais baixas que nos outros partidos. Não teriam um desempenho melhor se Gordon Brown tivesse sido substituído, talvez há um ano?

David Miliband: Não, não aceito isso. E olhe, esta eleição é sobre o futuro do país. E o Partido Trabalhista é muito claro em relação à liderança e à plataforma que a suporta. As pessoas têm uma escolha clara a fazer.

Seamus Kearney, euronews: Mas há muitas promessas que o Labour está a fazer agora, no que diz respeito à reforma política, à reforma eleitoral… as pessoas dizem que tiveram 13 anos para as fazer e perguntam por que fazem essas promessas agora, antes das eleições.

Miliband: Fizemos muitas reformas, Mas a época pré-eleitoral é a melhor para formar um programa.

Seamus Kearney, euronews: Mas não houve reformas suficientes…

David Miliband: Tem razão. Por isso é importante ir mais longe. Estamos orgulhosos, mas não satisfeitos. A reforma política precisa de ser exaustiva, ir à raiz dos problemas. Isto pode parecer estranho a alguns espectadores estrangeiros, mas ainda há postos hereditários na Câmara dos Lordes. 92 ao todo.

Seamus Kearney, euronews: E por que razão isso não foi mudado há dez anos?

David Miliband: Porque fomos bloqueados pelos conservadores, na Câmara dos Lordes. As reformas constitucionais têm que passar pelas duas câmaras. Tem que perguntar a eles por que votaram contra as reformas. Nós somos muito claros quando dizemos que queremos uma Câmara dos Lordes saída de eleições directas, que seja muito mais pequena do que é hoje e possa levar o país ao século XXI.

Seamus Kearney, euronews: O escândalo das despesas, por exemplo. Parece haver uma grande desilusão na política britânica. O Partido Trabalhista conseguiu atacar esse problema?

David Miliband: Esse escândalo teve repercussões negativas em todos os partidos.  Afinal, não é o governo que regula o parlamento, é o parlamento que se auto-regula. Tem razão quando diz que há muita desilusão, muito cepticismo. É algo que vamos ter de ultrapassar, tendo uma conversa com os eleitores.

Seamus Kearney, euronews: E em relação aos liberais-democratas? Por um lado, Gordon Brown diz que concorda com o líder deste partido, mas ao mesmo tempo critica…

David Miliband: Estamos na nossa própria plataforma e fiéis ao nosso manifesto. Temos diferenças com os outros partidos. A verdade é que vamos ter um governo trabalhista ou conservador saído destas eleições e temos que explicar às pessoas que a escolha é entre trabalhistas e conservadores.

Seamus Kearney, euronews: Mas podem vir a precisar dos liberais-democratas depois das eleições?

David Miliband: Estamos a lutar por todos os assentos que temos neste momento e nos dão a maioria no parlamento. É um mau serviço aos eleitores estarmos a afastar-nos dos assuntos para discutir o que se vai passar depois das eleições.

Seamus Kearney, euronews: Mas este gesto arriscado pode ser perigoso para o Labour, porque podem perder votos para os liberais e os conservadores ganharem…

David Miliband: Não estou a fazer gestos arriscados em relação a ninguém. Criámos a nossa plataforma e é nela que estamos. Explicámos as decisões tomadas e definimos as decisões que queremos tomar.
 
Seamus Kearney, euronews: Seria capaz de trabalhar com os liberais-democratas caso haja uma coligação depois das eleições?

David Miliband: Queremos um governo de maioria trabalhista.

Seamus Kearney, euronews: Sim, mas se houver um parlamento em suspenso, por exemplo?

David Miliband: Numa altura em que há muito cinismo e cepticismo em relação à política, uma das coisas que alimentam esse sentimento é haver pessoas dentro da política a perder tempo com conjecturas sobre quem vai fazer o quê a quem depois das eleições. Devemos é gastar esse tempo a falar sobre como as pessoas devem votar.

Seamus Kearney, euronews: Mas deve pensar nisso… 

David Miliband: Não, não penso. Penso em como vamos alimentar a recuperação, melhorar o sistema educativo, fazer as reformas no serviço nacional de saúde e, na qualidade de ministro dos Negócios Estrangeiros, fazer com que a Grã-Bretanha seja forte e influente no mundo. Não perco tempo a pensar nos liberais-democratas, penso na Grã-Bretanha.