Última hora

Última hora

Jacques Attali: a crise está apenas a começar

Em leitura:

Jacques Attali: a crise está apenas a começar

Tamanho do texto Aa Aa

Podemos prevêr as crises económicas? É um exercício perigoso a que Jacques Attali se dedica há muitos anos.

Engenheiro e economista de formação, presidiu ao Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento nos anos 90. Jacques Attali é autor de numerosos ensaios sobre política, economia e finanças.

A Euronews entrevista-o sobre a crise grega e as turbulências na Zona Euro. Para começar, Jacques Attali lamenta o atraso da Cimeira Europeia no tratamento do tema.

Jacques Attali – A cimeira ocorre muito tarde. Se tinha sido feita há 15 dias, três semanas, teríamos colocado 40 mil milhões na mesa e teria sido suficiente. Mas não foi, hesitámos, dissémos que não o faríamos, por isso é a pior das soluções, dizer não e depois dizer sim.

Em segundo lugar, o mecanismo que está em vigor não é credível, os montantes anunciados são muito elevados, mas o plano de rigor imposto aos gregos é absolutamente insustentável e mais: nós nem sequer lhes pedimos poupanças no orçamento da Defesa, o que representa a maior parte dos gastos!

Assim, os mercados vão forçosamente colocar a questão de saber o que se vai passar com outros países, estão preocupados, e vão tentar compreender se os Estados vão ser sérios, em Portugal, em Espanha, em Itália, em Inglaterra, porque o Reino Unido também está mal colocado.

E assim vamos ter mais ataques, não propriamente ataques, verificação da seriedade dos Estados que não o são.

Hoje em dia, os governos europeus não tomam a única decisão que se impõe, ou seja, criar títulos do Tesouro europeus para emprestar em nome da Europa. Tudo o que fazemos hoje é esbanjar.

Laura Davidescu, euronews – Então diz – se é que estou a compreender – face a uma crise com tal amplitude a única solução é consolidar os mecanismos verdadeiramente europeus?

J. A.- Claro … (…) a única solução é a de crescimento para a redução da dívida , é a única solução.

Mas enquanto se espera a retoma do crescimento, enquanto se fazem as economias necessárias, é preciso evitar a catástrofe e para evitar a catástrofe, devemos emprestar de modo credível e o único que pode emprestar de modo credível é a União Europeia.

L.D. – Mas está longe de ser uma decisão dessa envergadura …

J.A. – Nestes dois anos, de qualquer modo, não fizémos nada.

Parecemos o G20, que não serviu para nada, anunciámos tanto que nunca cumprimos, temos tanto medo de tomar a mais pequena decisão que não fizémos nada enquanto a bolha crescia.

A crise era uma pequena crise dos subprimes americanos, que devia ter custado 10 mil milhões de dólares e se tornou numa crise mundial de bancos que pode custar 500 mil milhões de dólares ..continuamos a não fazer nada, salvo transferir para os contribuintes, o que se transformou em crise da dívida pública que atinge os 7,8 biliões de dólares.

Os bancos continuam a especular exatamente como antes, os actos imorais também continuam do mesmo modo, nada, absolutamente nada mudou num sistema que está totalmente nas mãos do mercado financeiro internacional.

L.D. – Foi então que descobrimos, depois de uma crise das finanças privadas a crise das finanças públicas….

J.A. – Não descobrimos . Se me permite, com muitos outros, há três anos que digo que não fazemos mais do que transferir a dívida privada para a dívida pública.

Desde o momento em que se deu a crise do Lehman, escolhemos transferir a dívida privada para a dívida pública, e como aceitámos transferir aceitámos financiar todas as perdas dos mais diversos bancos e, Lehman à parte, não deixar ninguém declarar falência.

Assim, aceitámos que o contribuinte de amanhã, para além das dívidas que tenha , pague esses erros.

L.D. – Um dos motivos, já que há tantos, das queixas dos últimos três meses, está ligada ao Fundo Monetário Internacional.

Os dirigentes alemães opuseram-se a que a Europa pague, e assumem sozinhos o plano de socorro à Grécia.

O senhor qualifica, num artigo recente, a decisão de finalmente apelar ao FMI, como desonrada. Porquê?

J.A. – Retomei a fórmula de Churchill: “Você hesitou entre a guerra e a desonra, e porque escolheu desonrar-se vai ter a guerra. “

Infelizmente, esta fórmula que apliquei é verdadeira. Escolhemos a desonra porque o Fundo Monetário é uma estrutura honorável mas não é uma estrutura europeia. Assim, confiámos a outros, ou seja, aos americanos e outros não europeus a responsabilidade de decidir a política que convém seguir num país europeu.

Assim, optamos por uma estratégia que está a destruir a identidade europeia.

E o encargo principal será europeu, pois são os europeus que vão pagar a crise.

L.D. – Mas e se isso não chegar a acontecer, precisamente por a nossa construção europeia ter defeitos, pecados originais? Por exemplo, o euro nunca foi apoiado por uma política europeia comum ou fiscal ou económica ou de qualquer modo. Então, será que podemos enfrentar?

J.A. – Há 10 anos que digo que o euro vai desaparecer se não formos capazes de estabelecer um orçamento europeu.

Sempre avançámos assim na Europa: fizémos o mercado único porque o mercado comum não era suficiente e de cada vez houve crises que precederam estes factos.

Hoje, vemos como uma evidência que a moeda única não pode existir sem uma política fiscal e orçamental. Não é possível.

Então, será que temos a coragem de o fazer? Vamos ver! Mas, por agora estamos a lidar com os políticos que são do século XX. Estão um século atrasados.

L.D. – Há um, entre os actuais líderes da Europa, que mostre sinais de ter entendido esta realidade?

J.A. – Infelizmente, o único político sério que parece sério e ter compreendido é Jean Claude Trichet, mas não é um homem político.

É o único na Europa, que conheço, talvez com Jean Claude Junker também, que na posição de patrão do eurogrupo viu bem o que estava em jogo. Ambos compreenderam que era precisa uma integração maior, mas eles não estão em posição de impôr.

L.D. – Então para onde acha que vamos, Sr. Jacques Attali?

J.A. – Acho que estamos a ir para pior, e pior é dizer entre dois a três anos, até menos, uma desintegração da Europa. A única questão é se não os políticos que tiveram a coragem de decidir na calma podem fazê-lo durante a tempestade.
L.D. – Na tempestade? Então é apenas o começo desta tempestade …

J.A. – Com certeza, a crise está apenas a começar. Todos os que têm vindo a dizer, há meses e meses, “a crise acabou, saímos da crise” dizem qualquer coisa. A crise está apenas a começar. Porque o público aumenta a dívida, porque a recessão está aqui. É claro que não há crise na China, Índia, Ásia e em outros lugares. Mas a crise na Europa, a crise os E.U., a crise no Japão, a crise em todos os países da OCDE
está à vista. Estes velhos países, antes ricos, estão cansados, optaram por viver no crédito mas é preciso pagá-lo.
L.D. – Que preço tem de pagar a Europa? É que assim vai sair, se sair, mais fragilizada do que nunca.
J.A. – Primeiro ainda não acabou. E esta pode mesmo ser a ocasião, como quando houve a crise da desvalorização de 92-93 , ou a grande crise da Europa nos anos 83- 84, pode ser o momento de se reforçar, de fazer com que a crise se torne a ocasião para fazer melhor e mais. Ainda espero que a Europa compreenda que hoje a única via que lhe resta á Mais Europa e não Menos Europa.

L.D. – Na 24 ª hora …

J.A. – Esperemos que não seja na 25a, para citar um grande escritor romeno.

L.D. – Portugal? Existe um risco lá, imediatamente ou nos meses que vêm? E Espanha?

J.A. – Sim, evidentemente, os mercados vão verificar se os políticos que não fizeram a tempo o seu trabalho sobre a Grécia, vão fazer o seu trabalho sobre Portugal. Assim, vamos ver as notações de crédito (credit default swap ) de Portugal, de Espanha e do Reino Unido aumentarem até ficarem sem crédito, e vamos ver o que fazem os governos.

L.D.- O pior cenário.

J.A. – O pior cenário. É por lá, sem dúvida, que é preciso passar para chegar ao despertar da classe política.