Última hora

Última hora

Günther Oettinger: "A questão do 'Nabucco' será decidida até ao final do ano"

Em leitura:

Günther Oettinger: "A questão do 'Nabucco' será decidida até ao final do ano"

Tamanho do texto Aa Aa

Günther Oettinger, o antigo ministro-presidente de Baden-Württemberg, no sul da Alemanha, foi escolhido por Berlim para ocupar um lugar na Comissão Europeia. Desde Fevereiro, é o comissário europeu para a Energia.

A euronews questionou-o sobre a cooperação energética entre Europa e África, as futuras directivas sobre resíduos nucleares ou o projecto europeu de gasoduto “Nabucco”.

Hans von der Brelie, euronews: Senhor Oettinger, “Nabucco”, o gasoduto que atravessa a Turquia, vai ou não ser construído?

Günther Oettinger, comissário europeu para a Energia: A questão vai ser decidida até ao final deste ano. Há boas razões para avançar. Os investidores, os Estados membros e nós, a nível europeu, trabalhamos no projecto diariamente. Acredito que será um projecto europeu real e vai aumentar a segurança dos abastecimentos de gás natural à Europa.

euronews: Bem, um gasoduto tão grande tem de ser enchido com gás e são precisos contratos de fornecimento, que não existem até agora. Onde é que vai conseguir os contratos de fornecimento?

G. Oettinger: O ponto essencial é que existe gás natural. Há as explorações de gás natural na região do Cáspio, que estão entre as maiores do Mundo. Azerbaijão e Turcomenistão são possíveis países de abastecimento e possíveis parceiros. O que estamos a preparar são as condições que permitam tomar duas decisões em simultâneo: a decisão de construir o gasoduto e a decisão sobre quem vão ser os fornecedores. Precisamos de contratos a longo prazo e de uma oferta com um preço justo.

euronews: Outro problema é o Mar Cáspio que o gasoduto terá que atravessar. Como pensa tratar a questão face ao direito internacional?

G. Oettinger: A questão não é fácil de responder, quer do ponto de vista técnico quer jurídico. Os peritos ainda estão a discutir o estatuto legal do Mar Cáspio. A conclusão do debate jurídico é decisiva para saber se todos os países, nas margens do Mar Cáspio, podem interferir ou não.

No que diz respeito aos problemas técnicos: Será que é possível construir um gasoduto de 170 milhas no fundo do Mar Cáspio, que ligue o Turquemenistão no Leste, através de Baku, até ao Oeste? Ou devemos aceitar a ideia apresentada pelo governo do Turcomenistão de comprimir o gás e transportá-lo de barco através do Mar Cáspio? Todas estas perguntas têm de ser respondidas nos próximos meses.

euronews: Mais ou menos, discutimos se devem ou não ser construídas extensões através do Irão e do Iraque. Qual é o ponto da situação?

G. Oettinger: Em termos económicos, o “Nabucco” só tem sentido se o gasoduto puder transportar mais de 30 mil milhões de metros cúbicos de gás natural por ano desde o Mar Cáspio até à Europa. Hoje, na minha opinião, é possível ter esta quantidade de gás vindo do Azerbaijão e Turcomenistão. Claro que é do interesse da Europa mas também do Iraque juntar as reservas iraquianas de gás ao projecto.

euronews: Durante a Guerra Fria, a competição estratégica era em torno do maior número de mísseis. Hoje, a competição estratégia parece ser em torno do número e tamanho dos gasodutos. Há dois, quase paralelos, que estão projectados: o projecto russo, “South Stream”, e o europeu “Nabucco”. Qual é o problema do “South Stream”? Pode ser construído ou há um problema?

G. Oettinger: As nações vizinhas têm de decidir. E os parceiros russos. Mas de qualquer maneira a competição alimenta o negócio. Nós somos os consumidores e os consumidores estão contentes quando têm várias e bastantes ofertas na vitrina.

euronews: Qual é, actualmente, a situação? Pode a Europa ser chantageada? A Europa depende do gás natural russo.

G. Oettinger: Sim, estamos dependentes. Mas não podemos ser chantageados. Por um lado, tivemos boas experiências com os parceiros russos. Há vários anos que são fornecedores grandes e estáveis. Por outro lado, os russos têm interesse em exportar gás. Porquê? Eles co-financiam gasodutos. Por exemplo, o “North Stream”. O parceiro russo, Gazprom, é o principal proprietário e investidor. Nenhum investidor tem interesse em manter o gasoduto fechado. E há ainda outro ponto. Nos próximos anos, a Rússia vai precisar da tecnologia europeia: máquinas, estruturas industriais, veículos, inovação “made in Europa”.
A Rússia tem de preparar a era pós-gás, pós-carvão e pós-petróleo. A Rússia precisa de criar bem-estar e empregos para um período não muito distante. Podemos falar de uma dependência mútua, o que significa uma dependência sadia.

euronews: Isto conduz-nos a outro tema. A lenta evolução da diversificação das fontes de energia europeia. Quais são os esforços em curso para criar uma rede eléctrica que ligue o Norte de África e os países do Médio Oriente com a rede europeia para fazer chegar à Europa a energia solar e eólica produzida no deserto? É uma utopia ou um projecto concretizável?

G. Oettinger: É uma visão, mas uma visão realista. É talvez a melhor oferta que a Europa pode fazer a África: uma parceria energética justa. Deixem-nos construir centrais para produzir energia solar e eólica nos locais onde temos as melhores condições possíveis em termos de sol e de vento.
É o que estou a dizer a África. O Saará e o Médio Oriente seriam as melhores localizações. Mas tudo isso depende, de forma decisiva, da nossa capacidade para construir uma super-rede. Precisamos de um sistema eléctrico moderno capaz de transportar electricidade desde o sul para a Europa sem perdas….

euronews: Mas hoje não existe uma única e potente rede entre a Europa e o Norte de África.

G. Oettinger: É exactamente por isso que estamos a falar com os investidores para criar projectos-piloto, por exemplo, entre Espanha e Marrocos, ou a Sicília, em Itália. Esses projectos, depois de iniciados, irão reforçar confiança dos dois lados. Acredito que o Mediterrâneo é uma região cultural comum e, por isso, pode tornar-se numa região económica comum. A decisão sobre o mega projecto de energias renováveis, “DESERTEC”, será tomada dentro de dois a três anos.

euronews: O presidente da Comissão Europeia disse, recentemente, que a energia nuclear, na Europa e no Mundo, está a aumentar. Actualmente, tem na sua secretária um projecto de directiva sobre os resíduos nucleares, que deverá estar pronta no segundo semestre deste ano. Qual é o conteúdo desta futura directiva?

G. Oettinger: É da nossa competência decidir sobre o reforço das normas de segurança para os locais de armazenamento definitivo dos resíduos nucleares, em termos de condições geológicas apropriadas e da tecnologia usada…

euronews: Qual é a vossa intenção? Vai decidir se e quando será construído e autorizado um local de armazenamento definitivo?

G. Oettinger: Não é o que pretendo. Não quero interferir com as competências das administrações nacionais sobre o planeamento e a construção. Esse trabalho tem de ser feito pelos Estados membros. Nós decidimos as regras de segurança. A escolha sobre a localização e o tamanho do local de armazenamento definitivo é dos parceiros nacionais.