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O suicídio da indústria do algodão

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O suicídio da indústria do algodão

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A indústria de algodão é uma das mais poluentes do mundo. A Índia é o segundo maior produtor mundial, depois da Turquia. O algodão ocupa 5% da terra cultivada, mas é responsável por mais de metade do total de pesticidas usados.

A revolução verde, nos anos 60, introduziu novas sementes híbridas, muito dependentes de fertilizantes e pesticidas. O uso excessivo de químicos diminuiu os lençóis freáticos, envenenou as nascentes e afectou a fertilidade da terra.

“Os agricultores que cultivam algodão transgénico pedem dinheiro emprestado, para comprar fertilizantes químicos, pesticidas e sementes. No caso de uma quebra na colheita, devido a condições adversas, como chuvas e pestes, o agricultor não pode devolver o dinheiro. Muitos sentem-se forçados a suicidar-se”, explica Bojju Bai.

Alguns especialistas dizem que mais de 17 mil e 500 agricultores se suicidaram entre 2002 e 2006. A maioria bebeu pesticidas. A agricultora Bojju Bai, da aldeia de Belgaum, encontrou outra resposta. Converteu-se ao algodão orgânico: “Antes do orgânico, pedi um empréstimo a um privado: 10 mil rupias por estação e ficava sem nada depois de pagar o empréstimo e os juros. Agora, tenho alguns benefícios”.

Em 2004, as organizações não-governamentais holandesas Solidaridad e ICCO lançaram o projecto Chetna, uma experiência-piloto na área do comércio justo e biológico. Três anos depois, a Chetna criou uma associação para ajudar os agricultores a tornarem-se orgânicos. Os produtores aprendem, por exemplo, a produzir fertilizantes e pesticidas biológicos.

“Estamos a tentar melhorar as opções de subsistência dos agricultores mais pequenos, tornando os seus sistemas agrícolas mais sustentáveis, mais rentáveis, e começou como uma iniciativa da cadeia de abastecimento”, conta Siddharth Tripathy.

Os agricultores aprendem que é possível ter uma boa colheita sem químicos.“Há imensos remédios ecológicos como os agricultores lavrarem a terra no Verão, plantarem espécies que atraem as pestes, que, de outro modo, atacariam o algodão. Temos também imensos sprays botânicos, que não são mais do que extractos de algumas folhas de plantas. E depois temos vários métodos de controlo biológico, como alguns insectos na natureza que se alimentam das pestes”, enumera Mahesh, o responsável pelo programa da Chetna.

A alternativa biológica é suportada por práticas integradas, de forma a obter rendimentos noutros sectores que não o algodão. Kohinur é uma das seis aldeias que implementaram um sistema de retenção de água. Há dois anos, este lago não existia. Agora, os agricultores podem vender e consumir peixe, e regar as plantações.

“Estamos a conservar a água para aumentar a produtividade: usamos esta estrutura para controlar a erosão do solo e manter a fertilidade dele”, sublinha Pendur Sungu do grupo responsável pelo sistema.

Os agricultores não podem depender apenas de uma cultura, porque se ela falhar estão arruinados. Eles precisam de culturas alimentares, gado e centrais de biomassa. Em Kohinur, dez mulheres sem terra tiveram a oportunidade de criar um horto para plantas e frutas. Nesta estação, vão ter uma receita de 10 mil rupias.

Cada vez mais agricultores estão a converter-se à agricultura biológica na Índia. Mais de cinco mil e quinhentos juntaram-se à Chetna desde 2004. A associação proporciona-lhes acesso aos mercados e negoceia melhores preços.

“Em algumas aldeias verificámos que todos os elementos estão a aderir ao orgânico e que todos os campos são orgânicos. Não produzem apenas algodão, mas também soja e outros milhetes. Identificámos 1520 aldeias como esta, o que é uma grande conquista”, realça Bhaskar Chandra Adhikari da Chetna.

A produção sustentável de algodão vai directamente para os consumidores. A qualidade é verificada, o algodão orgânico é rastreado e certificado internacionalmente.