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Ministro da Unificação da Coreia do Sul: "Não podemos tomar medidas que ponham em risco as relações entre as duas Coreias"

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Ministro da Unificação da Coreia do Sul: "Não podemos tomar medidas que ponham em risco as relações entre as duas Coreias"

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Na Coreia do Sul existe um ministério da Unificação, que tem como tarefa preparar a reunificação a longo termo com a Coreia do Norte.

O órgão foi criado em 1969, mas apenas em 1998 adquiriu o estatuto de ministério e passou a desempenhar um papel-chave na promoção do diálogo inter-coreano e na gestão das crises entre os dois países.

A Euronews foi a Seul entrevistar o actual ministro da Unificação, Hyun In-Taek, a propósito do recente ataque a uma corveta sul-coreana e do futuro da península coreana.

Pergunta: Como é que o último incidente afectou o processo de negociações entre os dois países?

Resposta: Este incidente é uma provocação militar da Coreia do Norte. O submarino norte-coreano atacou, com um torpedo, a corveta Cheonan, que se afundou. Neste acidente, 46 soldados sul-coreanos foram sacrificados e ainda por cima isso passou-se nas nossas águas territoriais. É claramente uma provocação militar. Até agora, o Governo fez esforços para desenvolver as relações entre os dois países, mas com este acidente provocador, muito aventureiro, é difícil manter a calma. Em primeiro lugar, queremos que a Coreia do Norte reconheça a culpa e peça desculpas. Desejamos também ver os responsáveis punidos e uma promessa da Coreia do Norte em como isto não acontecerá novamente. Só depois disto, as nossas relações podem retomar um percurso normal. Nesta óptica, este acidente está no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com a ideia de que não podemos passar uma esponja e que este acidente não pode voltar a acontecer. Insisto, não podemos fechar os olhos ao que se passou.

P: Depois do incidente com a corveta, o vosso presidente assumiu uma posição muito firme e afirmou que a Coreia do Norte deve compreender que a Coreia do Sul tem os seus limites. O que é que ele queria dizer? Os limites já foram atingidos?

R: Tomámos medidas diplomáticas: suspensão das trocas comerciais entre os nossos dois países e a interdição da navegação da Coreia do Norte em águas territoriais da Coreia do Sul.

P: Falamos de limites a não ultrapassar, de limites na provocação… O que é que isso significa exactamente?

R: Este ponto refere-se à particularidade da relação entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. É a Coreia do Norte que está na origem deste incidente e que com esta provocação militar minou a segurança e a paz na península, mas ao mesmo tempo, para o futuro, devemos pensar na unificação. É um grande dilema para o meu Governo. Para resolver o problema nós estamos limitados. Por um lado, devemos mostrar uma atitude e tomar medidas bastante firmes, que dêem uma boa lição à Coreia do Norte, para evitar que isto se repita. Mas, por outro lado, não podemos tomar medidas que ponham em risco as relações entre os nossos dois países. Devemos ter em conta, nas nossas acções, o futuro a médio e longo prazo.

P: Quais são os principais obstáculos à unificação actualmente?

R: Há dois obstáculos. Em primeiro lugar, o desenvolvimento nuclear da Coreia do Norte. Se a Coreia do Norte insistir no desenvolvimento nuclear, haverá um perigo que ameaçará a segurança dos países do sudeste e a segurança mundial. O meu Governo trabalha com a comunidade internacional desde que a primeira crise nuclear eclodiu em 1993. A desnuclearização da Coreia do Norte é a primeira coisa a fazer. Portanto, vai ser preciso continuar a trabalhar nesse sentido. Em segundo lugar, há o obstáculo do carácter bélico da Coreia do Norte, como o constatámos com o último incidente. O aventureirismo militar e as provocações são um desafio para nós e uma ameaça para a paz e a segurança regional.

P: Acha que uma reunificação como a alemã é possível num futuro próximo?

R: Claro que sim… Há dois pontos na sua pergunta. Em primeiro lugar, a necessidade da reunificação. Em segundo lugar, será que ela é possível? Devemos ter em mente a nossa história dos últimos 60 anos, desde 1945, a Segunda Guerra Mundial e a instauração de uma nova ordem mundial. Durante a Guerra Fria, dois sistemas opostos coexistiram durante muito tempo antes que um colapsasse. Isto permitiu à Alemanha reunificar-se, há 20 anos. Consideramos que o Deus da História pode abençoar a península coreana como ele abençoou a Alemanha há 20 anos. A curto prazo, na realidade, a unificação será difícil, mas, no final, deve fazer-se. A nossa raça viveu durante milhares de anos como uma raça unida e um só país desse ponto de vista. Os últimos 60 anos não são nada à escala da História com um H grande.

P: Mas isso deve passar por uma mudança de regime como na Alemanha…

R: Por causa disso, nós multiplicamos os esforços, mas no que concerne à unificação, é claro que a mudança de regime se fará gradualmente. Ninguém pode dizer quando a unificação se fará. O povo alemão disse que a unificação se faria num certo momento, mas ninguém pode prever quando ela se fará.

P: Acha que isso é possível com Kim Jong-il no poder? Com o seu regime?

R: Neste momento, a Coreia do Norte é dirigida por Kim Jong-il. Esta é a realidade da Coreia do Norte. Não vale a pena perguntar se é bom ou mau, é assim. E em todo o caso, se os nossos dois países devem dialogar, é com Kim Jong-il. Não podemos perseguir um ideal, ocultando a realidade. Portanto, tudo que nós podemos fazer é dar oportunidades à Coreia do Norte de mudar e, entretanto, viver com o regime de Kim Jong-il.

P: Uma última questão. Gostaria de regressar a algo que disse, há pouco, sobre o Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Coreia do Norte está, cada vez mais, isolada na cena internacional. O seu país tem imensos aliados, mas a Rússia e a China estão sempre hesitantes em condenar o regime de Kim Jong-il. Isso inquieta-vos e quais são as vossas relações com esses dois países?

R: Nós mantemos relações diplomáticas, políticas e económicas com a China e com a Rússia. No que concerne ao incidente da corveta Cheonan, opiniões diferentes foram expressas quanto às medidas a adoptar. Mas pensamos que a China compreendeu bem este incidente. A comunidade internacional é um conjunto de países ligados por interesses variáveis. O diálogo, a compreensão e a real politik são necessários. Portanto, nós dialogámos com a China e a Rússia e parece que o resultado obtido com esses dois países apareceu perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Muito em breve, acho que nós obteremos a satisfação da comunidade internacional.