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Lukashenko: "O gás é um pretexto" da Rússia

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Lukashenko: "O gás é um pretexto" da Rússia

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A nova guerra do gás, entre a Rússia e a Bielorrússia, já provocou uma redução do aprovisionamento a certos países europeus. Menos mal que estamos no Verão: ninguém corre o risco de morrer de frio.

O litígio parece estar resolvido: a Bielorrússia pagou a dívida do gás à Rússia; a Rússia pagou sensivelmente o mesmo montante à Bielorrússia pelos direitos de trânsito.

Mas, nesta entrevista exclusiva, realizada na quinta-feira, o presidente bielorrusso, Alexandre Lukashenko, declarou a Alexei Duval, jornalista da euronews, que Moscovo usou o gás como arma política contra Minsk.

Alexandre Lukashenko: Aqui, está a ver [e o presidente mostra um documento]… O pagamento da nossa dívida, em dólares e em rublos.

Alexei Duval – euronews: A 23 de Junho.

A.L.: Sim, ontem. Pagámos e pedimos à Gazprom, ‘se faz favor, ponham fim às restrições ao fornecimento de gás.’. A Lituânia e acho que a Alemanha não gostaram de terem sido privadas de gás. Mas não é de nós que se devem queixar: é da Gazprom. Fechou a torneira a cerca de 60 por cento. Só deixou 40% e a culpa é nossa?!

euronews : Houve uma sucessão de acontecimentos recentes: A Bielorrússia não reconheceu a independência da Ossétia do Sul e da Abecássia, não entrou na união aduaneira e deu asilo ao antigo presidente do Quirguistão. Tudo isto, contra a opinião da Rússia. Há, portanto, uma causa política por trás do conflito do gás?

Alexandre Lukashenko: A questão é mais profunda. Os russos estão de olhos postos numa propriedade pública da Bielorrússia que, actualmente, não está privatizada. E querem comprá-la ao mais baixo preço. Além disso, não gostam de Lukashenko, porque ele defende a independência com unhas e dentes, a 100 por cento. E há outras razões pessoais, como sabe. Muitas outras coisas. Não gostam da nossa política. Querem subjugar-nos. Na realidade, isto é o reflexo de uma posição imperialista – como dizem os jornalistas – que visa manter a Bielorrússia na esfera de influência russa. Uma mentalidade imperialista que consiste, precisamente em tentar dobrar-nos, espremer-nos, estrangular-nos.

euronews: Pensa, portanto, que neste conflito, o gás foi utilizado como um instrumento de pressão política?

Alexandre Lukashenko: O gás é o pretexto. Dizem que é um diferendo entre entidades económicas. Estranho argumento, tendo em conta que após o meu encontro com Dimitri Medvedev concordámos que o presidente russo ia analisar todos os sectores, incluindo o gás e o petróleo, e que ia telefonar-me para discutir os resultados dessa análise. Dois dias depois, começo a ver o ‘filme’: Medvedev reunido com Alexei Miller, o responsável da Gazprom, e a dar-lhe ordens. Foi tudo uma mascarada. Porquê exigir-nos o pagamento, se nos deviam ainda mais dinheiro?! Porque é que não pagaram?! Dito de outra forma, o conflito não tinha razão de ser. Deviam-nos 260 milhões de dólares e nós devíamos 187 milhões. Não havia nenhuma razão para este conflito.

euronews: Então, trata-se apenas de pressão política?

Alexandre Lukashenko: Trata-se de nos subjugar e de nos punir. Os ‘media’ já começaram a evocar as próximas eleições presidenciais na Bielorrússia e, como é óbvio, os russo fazem pressão pré-eleitoral. Os nossos opositores, assim como os russos, pensam que Lukashenko está disposto a vender a Bielorrússia para se manter no poder e ter o apoio do Kremlin. Mas reitero que não preciso do apoio nem do reconhecimento de ninguém – excepto do povo bielorrusso. Se o povo bielorrusso escolher Ivanov, Petrov ou Sidorov é um deles que será presidente.

euronews: E o que é que a Rússia ganhou com este conflito?

Alexandre Lukashenko: Conseguiu que a Europa se convencesse, ainda mais, de que precisa procurar activamente alternativas ao fornecimento russo de energia e de que não podemos contar com a Rússia. E os russos sabem o que os espera!

euronews: Mas, senhor presidente, se para si é cada vez mais difícil alcançar compromissos com a Rússia, nas mais variadas questões, não será tempo de fazer uma volta a 180 graus e tomar o caminho da integração europeia?

Alexandre Lukashenko: Sabe? Antes de mais, a maioria dos políticos não tolera fazer meia volta e ainda menos, fazer curvas apertadas. Em segundo lugar, sejamos objectivos: Será que a Europa está a nossa espera? Hoje em dia, a Europa tem tantos problemas a 27 que não vê qualquer interesse na Bielorrússia, na Ucrânia, etc.. Não quero com isto dizer que, na Bielorrússia, não gostemos da Europa, não a compreendamos ou não queiramos viver como na Europa. Não é isso. Mas o nosso povo quer viver no seu país. Não vamos dar meia volta: queremos continuar na nossa parcela de terreno. Vamos viver aqui e não queremos problemas com ninguém, muito menos com os vizinhos: a Rússia, de um lado, a União Europeia, do outro. Nunca tentámos criar problemas a ninguém – excepto quando nos obrigam a isso. Vamos continuar na nossa terra, enquanto Estado soberano e independente, sem criar problemas a ninguém.