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Caso de espionagem não é início de Guerra Fria

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Caso de espionagem não é início de Guerra Fria

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O presidente do Centro Europeu de Segurança e Inteligência Estratégica, Claude Moniquet, falou à Euronews sobre o recente caso de detenção de alegados espiões russos nos Estados Unidos.

euronews: A detenção de uma dezena de espiões nos Estados Unidos que trabalhariam para os serviços secretos russos faz lembrar os anos da Guerra Fria. Qual é a sua opinião?

CM: Este caso deixou-me surpreendido. O facto dos russos continuarem a espiar os norte-americanos e vice-versa 20 anos depois do fim da Guerra Fria, isso não é surpresa. O que me surpreende de facto neste caso, em particular, é a sua duração. É um caso que dura há pelo menos 20 anos, 15 anos no mínimo, de certeza. Assim como a duração das operações de vigilância conduzidas pelas autoridades norte-americanas. Os espiões são acompanhados há pelo menos 7 anos. Há sete anos que são perseguidos, existiam microfones e câmaras nas suas casas e nos seus locais de encontro. Também os seus carros estavam sob vigilância. Foram seguidos passo a passo. Tudo isso é fascinante. Quando se lê o dossier da acusação que foi tornado público esta terça-feira ficamos com a impressão de ler uma sinopse de um romance de espionagem saído da Guerra Fria.

EN: O que é que esse documento contém?

CM: São 6 a 7 anos de investigações condensadas em algumas dezenas de páginas. Tiveram lugar detenções secretas. Entraram nas suas casas quando lá não estava ninguém, com mandados de captura assinados por um juíz. Revistaram as casas, colocaram microfones, copiaram os discos duros dos seus computadores, os seus telefones fixos ou portáteis foram colocados sob escuta. Por vezes foram utilizados agentes à paisana para se aproximarem deles. Tudo isso gerou uma enorme quantidade de informações. Imagino que a investigação tenha durado uns dez anos. Isto significa dezenas de agentes e milhões de dólares. É o resumo desta investigação que encontramos no documento de acusação.

EN: Na sua opinião, quais serão as consequências deste problema nas relações entre Washington e Moscovo?

CM: Em regra geral, a história sugere que um incidente deste género desperta sempre uma certa frieza nas relações. Estou certo que terão lugar desenvolvimentos a curto prazo. Vamos assistir à expulsão de diplomatas russos porque os diplomatas russos na ONU foram identificados como estando em contacto com estes agentes, ditos ilegais. Talvez seja útil também regressar à questão das pessoas em situação ilegal. Terão lugar expulsões de cidadãos americanos na Rússia. Seguir-se-á um pequeno período de frieza e depois tudo regressará à normalidade. Isto porque a história ensina-nos que a espionagem é algo praticado por todos os países e que todos o aceitam. É claro que ninguém gosta de ser apanhado… Trata-se de um mau momento mas que decerto a política irá fazer esquecer depressa.

EN: O que é curioso, aborrecido ou mesmo embaraçoso, é que esta questão surge poucos dias depois de termos visto relações cordiais, e mesmo calorosas, entre os presidentes russo e norte-americano… e depois, alguns dias mais tarde, eis o que acontece! Detenções devido a espionagem…

CM: Absolutamente! Mesmo assim, acho que é uma coincidência. É claro que o FBI receava que uma parte desses ilegais, fala-se de cerca de uma dezena de detenções, aparentemente tratavam-se de 5 casais, o FBI receava que deixassem o país e assim escapassem ao alcance da justiça norte-americana. Foi por isso que decidiram agir após a cimeira EUA-Rússia e não antes, felizmente. Mas penso que se trata de uma coincidência. Por outro lado, os russos são muito pragmáticos e em incidentes idênticos há vários anos, eles disseram claramente que colocavam de um lado as questões de recolha de informações que consideram legítimas, e de outra parte as relações políticas que implicam um registo diferente, bem entendido.