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Bruxelas: Cidade mal-amada

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Bruxelas: Cidade mal-amada

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Pela estação de Etterbeek, em Bruxelas, passam todos os dias mais de 700 mil pessoas que trabalham na capital belga mas vivem noutros locais. Bram Esposito é uma delas. Todos os dias desloca-se entre Bruxelas e a sua casa em Antuérpia, a 60 quilómetros de distância.

Bram Esposito explica o porquê desta escolha: “Estou contente por trabalhar aqui. Essa é uma das razões porque vim trabalhar para Bruxelas. Há um ambiente mais internacional e gosto desse ambiente”. Mas prefere viver na Flandres, em Antuérpia, porque diz ser a sua casa.

Bram, web-designer na Universidade Livre de Bruxelas, faz parte dos 60% de trabalhadores que vivem e pagam impostos fora da cidade, o que agrava a situação económica de Bruxelas: “Usamos muito os serviços públicos, todo o tipo de serviços disponíveis, e pagamos os impostos na Flandres. Parece-me normal, mas, por outro lado, há tantos estrangeiros a trabalharem aqui e que vivem e pagam impostos noutros lados. Talvez outras regiões ou outros países devessem pagar uma contribuição”.

O Estado federal belga é composto por três regiões: a Flandres, a Valónia e Bruxelas, e por três comunidades linguísticas: o francês, o flamengo e o alemão. Bruxelas, bilingue, pertence à Comunidade francesa e acaba por ser uma parte do diferendo entre francófonos e flamengos.

Pascal Delwit, analista da Universidade Livre de Bruxelas, evoca a amplitude do problema orçamental da capital belga: “Muitos trabalhadores flamengos ou valões deslocam-se todos os dias para Bruxelas. É preciso ter em conta que os bruxelenses ocupam apenas um em cada dois postos de trabalho na região. Esses trabalhadores têm um certo custo sem, diria, gerar receitas do ponto de vista fiscal, pois os impostos são cobrados em função da residência e não do local de trabalho”.

Para os flamengos, Bruxelas é um enclave francófono, repleto de expatriados e imigrantes, no interior de uma área de língua flamenga. Os separatistas do NVA propõem abolir o estatuto da região de Bruxelas. Mas muitos políticos são contra.

A cidade, capital europeia, precisa de fundos para fazer face aos sinais evidentes de decadência urbana. Uma queixa reiterada por Philippe Jourion, engenheiro: “Penso que muitas ruas estão bastante abandonadas, do ponto de vista da limpeza vemos muito lixo, há as casas mal cuidadas em certos bairros”.

Philippe Jourion faz parte dos trabalhadores de Bruxelas que viajam todos os dias. Os mais ricos residem na Flandres e pagam lá os seus impostos. Philippe Jourion vive em Linkebeek, uma aldeia na contestada periferia de Bruxelas.

Pascal Delwit reconhece que o modelo urbanístico é uma das problemáticas: “Temos um modelo urbanístico na Bélgica que é muito diferente de outros Estados, por exemplo, de França. A classe média alta e os ricos vivem na periferia da cidade, enquanto os mais pobres, menos bem pagos ou no desemprego, vivem na cidade. Há uma espécie de rejeição de Bruxelas, ligada ao seu modelo urbanístico”.

Apesar de viver na periferia, Philippe Jourion aproveita as vantagens da cidade: “Mesmo morando na periferia, a localidade onde moro é muito pequena, quando precisamos do hospital vimos a Bruxelas, quando vamos a um espectáculo é em Bruxelas. Aproveitamos as vantagens da cidade e é lógico que todos contribuam”. Mas paga os impostos na Flandres, embora garanta que não escolheu. “É a Bélgica que está dividida, não sei se as pessoas querem realmente isso”, afirma.

A NATO e as instituições europeias trouxeram prestígio internacional a Bruxelas, mas isso significa também custos adicionais com a segurança. Além disso os funcionários europeus não pagam impostos ao Estado belga e as grandes empresas, que poderiam contribuir para o orçamento da cidade, estão instaladas, não muito longe, na Flandres.