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Astana: Brasília cazaque ou utopia imobiliária?

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Astana: Brasília cazaque ou utopia imobiliária?

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“Por vezes, nem eu mesmo acredito. Há apenas seis ou sete anos, aqui era a estepe.” Estas sâo as palavras de Nursultan Nazabayev, presidente do Cazaquistão., referindo a Astana.

A Astana de hoje, com os seus 800 mil habitantes, foi criada em apenas 12 anos, graças às riquezas energéticas do Cazaquistão – e pela vontade de Nursultan Nazarbayev, um presidente, que segundo uma lei de 2007, tem poderes e privilégios vitalícios: “Tenho uma grande satisfação no facto de ter tido um papel capital em cada edifício, em cada rua desta cidade. Havia muito cepticismo. Não acreditavam que podíamos construir esta cidade. Astana foi construída para mostrar como o Cazaquistão é capaz de se unir, de avançar para o futuro das novas tecnologias, sobretudo no sector da construção. E também para melhorar as relações humanas”, diz o presidente cazaque.

Por detrás do design ultra-moderno, assinado por arquitectos como Kisho Kurokawa ou Norman Foster, a maioria dos edifícios incorpora o estilo típico cazaque, em forma de yurt. Astana, uma das capitais mais frias do mundo, com 40 graus negativos no Inverno, teve de adaptar-se ao clima, como explica Sagyndyk Djanbulatov, director de planeamento da cidade: “De facto, fomos capazes de construir edifícios que aguentam condições climáticas extremas. A única diferença entre os nossos prédios e os da Europa reside no aquecimento. O aquecimento é praticamente o mesmo – mas tivemos de usar vidro triplos. E a espessura das paredes tem de permitir condições de vida confortáveis, no interior.” E acrescenta: “Passámos dez anos a construir. Agora temos de estudar a forma de melhorar a nossa tecnologia de construção, mesmo que seja difícil, para que os visitantes estrangeiros possam dizer: vocês têm um estilo extraordinário e único.”

A população de Astan é, maioritariamente, jovem. Como Ainash Chengelbaeva, que decidiu vir morar para a capital para ser jornalista: “Vim de Almaty para Astana porque a capital oferece um futuro interessante, com imensas possibilidade de fazer carreira, de prosperar e de alcançar objectivos – algo que é importante para os jovens.”

Para já, Ainash mora num velho andar da época soviética, do tempo em que a cidade se chamava Zelinograd. Mas sonha com um apartamento moderno: “Há programas do governo para resolver os problemas de habitação, mas não são realmente acessíveis a toda a gente. São de difícil acesso e, normalmente, só beneficiam aos funcionários públicos. É preciso bater-se para conseguir arendar um apartamento ao abrigo desses programas.”

Em 1986, a cidade não tinha mais de 270 mil habitantes. Nos últimos dez anos, quase meio milhão de pessoas veio viver para a novel capital. E os novos planos de Astana prevêm duplicar a área urbana nos próximos 20 anos.

“Estamos a trabalhar na reconstrução e na modernização completa dos antigos edifícios”, explica Amanjol Chicanaiev. O responsável pelo desenvolvimento regional de Astana garante escolher apenas os melhores projectos arquitectónicos: “Queremos que estas construções respeitem os padrões de modernidade. Por isso, organizamos concursos internacionais para escolher os arquitectos.”

Com 70 anos de idade, récem-celebrados, o presidente acredita numa mudança do centro de gravidade geo-estratégico mais para Leste. Nesse caso, quer que Astana, entre a Europa e a Ásia, passe a ser conhecida internacionalmente pela sua arquitectura: “Penso que dentro de 10 ou 20 anos, Astana será uma bela cidade, com boas condições de vida, da qual toda a gente falará.”

A capital do Cazaquistão acabou de comemorar os seus 12 anos de idade, com a inauguração de inúmeros edifícios. A febre de construção continua, numa cidade que não sofreu a crise imobiliária que tem abalado outras urbes pelo mundo fora.

Da varanda do seu sumptuoso palácio, o presidente Nazarbayev disfruta de uma vista invejável, verdadeiro espectáculo de arquitectura e urbanismo futurista. É difícil prever quanto tempo este sonho, esta utopia se vai manter. Mas a verdade é que a crise imobiliária ainda não atingiu a estepe na qual Astana se erige.