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Economistas propõem grande empréstimo europeu

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Economistas propõem grande empréstimo europeu

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O Verão chegou, finalmente, ao Sul de França e, com ele, os turistas. E se entre os Vinte e Sete a palavra de ordem é apanhar rapidamente o comboio da austeridade, aqui os turistas aproveitam as férias… embora conscientes da crise que se faz sentir. “Vamos ter menos férias, nós os espanhóis”, diz uma turista que acrescenta, contudo: “ Eu não posso queixar-me, porque pude vir para cá.”

A crise dos bancos deixou uma pesada factura. Os cofres públicos estão vazios e os europeus questionam-se, como faz uma jovem francesa: “Sou estudante na área científica e gostaria de fazer investigação. Mas, infelizmente, não há verbas. Até me interrogo sobre ir para o estrangeiro ou não. É verdade que o futuro nos inquieta.” Outro turista, um italiano, acrescenta: “Espero que o futuro do meu filho, que está aqui” – diz, apontando para a barriga da mulher – “seja mais próspero, melhor. Espero mesmo.”

Foi para discutir o futuro que se realizou, em Aix-en-Provence, no Sul da França, o congresso anual do “Cercle des économistes”. Este “círculo de economistas”, que reúne trinta universitários franceses de todos os quadrantes políticos, conseguiu sentar à mesma mesa 137 economistas, industriais e políticos de 24 países “à procura de um novo crescimento.” As sementes deste crescimento devem germinar nas tecnologias verdes, na inovação e na educação, mas no solo árido da austeridade não vai ser fácil.

“Fizémo-lo para a agricultura há 50 anos, devemos fazer a mesma acção mutualizada para a indústria e a investigação.” diz Michel Barnier. O comissário europeu para o Mercado Interno e os Serviços acrescenta: “Devemos falar às pessoas, aos cidadãos, às empresas de um projecto económico, de uma nova oferta de crescimento e de emprego. E isso passa por investimentos de longo prazo, infra-estruturas e um maior apoio à educação e à investigação.”

Para financiar este investimento, numa fase em que os Estados estão no vermelho, o Cercle des économistes propõe a criação de uma agência da dívida europeia, responsável por um grande empréstimo à escala dos Vinte e Sete.

“A Europa não pode descer à segunda divisão. É como no futebol: quando se desce, é bastante difícil voltar a subir à primeira divisão”, defende o economista Christian de Boissieu. E continua: “Pedir emprestado não é o mesmo que criar moeda. Trata-se de reciclar a poupança. Claro que o Banco Central Europeu não tem de se envolver directamente nesta operação. Até é melhor que não se envolva, nem deve preocupar-se com ela.”

Mas o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, não esconde as suas reticências quando ao endividamento da União Europeia:

“Não sou de todo favorável, a priori, a tal medida. Estamos num período em que é preciso gerir muito atentamente o conjunto dos orçamentos. Chamemos-lhe ‘rigor’ – não tenho nehum problema com isso! Rigor, austeridade… Eu chamo-lhe ‘boa gestão orçamental’, uma gestão, obviamente, rigorosa.”

O que os defensores de um grande empréstimo europeu mais receam é um veto de Berlim. A virtuosa Alemanha não quer pagar os excessos dos vizinhos, mas o economista Philippe Aghion pensa que é possível convencê-la: “Antes de mais, é preciso que os alemães compreendam que más perspectivas de crescimento para quase todos os países europeus não é bom nem para eles nem para a zona euro. Os mercados especulam quando prevêem um crescimento fraco. Isto é uma forma de matar esta especulação. Há que explicar aos alemães que tudo o que possa matar a especulação é bom para eles.”

A outra ferramenta para matar a especulação é a regulação mundial, que o director-geral da Organização Mundial do Comércio gostaria de ver implementada. “Os animais tóxicos estão mais bem enquadrados do que os produtos financeiros tóxicos. É preciso uma regulação global, que ainda não existe, mas que está, provavelmente, a começar a criar-se pouco a pouco. Não é impossível mas é preciso saber que é muito mais complicado e mais longo do que o que se faz num perímetro nacional. Mais uma razão para começar imediatamente”, defende Pascal Lamy.

Até porque Nouriel Roubini, o homem que, em 2006, tinha previsto a crise, não acredita lá muito na retoma actual: “Não estamos a resolver as causas fundamentais da última crise e podermos mesmo estar a plantar as sementes de uma nova. Por isso estou preocupado com esta mistura de de supervisão e regulação laxistas com dinheiro e crédito fáceis e com políticas fiscais fracas. Isto vai provocar – não no próximo ano nem no outro, mas dentro de uns três anos – mais instabilidade financeira.”

Apostar hoje na capacidade de retoma da economia europeia de amanhã: eis o desafio lançado aos Vinte e Sete pelo Cercle des économistes.

Na manga, um argumento de peso: só a promessa de um grande festim poderá levar os europeus a aceitarem uma dieta.