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Meliha Bosnjak conta o que viveu em Srebrenica

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Meliha Bosnjak conta o que viveu em Srebrenica

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Meliha Bosnjak tem 25 anos. Há 15 anos, em Srebrenica, perdeu o pai. A euronews encontrou-a em Saint-Genis Laval, nos arredores de Lyon, no Leste de França:

“Era o dia 11 de Julho. Houve muita emoção num único dia. Eu tinha apenas dez anos e não sabia o que se passava à nossa volta. A minha mãe guardou-nos com ela e disse: ‘não olhem muito’. Naquela altura, Srebrenica era uma zona protegida e nós, por questões de segurança, tínhamos ido para Srebrenica, porque era protegida.

Depois o meu pai ficou em Srebrenica e eu, a minha mãe, as minhas irmãs e o meu irmão partimos para Tuzla, que era outra cidade que estava livre.

Foram os sérvios que fizeram isto. Eles separaram as mulheres dos homens. A minha mãe deu o meu irmão pequeno à minha irmã e foi assim que a minha irmã o levou até ao autocarro e ficou com ele durante a viagem, porque os sérvios pensavam que era o filho dela. Ela era grande, embora fosse ainda adolescente. A minha mãe tinha medo, porque tínhamos ouvido dizer que as adolescentes eram levadas para serem violadas…

O meu pai ficou e nós partimos.

Como todos os homens, partiram rapidamente, não tivemos nem sequer 15 minutos para dizer adeus, para falar. Recordo-me apenas que ele disse à minha mãe ‘protege bem os meus filhos e acalma-te, sobretudo, não chores, não mostre muito as tuas emoções e voltamos a encontrar-nos em Tuzla’.

Depois seguiu o caminho da floresta, com quase dez mil outros homens. Hoje, vemos as imagens desses dez mil mortos espalhados nas florestas do Leste da Bósnia.

Ouvimos muitas histórias. A última conta que o meu pai foi ferido na perna direita e como não podia continuar a caminhar ficou abandonado na floresta. Ouvimos dizer também que estava de tal forma cansado que disse que ia entregar-se aos sérvios. Havia sérvios na floresta que os chamavam dizendo: ‘venham, não vos vamos fazer mal, só queremos trocar-vos contra os sérvios feitos prisioneiros pelos bósnios’. Talvez o meu pai tenha acreditado em tudo aquilo e se tenha entregado.

Temos estas duas versões e não sabemos em qual delas devemos acreditar. Por agora, sabemos apenas que o meu pai está morto e que não foi encontrado.

Gostaria de encontrar o meu pai, para sabermos onde se situa a sua campa, para poder ir rezar por ele”.