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Um mundo sem abelhas?

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Um mundo sem abelhas?

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As abelhas estão a desaparecer. Nos Estados Unidos, segunda potência mundial da apicultura, mais de 60% das populações de abelhas desapareceram em 24 estados. Nos países europeus, os números não são mais animadores.

Este fenómeno, chamado “Síndrome do Colapso das Colónias”, tem várias consequências no equilíbrio natural, uma vez que as abelhas são dos insectos mais activos na polinização das plantas.

Tem também consequências económicas, como realça o produtor francês, Renè Bayon: “Em sítios como o Isère, Lyon e a Alsácia, há grandes perdas, muitas vezes, superiores a 50%. Aqui, as perdas atingem os 25% durante o ano e 15% no final do Inverno. E estas são perdas bastante normais”.

Para estudar o problema, existe, desde Março, um projecto de investigação da União Europeia chamado BEE DOC. Em conjunto, 11 universidades de 9 países estão a trabalhar, sob a coordenação do professor Robin Moritz, um dos maiores especialistas na matéria.

“A ideia por trás do BEE DOC é pesquisar três diferentes pilares de investigação. Um tem por objectivo os diagnósticos das doenças, desenvolvendo novas ferramentas fáceis para o diagnóstico das doenças das abelhas. Outro pretende desenvolver estratégias de prevenção de doenças e o terceiro está a tentar desenvolver novos tratamentos que dependam menos da terapia química que temos hoje”, explica Moritz.

É na Universidade Honhenheim de Estugarda que está a ser desenvolvida uma das linhas de investigação. Sob a responsabilidade de Peter Rosenkrantz, os investigadores estão a introduzir num grupo de abelhas alguns elementos tóxicos. Parasitas como a varroa e pesticidas. Pretendem determinar como funciona a interacção entre diferentes elementos.

“Em primeiro lugar, queremos saber qual é o verdadeiro efeito da combinação de certos pesticidas e parasitas. Em segundo lugar, queremos ver como é que a colónia pode reagir, lidar com as exposições”, explica Rosenkrantz.

A redução da biodiversidade, o uso excessivo de pesticidas e a poluição estão entre as causas prováveis do Síndrome do Colapso das Colónias. Os investigadores acreditam que uma sinergia entre vários factores está na origem de uma doença ambiental que explica o fenómeno.

“O colapso das colónias pode ter várias causas. O maior problema, neste momento, é a varroa, especialmente no Outono e no Inverno. Mas também a fome das abelhas, a má gestão, os pesticidas adicionais e a má nutrição podem, em conjunto, criar uma situação em que uma colónia de abelhas não possa sobreviver e colapse”, afirma Peter Rosenkrantz.

Na universidade alemã de Halle Wittenberg, o programa de investigação está orientado para a genética. Aqui, estuda-se a herança genética das abelhas, tentando entender que único gene está envolvido quando uma fonte específica de stress (doenças, parasitas, pesticidas, entre outras) para o insecto está activa.

Bernhard Kraus é o coordenador desta parte da investigação: “O genoma das abelhas foi sequenciado há alguns anos. Portanto, sabemos todo o genoma, sabemos a forma como o livro está escrito, mas ainda não o lemos completamente e não sabemos, necessariamente, que genes estão envolvidos num determinado traço. Portanto, isto é algo que vai ocupar os biólogos nos próximos anos”

Uma abordagem multidisciplinar é a única que pode ajudar a resolver o problema. E de acordo com o espírito dos projectos científicos europeus, esta é também uma abordagem multinacional.

“Contamos com os conhecimentos e a perícia de muitas pessoas da Europa, que trabalham em diferentes áreas da biologia das abelhas. Temos pessoas que são especialistas em pesticidas, pessoas que vêm da bioquímica, outras que trabalham numa espécie de área aplicada da apicultura, e pessoas como nós que trabalham na genética das abelhas”, sublinha Kraus.

Outro ramo da investigação está sedeado na cidade francesa de Avignon. A equipa de Yves Le Conte estuda um tipo especial de abelhas locais, que é resistente às doenças.

“Nós temos em Avignon e no oeste da França populações que resistem não somente aos parasitas, mas a todas as doenças, não sendo tratadas contra nenhuma dessas doenças, contra nenhum desses parasitas. Queremos saber por que é que elas sobrevivem e outras morrem. Para nós, é um modelo muito interessante, para conseguir analisar o mecanismo até ao gene”, diz Le Conte.

O projecto de três anos pretende ajudar os apicultores a sobreviverem ao Síndrome do Colapso das Colónias. Talvez a solução ainda esteja longe, mas os investigadores continuam a trabalhar.

“Não eliminamos o problema, mas damos ao apicultor uma ferramenta para evitar o problema. Acho que este é um objectivo real que temos para estes três anos. A longo prazo, vamos eliminar mesmo o problema, o que vai requerer trabalho reprodutivo às abelhas resistentes. Acho que este é o tipo de esquema que temos em mente quando trabalhamos no projecto BEE DOC”, refere Moritz.

“Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, ao Homem restam apenas quatro anos de vida” é uma frase atribuída a Albert Einstein, que explicou que sem abelhas, “não há polinização, não há plantas, não há animais, não há homem.”

É que as abelhas são responsáveis pela polinização de milhares de espécies de flores, assegurando o sucesso de inúmeras colheitas agrícolas essenciais para a alimentação humana.

http://www.bee-doc.eu