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Robert Redford: "Os negócios nunca foram confortáveis para mim"

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Robert Redford: "Os negócios nunca foram confortáveis para mim"

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Robert Redford esteve no Mipcom, a feira de conteúdos de entretenimento que se realiza, todos os anos, em Cannes.

O actor e realizador norte-americano promoveu as ambições internacionais do canal Sundance, que fundou e lançou fora dos Estados Unidos no ano passado.

Depois de França, Bélgica, Singapura e Polónia, o canal expande-se agora à Holanda e Coreia do Sul. O anúncio foi feito no último dia do MIPCOM.

Com a presença em Cannes, Redford voltou a uma cidade que conheceu aos 18 anos, quando viveu um ano em França. Na altura, o jovem que lutava para ser pintor, dormiu debaixo do cais em frente ao Hotel Carlton.

Hoje, aos 74 anos, deu uma entrevista à Euronews, no interior da luxuosa unidade hoteleira.

Euronews: O que é que o fez escolher a França para lançar o Sundance internacionalmente?

Robert Redford: Foi em parte uma escolha pessoal. De facto, eu comecei a minha carreira como artista aqui. Quando era miúdo, comecei a desenhar, mas fizeram-me sentir que não era importante, portanto eu nunca levei isso muito a sério. Mas foi sempre uma coisa que me fez sentir confortável. A minha infância foi difícil. Criei problemas e tive problemas… Fui expulso da escola e não me importei com isso, porque o que eu queria mesmo era ir para outro lado. Queria ir para um local que eu sentisse que tinha alguma história e que tivesse um sentido de comunidade com alguns artistas… e esse local era França, Paris.

E: Criou o Festival Sundance, nos anos 80, como uma forma de devolver algo à indústria que foi tão boa para si. Quais foram as razões para criar o canal de televisão?

RR: O canal de televisão? O canal televisivo foi resultado de duas outras etapas iniciadas com aquilo a que eu chamo os laboratórios Sundance. Em 1980, eu tinha a sorte suficiente de ter tido algum sucesso no cinema e estava numa encruzilhada na minha vida, em que podia apenas continuar a fazer filmes como os que tinha feito ou fazer uma pausa e pensar talvez em devolver algo que fosse de valor à indústria, que tinha sido tão boa comigo. Porque eu acho que a minha natureza foi sempre ser mais independente, eu ia tentar e ia criar algo que levasse isso avante e que talvez trouxesse algum valor à indústria. O conceito é criar novas oportunidades para novos artistas, ter um sítio para desenvolver e crescer, e o resultado disso vai criar novas audiências para esses artistas. E se fizermos isso, estamos a ajudar a criar uma nova categoria, que pode apenas ajudar o negócio. Ou seja, olhemos para isso de uma forma geral.

E: Como é que acha que as suas experiências podem inspirar os jovens realizadores de hoje?

RR: Acho que através da independência. Eu tenho sido bastante independente toda a minha vida e isso é mesmo assim… Eu quis sempre continuar independente, mas não tão independente que ficasse de fora do mundo. Porque, finalmente, estamos numa indústria em que tudo o que fazemos tem de entreter. Mas podemos entreter de uma maneira diferente? Podemos entreter de uma maneira suficientemente diferente do que as pessoas viram antes, trazendo uma nova abordagem ou uma nova inspiração? Portanto, acho que a melhor coisa que eu podia oferecer era um exemplo do meu próprio trabalho e da minha própria vida, criando Sundance.
Para além disso, não sei que mais posso oferecer além de dar o exemplo. A independência não é para toda a gente. É um papel muito difícil de interpretar num mundo que é controlado pelas corporações. As corporações têm uma fórmula muito forte para ganhar dinheiro, em retorno do seu investimento e isso tudo. Portanto, às vezes, a experimentação ou a independência é vista de uma forma negativa. É vista como muito arriscada. Portanto, vai haver luta.

E: Ainda está envolvido no aconselhamento a jovens realizadores?

RR: Sim. A razão de tudo o que começámos neste programa laboratorial tem a ver com desenvolvimento. Portanto, o desenvolvimento ainda está em vigor e cada vez mais realizadores passaram pelos nossos laboratórios. Quentin Tarantino, Darren Aronofsky, Wes Anderson, PT Anderson; alguns dos actores que estão aqui hoje: Elizabeth Moss, Jon Hamm. São pessoas que passaram pelo nosso laboratório quer como actores, novos realizadores ou novos escritores. Como tal, dá-me imenso prazer ver que estas pessoas continuaram e beneficiaram do nosso processo para entrar no circuito. Mas eles são também muito independentes.

E: Agora, vê-se como um artista ou um homem de negócios?

RR: Não, não. Não me vejo como um homem de negócios. É como com a palavra marca. Quando alguém diz “Tu tens uma grande marca”, sinto-me nervoso, sinto-me desconfortável, porque, para mim, a palavra “marca” é o que se carimba no gado. E eu não me identifico com essa palavra. Eu entendo-a, mas soa-me estranha. Os negócios nunca foram o lugar mais confortável para mim, porque eu penso mais como artista. Portanto, vou continuar a ser o artista e a confiar que as pessoas que trabalham comigo são bons homens de negócio.