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Jeffrey Sachs: "0,1% do PNB dos países ricos chega para proporcionar cuidados de saúde básicos aos mais pobres"

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Jeffrey Sachs: "0,1% do PNB dos países ricos chega para proporcionar cuidados de saúde básicos aos mais pobres"

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Os estudantes de Nova Iorque estão mobilizados contra a pobreza.

A propósito da cimeira da ONU sobre os objectivos do milénio para o desenvolvimento, foram muitos os que quiseram assistir à conferência do economista Jeffrey Sachs.

Autor de livros como “O fim da pobreza”, este homem foi considerado pela revista “Time” como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo. É também conselheiro do secretário-geral das Nações Unidas sobre os objectivos do milénio para o desenvolvimento.

Nesta entrevista à euronews, criticou as políticas dos países industrializados, culpados, segundo ele, de falta de acção em relação aos países mais pobres.

Valérie Gauriat, euronews:
Em primeiro lugar, gostaria de perguntar se os objectivos do milénio são realizáveis até 2015. Está à espera de alguma coisa, além de promessas?

Jeffrey Sachs:
Os objectivos são realizáveis, pelo menos de um ponto de vista técnico. Mas é preciso acelerar e mudar a trajectória. Até agora, os países ricos falaram muito mas fizeram pouco.

euronews:
Concretamente, quanto dinheiro é preciso para cumprir os objectivos e qual a percentagem do PNB dos países do G8 que esse dinheiro representa?

Jeffrey Sachs:
Para atingir os três principais objectivos em termos de saúde (salvar as mães, salvar as crianças e lutar contra as epidemias) os países ricos devem doar 40 mil milhões de dólares. Ora esses países têm receitas anuais de 40 biliões.

O que significa que apenas 0,1% dessas receitas, se correctamente aplicadas, em construir clínicas, contratar trabalhadores, usar medicamentos anti-retrovirais, mosquiteiros e por aí adiante, chegariam para proporcionar um conjunto completo de cuidados de saúde básicos.

euronews:
Qual a proporção destes gastos em relação ao dinheiro gasto com a defesa ou em medidas anti-terroristas, nos Estados Unidos e na Europa?

Jeffrey Sachs:
Nos Estados Unidos, gasta-se com a defesa 5% do Produto Nacional Bruto, e apenas 0,2% em projectos de desenvolvimento pacífico, Ou seja, os gastos militares são 25 vezes mais. E depois dizem-me em Washington. “Não há dinheiro para isto, não sei onde vamos encontrar dinheiro, o orçamento é muito apertado…”. Porque não debruçarem-se sobre o Pentágono, sobre os 100 mil milhões de dólares gastos no Afeganistão, tendo como único resultado tornar o país ainda mais perigoso!

A Europa percebe que a solução militar não faz sentido. A Europa vive a paredes-meias com África, que é o epicentro de todos estes desafios.

Quando a Europa não investe, o resultado é a imigração em massa, todos esses problemas. qualquer pessoa percebe isso. A Europa percebe isso melhor, mas não segue completamente essa via. Infelizmente, a Alemanha, a França e a Itália não devem cumprir o que prometeram fazer até 2010.

euronews:
Quanto é que a recente crise financeira mundial custou ao desenvolvimento? É mesmo uma razão, ou não passa de uma desculpa para não se avançar?

Jeffrey Sachs:
Mesmo antes da crise, não estávamos no caminho certo para atingir os nossos três objectivos.

Eu ia, imagine, ao ministério das Finanças alemão, falar com os mais altos funcionários e diziam-me: “Sr. Sachs, acredita mesmo que íamos fazer isso?” E eu dizia “Mas a chanceler disse que sim”. E respondiam-me: “Oh, não acredite!”. Eles tinham razão, fiquei chocado!

Quando a crise financeira apareceu, eu dizia que havia ainda maneiras de financiar. Será mesmo preciso salvar os bancos e depois ver os banqueiros levar para casa milhares de milhões de dólares em bónus? O que quero dizer com isto é que, quando queremos mesmo, não há penúria de dinheiro.

euronews:
Pensa que as economias desenvolvidas tratam bem das próprias crises, em termos de regulação dos mercados e cortes orçamentais? Estão a tomar as opções certas para recuperarem?

Jeffrey Sachs:
É nesta altura que temos de investir. Não podemos voltar ao “boom” do consumo. Não podemos e não queremos. Temos que usar estes recursos para fazer investimento. Mas que tipo de investimento? Há que investir na nossa própria sustentabilidade a longo prazo, no ambiente, por exemplo. Mudando para uma economia de baixas emissões de carbono, para o transporte limpo e afastando-nos da utilização dos combustíveis fósseis.

São investimentos que temos de fazer. Ou então, utilizamos os recursos que estão sub-aproveitados para emprestar dinheiro em termos mais favoráveis, a longo prazo, para financiar o sector energético, as estradas, a água e o saneamento básico em África.

Por outras palavras, as nossas fábricas podem ajudar a construir infraestruturas em África, se as ajudarmos com financiamento a longo prazo. Assim ajudamos a recuperação nos nossos países e o desenvolvimento em África.

Valérie Gauriat, euronews: Então que têm os países ricos a ganhar com os objectivos do milénio e, por outro lado, que têm eles a perder?

Jeffrey Sachs: O maior ganho é no nosso coração. Porque virar as costas aos mais pobres e deixá-los morrer é devastador para as nossas almas. Além de que é perigoso, porque não se esquece. Deixar pessoas à mercê de doenças pandémicas é perigoso.

Deixar pessoas à mercê do colapso das sociedades onde vivem, como na Somália, no Iémen ou no Afeganistão, é absurdo! Acabamos por envolver-nos numa guerra que não consegue resolver nada! O que, além disso, é 100 vezes mais caro do que ir, em primeiro lugar, ao encontro das necessidades básicas.

E, afinal, estamos a falar de mercados, de negócios! De um futuro de prosperidade. As pessoas têm dificuldade em imaginar isso agora. Mas vai acontecer um dia – a China e a África vão ser os mais importantes parceiros comerciais.

A China está em todo o lado em África, está a investir, a dar garantias, a fazer tudo aquilo que a Europa e os Estados Unidos deveriam estar a fazer!

Valérie Gauriat, euronews: Antevê uma época em que os países ricos vão deixar de o ser, com as economias estranguladas pelos países emergentes como a China?

Jeffrey Sachs: Sabe, não é a China que nos vai estrangular, mas sim a nossa vista curta. Agora somos ricos, mas não sabemos usar a nossa riqueza. Vivemos numa febre consumista, ano sim ano não. Continuamos a ter défices orçamentais enormes porque os governos continuam a prometer cortes fiscais! Mas como é possível dar dinheiro ao Estado de outra maneira? Atingimos um bom nível de afluência de dinheiro e estamos a desperdiçá-lo.