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Gatlif reage à expulsão de pessoas de etnia cigana em França


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Gatlif reage à expulsão de pessoas de etnia cigana em França

Tony Gatlif é um homem com uma causa. Durante 35 anos, Gatlif que é meio argelino, meio cigano produziu e dirigiu filmes sobre os roma na Europa, um povo que considera ser, muitas vezes, incompreendido e discriminado.

No último filme, “Liberté”, lançado este ano, diz que 30 mil franceses de etnia cigana foram detidos e deportados durante a Segunda Guerra Mundial.

Gatlif não gostou da atitude de Sarkozy nem de assistir ao desmantelamento de acampamentos ilegais dos roma, em França. Mas considera que a actual situação não pode, de forma alguma, ser comparada com as deportações durante a guerra.

No entanto, lembra que não é agradável ver um povo ser catalogado

A Euronews encontrou-se com o realizador de cinema, em Lyon.

Euronews: o Senhor está contra o desmantelamento dos acampamentos de pessoas de etnia cigana, mas as sondagens revelam que 60% dos franceses é a favor. Isso surpreende-o?

Tony Gatlif: “Eu não posso fazer nada. A única coisa que posso fazer é explicar, a quem não conhece, o problema dos chamados viajantes, embora este seja um termo administrativo. Embora os roma estejam em França há muito, muito tempo diz-se muitas vezes que mesmo antes do rei Francisco I. São os ciganos, que estão no sul da França e da Espanha. E, portanto, são pessoas que estão lá desde a Idade Média, estão na Europa e para ela têm contribuído. Não só para a cultura como para tudo o que se tem feito na Europa. E hoje querem que eles se tornem invisíveis. Não queremos que eles existam. Mas como é que um povo com dez milhões de pessoas pode deixar de existir? Porque os chefes de estado da Europa decidiram fazer leis contra eles, para que não se mexam mais. Isso significa, que queremos um povo que não se mova, que fique confinado à sua casa. Foi isso que fizemos durante a guerra.

Euronews: Mas agora, com a Roménia e a Bulgária na União Europeia, não podemos fazer isso. Eles têm o direito procurar outros países na Europa. Mas a lei diz que depois de três meses, desde que não tenham trabalho, e se forem considerados um peso para a sociedade, podem ser expulsos.

Gatlif: “Esta lei foi feita para eles, mas não para todos. Ao lado da minha casa em Paris, onde vivo neste momento, há um alemão sem domicílio fixo. Ele está lá há três anos. Alguém lhe disse para ir para a Alemanha? Ele tem documentos, eu já falei com ele. Por isso, digo que as leis são feitas para alguns. Estas leis foram feitas para cidadãos de segunda classe, outras são feitas para os “verdadeiros” cidadãos. Por isso, eu acho que esta lei foi feita exclusivamente para os ciganos, para dizer atenção: se abrirmos a Europa, vamos ter de acolher todos os que quiseram partir dos países de origem. E eles sabem muito bem que os ciganos partem sempre. Por isso, vamos fazer essa lei para os paralisar e para os repatriar se ficarem mais de três meses.

Euronews: Exactamente, foi o que aconteceu na cimeira da União Europeia em Setembro, com o Presidente Sarkozy e a Comissária Viviane Reding, e que mostra que a Comissão Europeia começa a olhar para este problema dos roma na Europa.

Gatlif: “Eles estão chocados, eu acho que todos os países estão em estado de choque porque a Espanha não fez isso e os outros países não fazem isso. A Grécia também não. A Grécia gosta dos seus ciganos. A França de repente acordou e, num abrir e fechar de olhos, fez leis para mandar embora pessoas, os ciganos que estão lá, não sei há quanto tempo, há três ou quatro anos, ou ainda mais, e que foram forçados a deixar os abrigos, as casas de madeira ou de cartão situadas em florestas, debaixo de pontes, e nas estradas, o que não é de todo um luxo. E assim, foram desalojados em massa. É uma espécie de trauma.
Crianças acordadas de madrugada, seminuas, nos braços das mães. O pânico foi geral. Não tiveram tempo de fazer as malas e isso assusta. Não é a lotaria de 1940, atenção, mas é de certa forma uma lotaria numa escala mais pequena.

Euronews: Por um lado temos uma imagem dos roma associada a grandes caravanas e a belos carros e, por um lado, a vítimas com mulheres a mendigar com os bebés nas ruas.

Gatlif: “Na estação de Lyon, quando cheguei na segunda-feira, houve uma mulher que me abordou. Tinha os olhos azuis e não tinha qualquer ar de estrangeira. Era francesa e pediu-me dinheiro para os filhos. Nessa altura, colocou a sua miséria diante de mim, porque a miserável era pobre, e eu não mexi os olhos. Os ciganos mendigam e, isso, irrita todas as pessoas. Mas porque incomoda tanta gente? Porque os confronta com a sua imagem, talvez com a sua insegurança. Talvez sejam perseguidos? Mas eu também sou assediado pelas pessoas sem domicílio fixo. Mas isso é normal. Só faltava isso, que eles morressem, caíssem por terra, sem pedir nada. É tão simples como isso. É o novo mundo. O mundo moderno.

Euronews: A cobertura da imprensa dada às expulsões este Verão, deixa-o, não vou dizer optimista, mas considera que a pressão sobre os chefes de Estado europeus é maior para tentar resolver este problema que é, também, europeu?

Gatlif: “Eu não tenho medo de chefes de Estado europeus. Não tenho medo dos que governam a Europa. Eu tenho medo sim da população europeia. A partir do momento em que um Governo como a França, um país que fez sonhar toda a Europa Oriental durante o comunismo, porque era um exemplo em termos de direitos humanos. A partir do momento que este país que respeita os direitos do homem aponta o dedo a uma população frágil, eu tenho medo do que possa acontecer. Tenho medo que as pessoas desses países possam dizer. As populações consideram que podem ter determinadas atitudes porque o Governo francês e o líder do executivo gaulês disseram que essas pessoas não eram pessoas de bem. Bom, ele não disse que estas pessoas não era gente de bem, mas disse que têm problemas. E as pessoas que vivem ao lado deles, na Roménia, na Bulgária, na Hungria e por todo o lado, dizem a mesma coisa, que nós temos problemas com eles.”

Euronews: Este mês vai decorrer uma cimeira, em Bucareste sobre a integração das pessoas de etnia cigana na Europa. O que espera deste encontro?

Gatlif: “Que deixemos este povo em paz. Estas pessoas não pediram nada, nem fizeram a guerra. Nunca pegaram em armas. Nunca colocaram bombas. Essas pessoas querem, apenas, viver. Deixemo-los viver e que se encontrem formas para que possam subsistir como toda a gente, como todos as pessoas da Europa. E que paremos de lhes colocar etiquetas nas costas e de criar leis que atentam contra a sua vida.”

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