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Álvaro de Vasconcelos: "A União Europeia não foi capaz de definir uma perspectiva sobre a NATO"

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Álvaro de Vasconcelos: "A União Europeia não foi capaz de definir uma perspectiva sobre a NATO"

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A crise económica arrisca-se a ser uma das maiores ameaças a pairar sobre a nova estratégia da NATO, que vai ser adoptada este fim-de-semana em Lisboa, e um desafio adicional ao reforço da política de Defesa Comum da União Europeia (UE).

O professor Álvaro de Vasconcelos é o director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia.

Miguel Sardo: A União Europeia parece ainda distante de uma verdadeira política de Defesa Comum. Os Vinte Sete serão capazes de defender, em Lisboa, uma posição única face à nova estratégia da NATO?

Álvaro de Vasconcelos, director do Instituto de Estudos de Segurança da UE: Infelizmente, não penso que haverá uma posição europeia sobre a NATO. Haverá muitas vozes europeias em Lisboa, não uma posição comum. A União Europeia não foi, até agora, capaz de definir uma perspectiva sobre a NATO, não faz parte, aliás, das questões interiores da União Europeia a definição de uma tal perspectiva. O que é absolutamente paradoxal se pensarmos que há 22 Estados da União Europeia que são membros da NATO, se pensarmos que a NATO é absolutamente essencial para a segurança europeia, que a NATO trata de questões tão importantes como as relações com a Rússia e toda a problemática com a Europa de Leste, das relações com o Irão, da questão da defesa antimíssil, tudo questões essenciais da segurança europeia que mereceriam uma posição comum europeia.

euronews: Actualmente assistimos a uma redução dos orçamentos da defesa na maioria dos países europeus. Esta situação não poderá criar uma maior dependência dos recursos militares norte-americanos?

A. de Vasconcelos: O problema dos europeus no domínio da defesa não é que os europeus gastam pouco na defesa, é evidente que agora vão gastar menos com a crise financeira e vai haver cortes muito significativos – cerca de 15 a 20%, mas a questão chave não é o que os europeus gastam na defesa mas é como gastam, a incapacidade que tiveram até hoje de gastar em comum, de racionalizar as suas despesas militares, de lançar projectos significativos em comum que possam diminuir as dificuldades que a Europa tem em alguns domínios, por exemplo, no domínio dos transportes estratégicos, no domínio dos helicópteros, etc.

Penso que a crise económica e financeira, os cortes na defesa, vão, muito possivelmente, obrigar os europeus a fazerem mais em comum. Aliás já vimos a aproximação entre a França e a Grã-Bretanha em vários domínios da indústria da defesa, da cooperação, inclusive, no domínio nuclear, que obrigam a uma maior cooperação intereuropeia. Penso que isto, mais do que uma dificuldade, pode ser uma verdadeira oportunidade se os europeus compreenderem que, com cortes significativos, têm de fazer mais em comum do que fizeram até agora.

euronews: Qual deverá ser a posição da União Europeia na nova estratégia para o Afeganistão, quer em termos de permanência das tropas no terreno ou de retirada, quer sobre a possibilidade de negociar com os talibãs?

A. de Vasconcelos: Eu penso que uma dos problemas desta cimeira da NATO é ser uma cimeira demasiado concentrada na problemática do Afeganistão, ou seja, que em vez de estarmos a discutir o futuro da NATO nos próximos dez a 20 anos estamos virados para o como resolver o problema do Afeganistão, como criar as condições que vão permitir, às tropas americanas e às tropas da Aliança, começar a retirar, em princípio, a partir de Junho do próximo ano. Penso que hoje há uma pressão muito forte por parte dos cidadãos europeus para que as tropas dos seus Estados se retirem do Afeganistão. Não há, verdadeiramente, apoio para um esforço de guerra. Mas haveria uma grande apoio para um esforço que fosse, como disse, de gestão de conflitos, de construção da paz e de construção de um Estado afegão baseado no direito e, suficientemente, sólido para poder resolver, evidentemente, em colaboração com os seus vizinhos, os problemas de enfrenta hoje.

euronews: Professor Álvaro de Vasconcelos é director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, que, esta quarta-feira, apresentou um relatório intitulado “O que é que os europeus esperam da NATO?”. Vamos ver este fim-de-semana se todos partilham os mesmos objectivos.