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EXCLUSIVO - Porta-voz de Ouattara: "A população está à mercê das milícias do poder cessante"

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EXCLUSIVO - Porta-voz de Ouattara: "A população está à mercê das milícias do poder cessante"

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É no luxuoso Hotel do Golf, em Abidjan, Na Costa do Marfim, que Alassane Ouattara e o seu governo vivem entrincheirados, há mais de um mês. O local, embora colocado sob protecção de 800 capacetes azuis da Onuci e de membros das forças novas apoiantes de Ouattara, está cercado pelas forças armadas de Laurent Gbagbo.

O ambiente que se vive é de tensão e receia-se que as ameaças de ataque dos apoiantes de Gbagbo se cumpram.

Para conseguir esta entrevista exclusiva, a euronews penetrou no hotel pelo único meio disponível: um helicóptero da ONU. Alassane Ouattara prefere ficar atrás da câmara e dar a palavra ao seu porta-voz, Patrick Achi, que é também o indigitado ministro das infra-estruturas económicas.

euronews:
Porque é que Alassane Ouattara não quer falar?

Patrick Achi:
Ouattara não tenciona falar porque, até agora, a comunidade internacional reconheceu que ele é o novo presidente eleito. Portanto, sobre isto, não há muito a dizer. Quanto ao resto, à saída para a crise, a conferência dos chefes de Estado da CEDEAO – a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental – tomou o caso em mãos e esperamos os resultados. Só depois disso é que Ouattara, efectivamente, falará.

euronews:
A televisão da Costa do Marfim e alguns próximos de Gbagbo apelam a população para que tome de assalto o Hotel do Golf, onde nos encontramos. Qual é o vosso estado de espírito?

Patrick Achi:
O hotel do Golfo tem uma boa segurança feita pelas forças das Nações Unidas na Costa do Marfim e pela força especial Licorne, da França, que opera sob comando das Nações Unidas. Por isso, estamos relativamente serenos. Não há uma verdadeira inquietação A nossa preocupação, e já a exprimimos, é, sobretudo, a protecção da população civil, a qual está verdadeiramente à mercê dos mercenários, das milícias recrutadas pelo poder cessante. Isso é o que mais nos preocupa.

euronews:
O que esperam da Europa e da CEDEAO. Continuam a desejar uma opção militar?

Patrick Achi:
Bem, em relação à Europa… Ela já fez muito, porque, unida, reconheceu Alassane Ouattara como o presidente eleito. Também sabemos que se comprometeu a sancionar as personalidades próximas do antigo presidente Laurent Gbagbo e as pessoas que cometeram violações dos direitos humanos. E está igualmente a trabalhar em termos de apoio financeiro. Portanto, a União Europeia já fez bastante. Pode, certamente, fazer ainda mais, mas depois teremos a ocasião de discutir o assunto em pormenor. Neste momento, estamos relativamente satisfeitos do que foi feito. No que diz respeito à CEDEAO, temos grandes expectativas, já que a Comunidade – como sabe – conduz, neste momento, negociações para levar o presidente cessante a abandonar o poder de forma pacífica.

euronews:
Na sua opinião, qual é o melhor caminho para sair da crise?

Patrick Achi:
Bem, o melhor caminho é aquele que estamos a seguir. Isto é: aquele que faz tudo para trazer o presidente cessante à razão. O presidente e aqueles que o rodeiam. Fazer com que compreendam que o mais importante é o país. É verdade que o poder e a ambição dos homens são coisas importantes, mas o país transcende todos os interesses. E pelo país, porque o amamos, porque amamos a população, é preciso encontrar uma forma de aceitar o resultado das urnas; de abandonar pacificamente o poder. Há sempre uma via para tal!

Agora, no que respeita à utilização da força, é algo que não é desejado por ninguém. É uma alternativa sempre em aberto… quando se fala da perda de vidas humanas e de uma crise na qual a população sofre, é evidente que é uma situação que não pode durar eternamente. E também não podemos deixar as pessoas que controlam o Estado – através do controlo de uma parte do exército e, sobretudo, do controlo dos media – veicular mensagens que incitam ao ódio e que poderiam levar-nos para uma situação de pré-genocídio e, eventualmente, de caos.

Todas as pessoas que vivem na Costa do Marfim, e os marfinenses em geral, aprenderam com esta longa crise. Uma crise qual todos sofreram e nem sempre perceberam por que razão. Na realidade, este país está numa fase de integração. Todas as pessoas originárias da sub-região da África Ocidental e todas as etnias se misturam. E é esta diversidade que, realmente, faz a riqueza do país. Se soubermos utilizar esta diversidade como uma fonte de intercâmbio de culturas, de inteligência e de riqueza seremos capazes de alcançar uma paz duradoura – fonte e fundamento de todo o desenvolvimento. Acreditamos que Alassane Ouattara, o novo presidente, é capaz de fazer isso. Estamos verdadeiramente confiantes. Aliás, é também por isso que esperamos que esta crise não perdure; para que não provoque divisões artificiais que sejam, depois, difíceis de reconciliar.