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Álvaro de Vasconcelos: "A UE errou ao apoiar o 'status quo' na Tunísia"

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Álvaro de Vasconcelos: "A UE errou ao apoiar o 'status quo' na Tunísia"

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A revolta popular na Tunísia abalou não só o regime do país mas também a diplomacia internacional, em especial da União Europeia que, durante mais de duas décadas, não hesitou em considerar o ex-presidente Ben Ali como um aliado estratégico, um parceiro comercial previligiado e mesmo um amigo pessoal.

Miguel Sardo, euronews:

O professor Álvaro de Vasconcelos está em Paris, é diretor do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia.

Professor, os acontecimentos na Tunísia não revelam, de certa forma, as falhas de uma política de vizinhança europeia demasiado tolerante com a falta de respeito pelos direitos humanos?

Álvaro de Vasconcelos, diretor do Instituto de Estudos de Segurança da UE:

Eu diria que sim e mais, que a União Europeia foi não só tolerante mas que apoiou claramente regimes autoritários, com medo de que a transformação democrática dos países pudesse levar ao poder partidos islamitas. Ou seja a UE preferiu o “status quo”, preferiu aquilo que chamava de “estabilidade” à possibilidade de mudança. Mas os acontecimentos na Tunísia mostram que esta política estava errada, como já muitos diziam antes. Os acontecimentos na Tunísia mostram que há uma alternativa aos regimes totalitários que não passa necessariamente pelo islamismo radical. Tratam-se de forças políticas democráticas da sociedade civil que, no caso da Tunísia, são também os sindicatos, são os partidos políticos da oposição, alguns laicos, outros mais próximos dos movimentos islamitas, mas movimentos islamitas moderados e democráticos.

euronews:

Vários países europeus decidiram congelar os bens e contas do ex-presidente tunisino. A França bloqueou mesmo um carregamento de equipamento anti-distúrbios destinado à polícia tunisina. Este tipo de sanções contra o regime não poderiam ter sido tomadas antes da queda do presidente?

Álvaro de Vasconcelos:

Certamente que algumas medidas poderiam e deveriam ter sido tomadas antes. A União Europeia sempre considerou que a “condicionalidade política” era uma componente importante da sua cooperação com países terceiros. A política mediterrânea da UE, seja a política de vizinhança, seja a política euro-mediterrânea, seja todas as políticas de cooperação com os seus vizinhos do sul tem uma dimensão de condicionalidade política ligada ao respeito pelos direitos humanos, à democracia, e devia ser aplicada de forma mais coerente e mais consistente.

euronews:

De que forma é que o que aconteceu na Tunísia poderá ou deverá modificar as relações da União Europeia com os países do norte de África ou do Médio Oriente?

Álvaro de Vasconcelos:

É preciso abandonar a ideia de apoio a um modelo que assenta na ideia que o desenvolvimento económico vai trazer a estabilidade, não necessariamente a democracia, mas a estabilidade. E passar a por, ao mesmo tempo, a necessidade de reformas económicas e o apoio às reformas políticas, condicionando o apoio da UE a estes países a progressos significativos no domínio das reformas políticas e dos direitos humanos. É preciso que a União Europeia declare rapidamente o seu apoio à transformação democrática na Tunísia, nomeadamente também do ponto de vista económico e financeiro.