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Egito: "Queremos estabelecer uma ligação entre democracia e participação feminina"

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Egito: "Queremos estabelecer uma ligação entre democracia e participação feminina"

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As mulheres egípcias não hesitaram em sair em protesto na Praça Tahrir, no Cairo, contra o regime e a exigir a saída de Mubarak, em Janeiro.

Com o final das manifestantes as mulheres desapareceram da cena política. A Comissão que redige a nova constituição é formada apenas por homens e alguns querem que elas continuem arredadas da política.

O artigo 75, agora em discussão pública, limita o exercício da presidência do Egito apenas aos homens. O Centro Egípcio para os direitos das Mulheres emitiu um comunicado, com mais de sessenta outras organizações egípcias, a protestar contra a desigualdade entre homens e mulheres.

Para discutir esta questão junta-se a nós, a partir da cidade do Cairo, advogada e líder do Centro Egípcio para os Direitos das Mulheres Nehad Abu-Alkomsan.

Euronews:
Pode dizer-nos qual é a discórdia que esteve na origem deste comunicado? Contestam exatamente o quê?

Nehad Abu AlKomsan:
Emitimos este comunicado contestando uma série de artigos que foram formulados e apresentados para debate público.

Um dos artigos mais importantes é o número 75, cujo enunciado levou a muitas interpretações.

Este artigo diz que um candidato presidencial não pode ser casado com uma mulher estrangeira.

A formulação desta frase indica que se pretende que os candidatos presidenciais sejam homens – embora em árabe, linguisticamente falando, usemos o masculino para falar sobre ambos os géneros.

Euronews:
Este é um problema apenas linguístico ou acredita que existe alguém por detrás desta exclusão?

Alkomsan:
Depois da saída do presidente Mubarak descobrimos que houve uma tentativa deliberada de ignorar as mulheres neste processo de transição democrática.

Depois de as mulheres egípcias terem estado nas ruas, no centro da revolução, hoje assistimos à

formação de comités desprovidos de mulheres. Exemplo disso é a comissão criada para a redação da Constituição, dominada por uma figura carismática e influente na política, muito ligada ao Islão.

Esta pessoa, que preside à Comissão, é membro da Irmandade Muçulmana e reconhecido como um intelectual muçulmano. É por isso que temos medo que a Irmandade Muçulmana influencie a comissão. Eles não vão permitir que mulheres ou cristãos coptas façam parte da comissão.

Estamos numa posição muito estranha: quando as mulheres têm o poder de tomar as suas próprias decisões, elas têm um papel importante na sociedade, mas quando se trata da decisão política, descobrimos que se agiu de forma a ignorar deliberadamente as mulheres e a mantê-las de fora.

Euronews:
O Referendo sobre a revisão constitucional está agendado para 19 de Março. Qual será o vosso próximo passo?

Alkomsan:
Estamos a organizar uma marcha de protesto na Praça Tahrir.

Quando pedimos para se ter em consideração a questão do direito de participação das mulheres, as reações foram negativas. Eles dizem que este não é o momento de falar sobre os direitos das mulheres.

O que pretendemos é estabelecer uma ligação entre democracia e participação feminina, caso contrário, estaremos a reproduzir o sistema político que mergulhou o Egito na opressão e na escravidão, durante tanto tempo.

Euronews:
Que leitura faz da reação dos egípcios nas ruas, em relação a estas emendas? Acha que o povo poderia aceitar uma mulher na presidência do Egito? A comunidade apoia as vossas exigências?

Alkomsan:
A reação nas ruas do Egito às emendas tem sido grande, porque toda a gente se sente incomodada com estas alterações.

Sobre as mulheres, em princípio, existem grandes grupos de opinião que acreditam no direito de cidadania da mulher e que elas não devem ser discriminadas.

Independentemente da aplicação deste direito, ou da disposição da comunidade egípcia para escolher uma mulher como presidente, ou mesmo da disponibilidade das mulheres para concorrer à Presidência – o importante é respeitar o princípio da igualdade entre os cidadãos, porque esta revolução baseia-se nos mais importantes princípios de justiça, dignidade humana e igualdade.

> Egito: Mulheres em luta pela paridade de géneros