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Face à Líbia, França e Reino Unido "têm cadáveres no armário"

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Face à Líbia, França e Reino Unido "têm cadáveres no armário"

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Claude Moniquet, o senhor é perito em questões de estratégia e segurança, fundador de um instituto em Bruxelas especializado em investigação geoestratégica.

Uma questão que se coloca desde o princípio da intervenção da coligação na Líbia é como isto se converteu numa guerra franco-britânica. Por que é que estes dois países lideram a operação?

Claude Moniquet – É um pouco delicado porque é uma mistura de boas intenções: ir em ajuda do povo libio, por estar a sofrer os bombardeamentos e os ataques do regime de Kaddafi. Por outro lado, isto é claramente, o resultado dos próprios cadáveres no armário que são um pouco embaraçosos ou que podem vir a sê-lo, diz-se em certos corredores.

Recordemos que a França recebeu Kaddafi com grande pompa e circunstância há dois ou três anos, e não foi o único país que o fez, sejamos claros.

No princípio do ano, houve a questão tunisina: as embaraçosas viagens à Tunísia da ministra dos negócios Estrangeiros da época, Michelle Alliot Marie.

Talvez a França pretenda fazer esquecer o episódio.

Claude Moniquet – Da parte dos britânicos houve a lamentável negociação, há dois anos, da libertação do terrorista Ali Mohamed al-Megrahi, o agente libio que foi condenado a pena de priisão perpétua pelo atentado de Lockerbie e que foi libertado por alegadamente ter um cancro que não deve ter sofrido nunca. Manifestamente, em todo o caso, foi solto por interesses petrolíferos britânicos.

euronews – O filho de Kaddafi declarou à euronews, na semana passada, que tinha provas de que o regime líbio financiava a campanha de Nicolas Sarkozy. São acusações muito embaraçosas, acha que isso acelerou ou intervencionismo francês?

Claude Moniquet – Não, isso acho que não. Não acho que Kadhafi tenha financiado a campanha eleitoral. Estamos frente alguém que há 20, 30 anos, é um mentiroso profissional. Acho que o filho, Saif Al Islam teve um bom mestro, por isso acho que isto é pura propaganda de guerra, feita para desacreditar a operação.

euronews – Acha que é apenas propaganda,a s provas que de que fala são fantasistas?

Claude Moniquet – Veremos se as provas surgem algum dia…

euronews – Então pensa que ha interesses específicos da França e do Reino Unido?

Claude Moniquet – O principal interesse é posicionar-se politicamente no mundo árabe num momento em que, desde há três meses, esse mundo está em ebulição.

Em concreto, esse é um interesse político nobre, que explica a necessidade de ir.

O segundo elemento no sentido da justificação franco-britânica é que, evidentemente, os norte-americanos não queriam, e com razão, colocar-se na primeira linha da frente. A intervenção norte-americana no Iraque, que não terminou, deixou um amargo de boca aos árabes, e uma operação que parecesse estar sob comando americano iria colocar muitos problemas.

euronews – Além das razões de política interna, há vontade dessas duas potências europeias de permanecerem na história, marcarem um ponto de credibilidade na cena internacional, nomeadamente face aos Estados Unidos?

Claude Moniquet – Há, claramente uma janela de oportunidade se a Europa quer existir, muito rara, para existir no plano internacional. E se há uma região em que Europa pode pretender existir, é evidentemente na África do Norte e África.

A África do Norte e a Líbia, para nós, é como se fosse o outro lado da rua, como Marrocos, como a Argélia, como aTunísia… são os nossos países vizinhos. São países com os quais temos uma história comum, e são países com quem temos relacionamentos seculares e acho que é uma boa política mostrar que nos interessamos por estas situações e que estamos com esses povos.