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Turquia: um modelo para o mundo árabe?

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Turquia: um modelo para o mundo árabe?

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A Turquia – país maioritariamente muçulmano, com uma república constitucional democrática e secular – tem vindo, nos últimos anos, a afirmar-se como potência política e económica na região. Agora, a Turquia é cada vez mais citada como exemplo político para um mundo árabe em revolução.

“A Turquia como modelo” foi o tema de uma cimeira, organizada em Istambul em meados de Março, dedicada à mudança – na mesma altura em que o mundo árabe vive um desejo de mudança.

Políticos, intelectuais, jornalistas e líderes religiosos de todo o mundo debateram as dinâmicas que estão a transformar o planeta, a nível político, económico e social. Uma verdadeira partilha de experiências…

À luz do que se passa no mundo árabe, os debates concentraram-se na experiência turca como modelo de democratização dos países em revolta.

O “modelo turco” é um misto de Islão e de democracia, representado, em parte, pelo AKP, partido no poder desde 2001.

De tendência islamita soube adaptar-se e, embora a oposição o acuse de ataques à laicidade, é comparado aos partidos democratas-cristãos da Europa.

“Com a sua experiência democrática, a Turquia provou ao mundo que Islão e democracia podem ser compatíveis”, afirmou, perante a plateia, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan.

Uma opinião partilhada por Wendy Chamberlin, presidente do “Middle East Institute”, de Washington DC: “Penso que a Turquia está a emergir como um importante líder da região. A Turquia foi capaz de demonstrar que crescimento económico rápido, democracia e fé islâmica não são incompatíveis e até se apoiam entre si. Penso que é uma posição de liderança muito importante para a Turquia”.

Mas poderá o modelo turco ser copiado por outros países muçulmanos? Ahmed Nejib Chebbi, uma das principais figuras da oposição tunisina a Ben Ali, e presidente do Partido Democrático Progressista, esboça uma resposta: “A Turquia tem a singularidade de ser um país democrático dirigido por um partido de referente islâmico. Por isso, a pergunta que se coloca no mundo árabe e no mundo em geral é: O islão político e a democracia são compatíveis? Aparentemente, a Turquia responde a isso positivamente. Mas não posso dizer que seja o modelo exato, procurado pelo mundo árabe. Procuramos um modelo que inclua todas as forças, mesmo as forças do Islão político”.

Com um exército com peso na vida política, a Turquia continua a ser uma democracia em processo.

Apesar das reformas políticas empreendidas, sobretudo com vista à adesão à União Europeia, os observadores, como Tariq Ramadan, professor na Universidade de Oxford, continuam críticos face à democracia turca: “O modelo turco também deve ser reformado. Trata-se de um processo é longo. A Turquia já fez muitos progressos mas esta democracia não é totalmente independente nem dos militares nem das questões europeias. Penso que há uma referência muçulmana na democracia turca que está a ter uma grande influência no mundo árabe de hoje”.

Mas antes que a Turquia se imponha no mundo, Stephen Kinzer, jornalista e escritor americano, especialista da questão turca, defende que o país tem questões e desafios internos aos quais deve fazer face: “Antes que um país possa assumir um papel progressivamente mais importante no mundo, precisa de ter uma base sólida a nível interno. A sociedade turca está a dar sinais de polarização e de intolerância – que durante anos a minaram – e que ainda existem. Enquanto a sociedade turca não alcançar um nível superior de união interna e enquanto os conflitos internos não se acalmarem, haverá um limite à influência que a Turquia pode ter no mundo”.

Enquanto a experiência turca parece ser uma fonte de inspiração para certos meios políticos dos países árabes, a Turquia continua, ela própria, a sua revolução democrática – não nas ruas, mas na esfera política.