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Gonçalo M. Tavares vence Prémio Literário dos Jovens Europeus

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Gonçalo M. Tavares vence Prémio Literário dos Jovens Europeus

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Gonçalo M. Tavares é o vencedor da edição 2011 do Prémio Literário dos Jovens Europeus.

O galardão, atribuído pelos alunos da Escola de Comércio Europeia, em França, recompensou a obra “O Senhor Kraus”.

É a segunda vez em menos de um ano que o escritor recebe um prémio em França. No ano passado, Gonçalo M. Tavares foi recompensado com o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro em França, com“Aprender a rezar na era da técnica”.

Em entrevista à euronews, Gonçalo M. Tavares explicou que o “Senhor Kraus” partiu de um conjunto de crónicas sobre a vida de um político português e que os alunos franceses “fizeram uma ligação com a situação da política em França”.

“O que me interessava nesse livro era a manipulação da linguagem e a obsessão pela quantificação”, resume o autor. Para Gonçalo M. Tavares, “o mundo da política é o mundo da linguagem. Há um fascínio pela linguagem. Os políticos esquecem-se da realidade”.

O autor português recebeu o prémio na quinta-feira, durante um encontro literário organizado em Lyon, pelo Instituto Cultural Villa Gillet.

No mesmo dia, Gonçalo M. Tavares participou numa mesa-redonda intitulada “Como tratar o animal que há em nós”, com a filósofa Élisabeth de Fontenay e o psicólogo Frans de Waal, especialista em chimpanzés.

O escritor conversou com a euronews sobre o “animal que há em nós” e sobre a personagem principal de “Aprender a rezar na era da técnica”, um médico eficaz, frio e calculista que decide dedicar-se à política.

Elza Gonçalves, euronews: Há um animal em nós?

Gonçalo M. Tavares: “Julgo que sim que há um animal em nós. Um animal bom e um animal mau. Há também um homem em nós. Um homem bom e um homem mau. Há partes más do animal que somos, que temos de domesticar, sim. Mas também há partes más do homem mau que somos, que temos de domesticar, controlar ou vigiar.

Elza Gonçalves, euronews: Lenz Buchmann, o personagem principal de “Aprender a rezar na era da técnica” é um mau da fita?

Gonçalo M. Tavares: Não vejo lenz como mau da fita. Lenz é um homem forte, o seu pensamento é o da eficácia. Ela pensa como uma máquina pensaria se tivesse cérebro. Não faz muito sentido dizermos que uma máquina é boa ou má. Uma máquina ou funciona ou está avariada. Tem um objetivo e uma estrutura material que tenta atingir esse objetivo. Lenz então é isso: não é mau nem bom, funciona e quer que os outros funcionem. Pensa como uma máquina, repito. Isso parece-me muito importante. Porque, de facto, só pondo um homem a pensar como uma máquina é que percebemos como as máquinas são violentas, desumanas, maldosas, destruidoras. A sua lógica, a da máquina, é uma outra que não a lógica humana. Não são amigos, ao contrário do que se possa pensar. A Máquina não é o melhor amigo do homem, como se dizia do cão. A máquina é um outro mundo. Não tem qualquer compaixão. Faz ou não faz – é construída para simplesmente fazer, e isso é terrível. Acho que ainda não percebemos por completo as máquinas, Elas têm o seu mundo, não são os nossos cães, bem longe disso. Têm a sua filosofia, a sua forma de pensar. E a sua forma de pensar é simplesmente atuar. Não avariar. Ser eficaz.

Elza Gonçalves, euronews: O animal que há em nós é violento?

Gonçalo M. Tavares: A lógica da máquina é mais violenta que a lógica dos animais. O animal pode matar se tiver medo ou fome mas a máquina mata mesmo não tendo fome nem ódio.

Elza Gonçalves, euronews: O atual mundo do trabalho valoriza a máquina?

Gonçalo M. Tavares: A moralidade da máquina está a alastrar pela sociedade pelas empresas. Valoriza-se as pessoas que são como máquinas. É perturbador porque a máquina não tem dores de barriga, não tem dias maus. Neste momento, o trabalhador exemplar é a máquina. Sonhámos com a máquina que nos vai libertar mas ao nível do trabalho a máquina não libertou os homens para serem criativos, mas faz com os homens não tenham trabalho.

Elza Gonçalves, euronews: Algumas das suas histórias são irónicas e divertidas. Outras, sombrias, criam menos ocasiões para rir. É uma separação clássica entre a comédia e a tragédia?

Gonçalo M. Tavares: Não sei, talvez não. Penso que não há essa separação tão evidente, embora a classificação clássica seja bastante interessante. São dois mundos com fronteiras pouco claras. Começas a rir e acabas a tremer de medo. E podes começar a tremer de medo e acabar a rir.

Elza Gonçalves, euronews: “Aprender a rezar na era da técnica” tem um carácter universal e ao mesmo tempo bastante europeu. Faz-me pensar nas tragédias da história europeia. Sente-se um escritor europeu?

Gonçalo M. Tavares: Sinto-me um escritor português, em primeiro lugar, porque utilizo e penso através da língua portuguesa – e a língua molda muito o que se faz. E sinto-me europeu e ser humano. Ou seja, muito do que me interessa escrever parte de questões emotivas que envolvem as relações humanas. Em “Aprender a rezar na era da técnica” está o poder, o medo, a decadência, o desejo. E isso não é português, nem sequer europeu: todos temos isso, inclusive os animais.