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Nuno Saraiva: "O memorando é o verdadeiro programa do Governo"

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Nuno Saraiva: "O memorando é o verdadeiro programa do Governo"

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Os portugueses escolheram um novo rumo político nas eleições deste domingo. Para uma breve análise dos efeitos que podem ter os resultados eleitorais falámos com Nuno Saraiva, subdiretor do Diário de Notícias.

Maria Barradas, Euronews:
Portugal disse um claro “Não” ao Governo socialista de José Sócrates. Que mensagem pensa que este resultado transmite aos parceiros europeus e sobretudo aos que têm mostrado reticências em ajudar economicamente o país?

Nuno Saraiva, Diário de Notícias:
“A mensagem que este resultado transmite é a de que a partir de agora existem condições políticas objetivas e de estabilidade para que Portugal possa cumprir os compromissos a que está obrigado. Houve também uma mensagem interna que os portugueses quiseram dar, que foi um enorme sentimento de rejeição relativamente ao primeiro-ministro cessante, José Sócrates. Como sabemos, o memorando de entendimento com a ‘troika’, composta pelo Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a Comissão Europeia, foi assinado por três partidos. O atual partido do Governo, o Partido Socialista, mas também os dois que agora ascenderão ao poder. E nesse sentido, com a saída de cena de José Sócrates, criam-se condições de diálogo entre o PSD e o CDS e também o Partido Socialista, que até aqui não existiam, para que os três partidos possam naturalmente suportar, politicamente, no plano interno, aquilo que são os compromissos externos a que Portugal está sujeito.”

Maria Barradas, Euronews:
Esta mudança política pode transmitir mais confiança externa, ou o facto de ser preciso uma coligação para governar pode fragilizar ainda mais a confiança nas capacidades do país para vencer os desafios económicos?

Nuno Saraiva, Diário de Notícias:
“Os primeiros sinais dizem exatamente o contrário daquilo que me está a perguntar. Os mercados, esta manhã, reagiram de forma bastante favorável aos resultados das eleições de ontem à noite, do qual saiu esta maioria clara de centro-direita. Os juros da dívida soberana portuguesa nas diversas maturidades baixaram e, portanto, essa primeira reação é bastante positiva. Por outro lado, quanto aos parceiros europeus, ficam agora com esse dado concreto de que, politicamente, existem todas as condições de estabilidade para que Portugal cumpra e honre os seus compromissos no prazo de quatro anos, no prazo desta legislatura.”

Maria Barradas, Euronews:
Os dois líderes dos partidos que vão formar a coligação do Governo fizeram promessas aos respetivos eleitores. Este executivo vai ter margem de manobra política ou está completamente condicionado pelo compromisso que o país já assumiu com os credores internacionais e não vai poder por em prática as promessas da campanha?

Nuno Saraiva, Diário de Notícias:
“Julgo que está completamente condicionado por aquilo que é o memorando assinado pela ‘troika’, FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu. Nesse sentido, aquilo que foi sendo dito ao longo da campanha eleitoral é isso mesmo, são discursos de campanha eleitoral. Uma vez chegado ao poder Pedro Passos Coelho, líder do PSD, e também o líder do CDS sabem que vão estar completamente vinculados ao memorando que assinaram juntamente com o Partido Socialista. O memorando é o verdadeiro programa do Governo.”

Maria Barradas, Euronews:
Pedro Passos Coelho prometeu um Governo reduzido, em sintonia com a austeridade imposta ao país. Em coligação não vai ser fácil. Que tipo de Governo se espera?

Nuno Saraiva, Diário de Notícias:
“Pedro Passos Coelho tem condições para compor um executivo, que tenha um número mais reduzido de ministros e eventualmente mais reduzido ao nível dos secretários de Estado. Porém será difícil, no quadro de uma negociação bipartidária para a constituição de um Governo, será difícil reduzir drasticamente o número de ministros.”