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Pisapia: a surpresa milanesa

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Pisapia: a surpresa milanesa

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Giuliano Pisapia, o novo presidente da autarquia de Milão, tornou-se famoso por ser o primeiro homem a derrotar o partido de Berlusconi na sua própria cidade ao fim de 18 anos.

Com uma campanha orçada em apenas 800 mil euros, Pisapia bateu a candidata de Berlusconi, que despendeu, pelo menos, quatro milhões de euros.

Como é que este advogado de 62 anos, um independente de esquerda, fez para conseguir aquilo que nem o Nobel da Paz Dario Fo conseguiu?

A resposta do próprio: “Apresentámos uma nova possibilidade de alternativa a Berlusconi mas, sobretudo, uma nova maneira de fazer política. E foi uma opção vencedora. Por exemplo, à mentira, ao insulto e à difamação respondemos com um sorriso, com gentileza e com ironia. E isto surpreendeu. ‘Com o riso vos bateremos’ foi uma fórmula vencedora.”

Outro exemplo: poucos dias antes da segunda volta eleitoral, Letizia Moratti, a presidente cessante da câmara de Milão, num frente-a-frente televisivo, que, acusou Pisapia de, no passado, ter roubado um carro que, posteriormente, terá atropelado uma mulher.

A verdade era bem diferente mas os apoiantes de Pisapia ripostaram através do Twitter com as chamadas “Morattiquotes”, onde acusavam o homem de esquerda de coisas como ‘inventar mosquitos’ ou ‘provocar tremores de terra’.

Mas nem só de ironia vive uma campanha, como explica Pisapia: “Claro que houve outros elementos determinantes: um candidato que não foi imposto de cima, mas escolhido pelo povo; um programa que não foi decidido no interior de um partido mas que foi elaborado por 1200 pessoas…”.

Esta foi a sua escolha, desde que venceu as primárias do partido. Criou vários comités e envolveu as bases na campanha. Bases que improvisaram eventos, como um concerto de uma orquestra de bairro que deu as boas-vindas a Pisapia quando o ainda candidato visitou o bairro.

As redes sociais, por um lado, e o encontro com as pessoas reais, por outro, foram uma mais-valia de campanha. “Foram importantes, as duas vertentes. É evidente que as redes virtuais, como o Facebook, são fundamentais. É fundamental para ir diariamente ao encontro dos jovens. Mas se eu não tivesse estado presente nos subúrbios – esses subúrbios onde já não havia entusiasmo nem vontade de participar e onde reinava a desilusão – certamente que não teria alcançado o consenso que alcancei. É preciso compreender que as mesmas coisas têm de ser ditas a diferentes pessoas com diferentes linguagens.”

“Desilusão” é talvez a palavra-chave. Os italianos estão desiludidos com os políticos e não confiam na política. Pisapia tem a vantagem de ser considerado um “homem do povo”.

Uma desilusão mais patente ainda nos jovens, como sublinha Piero Scaramucci, o fundador da Radio Popolare, uma emissora que se assume de esquerda: “Eu, desde 1968 que não via tantos jovens nas ruas. Os jovens estão completamente fartos da representação política tradicional. Têm coisas a dizer e um dia decidiram: vamos dizê-las, vamos fazê-las. E, de repente, foi possível.”

Foi possível eleger Pisapia e pôr fim a 18 anos de liderança do partido de Berlusconi em Milão, o que, para muitos, é razão mais do que suficiente para festejar!