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Turquia à beira da mudança?

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Turquia à beira da mudança?

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As eleições legislativas deste domingo podem decidir o destino da Turquia.

Caso o AKP – Partido da Justiça e Desenvolvimento, conquiste dois terços do Parlamento, Recep Tayyip Erdogan promete redigir uma nova Constituição. A principal alteração poderá ser a mudança para o sistema presidencialista.

Depois de três mandatos consecutivos, como primeiro-ministro, muitos acreditam que Erdogan se prepara para depois assumir a Presidência.

A beneficiar do crescimento da economia da Turquia, resultado do investimento público, o AKP tem feito campanha prometendo que em 2023, o país figurará entre as dez maiores economias do mundo. A tempo de celebrar o centenário da república turca.

O principal partido da oposição, o CHP de Kemal Kilicdaroglu, propõe um reforço da democracia e dos direitos individuais. O Partido Republicano do Povo afirma que “só assim se consegue por fim à tentativa oculta de hegemonização do AKP do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan.

Vamos analisar as eleições gerais na Turquia com Adil Gür, diretor da A&G, em Istambul.

Euronews: Coordenou as últimas sondagens sobre as eleições de domingo. Qual foi o resultado?

Adil Gür: Segundo as nossas sondagens o partido do governo, AK, consegue o mesmo número de votos eu obteve nas eleições gerais de 2007. Ultrapassa mesmo uns pontos…

O CHP, prevemos que tenha um aumento significativo em relação a 2007.

O Partido Nacionalista MHP, muito discutido ultimamente, na opinião pública por causa de escândalos sexuais, podemos avançar que não terá problemas em ultrapassar a barreira dos 10 por cento.

Quanto ao partido curdo, BDP, prevemos que consiga entre 30 a 32 assentos na nova Assembleia.

E: Acredita que o AKP consiga uma maioria que lhe permita redigir uma nova Constituição, sem depender de outros partidos?

AG: Há duas maneiras de se fazer uma nova Constituição na Turquia. Primeiro, é necessário ter 367 lugares no parlamento, o que permite realizá-la sem necessidade de referendo. Mas de acordo com as atuais tendências de voto, não acreditamos que qualquer partido consiga isso. a segunda maneira é ter 330, ou mais assentos no parlamento, para que se possa submeter as alterações constitucionais a um referendo. Mas mesmo que o AKP atinja a mesma percentagem de votos de 2007, parece que não vai conseguir obter 330 lugares.

E: Segundo as últimas sondagens, o AKP prepara-se para conquistar o terceiro mandato consecutivo, no poder. Esta será a primeira vez que isso acontece, nos últimos 50 anos. O que fez Erdogan para conseguir ganhar mais uma vez?

AG: Isso está a acontecer não é por causa das tendências ideológicas dos eleitores turcos nem por causa dos rumores que que estão a tornar-se mais conservadores.

As nossas sondagens mostram que 70 por cento dos eleitores, que votam no AKP, o fazem por causas das bem-sucedidas obras do governo. Acredito, também, que uma das razões desse desempenho é que AKP sabe interagir melhor com os eleitores do que os outros partidos.

E: Quais sãos os factos que os eleitores vão ter em conta, nas urnas, no domingo?

AG: Como em qualquer parte do mundo, para a maioria dos eleitores turcos, cerca de 60 por cento, a situação económica é a primeira prioridade. Antes dos votos, eles olham para o bolso!

Os restantes 30, 40 por cento votam de acordo com as suas ideologias étnicas ou religiosas. Mas no fundo razão continua a ser a economia…

E: A política externa do AKP tem influência nas preferências dos eleitores?

AG: Claro que sim, mas se se refere aos desenvolvimentos em relação às negociações da adesão da Turquia à União Europeia, posso dizer que isso não tem um impacto muito grande. Mas se olharmos para a posição do governo do AKP, em termos das relações com Israel, com os Palestinianos, esses sim tem um impacto muito grande, em especial nos eleitores conservadores e nacionalistas. Posso acrescentar que a medida do AKP, de anular o regime de vistos, com muitos países árabes nos últimos anos, tem também impacto. Mas deixe-me repetir, que a questão da UE não é tão motivador como já foi antes.

A principal razão disso é a frustração do público com o ritmo lento das negociações sobre a candidatura da Turquia para aderir à União. Os turcos sentem-se ignorados pela União Europeia.