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Bience Gawanas: "Os homens africanos têm de entender que somos iguais"

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Bience Gawanas: "Os homens africanos têm de entender que somos iguais"

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Bience Gawanas é comissária da União Africana para os Assuntos Sociais.

Considerada uma das mulheres mais poderosas de África esta advogada da Namíbia fala do papel das mulheres no futuro do continente.

A conversa com a Euronews teve lugar em Malabo, capital da Guiné Equatorial, onde a comissária participou na décima sétima Cimeira da União Africana.

Euronews: Na sua opinião, existe ainda uma unidade em África?

Bience Gawanas: “Lutei pela libertação da Namíbia e como sabemos, foi um dos países que a Organização de Unidade Africana, antecessora da UA, realmente suportou e lutou pela libertação da África e da Namíbia. Então venho para a União Africano como alguém que beneficiou desse apoio.

Era muito difícil viver como exilado e refugiado num campo de refugiados em qualquer parte do mundo. Hoje aqui estou, como Comissária para os Assuntos Sociais, proveniente de uma Namíbia independente. Para mim a unidade da África, a unidade da África para o desenvolvimento do nosso continente, para a paz e prosperidade, é tão importante agora como quando estávamos a lutar contra o domínio colonial. É por isso que a unidade é, sem dúvida, um dos maiores objetivos da União Africana mas estamos a lidar com 53 países, que têm ritmos de desenvolvimento diferentes. Temos tantas diferenças em relação à etnia, à língua, mas quero permanecer confiante.”

E: O futuro do continente passa pelas mulheres?

BG: “Em primeiro lugar, creio que fui muito privilegiada por estar entre as primeiras mulheres a trabalhar na Comissão da União Africana. A Comissão é a primeira organização internacional do mundo a ter cinco homens e cinco mulheres como membros da comissão. Quero, também, acreditar que se as mulheres nos veem nessas posições, assistem à mudança da cara da organização e esperamos que, também, à mudança da imagem do continente.

Felizmente, durante a minha vida, tive a oportunidade de ver uma mulher tornar-se presidente em África. Foi como um sonho, algo que eu nunca pensei vir a assistir. Então, quero acreditar que quanto mais mulheres se envolverem com a União Africana, mais os nossos governos irão envolver as mulheres em diferentes níveis do executivo. Vamos caminhar, definitivamente, em direção a isso. Há um ditado que diz que as mulheres não criam conflitos, mas sofrem as consequências deles, portanto, é importante que quando estivermos a discutir a paz, as mulheres façam, também, parte dessas discussões pois, além das fronteiras deste continente as mulheres já forjaram ligações.

Elas trabalharam juntas no movimento de mulheres. O comércio entre as mulheres ultrapassa as fronteiras dos vários países. Assim sendo, há uma maior unidade neste continente e se a partir dessa força, pudermos construir algo, acredito que podemos ter uma contribuição muito significativa.”

E: No entanto, são os homens que detêm o poder!

BG: “Os homens africanos têm de entender que somos iguais e que, por exemplo, não podemos esquecer a história deste continente. Quando se lutou pela libertação, as mulheres marcaram presença.

Elas estavam nas trincheiras, carregavam as armas, lutavam… Merecem uma vida melhor numa África independente. Eu sempre disse que o padrão pelo qual medimos a paridade, não é um padrão masculino. Não me quero transformar num homem, gosto de ser mulher e quero ser amada e respeitada como mulher.”

E: O que propõe?

BG: “Quero que mostremos as mulheres africanas como sendo muito poderosas, não enquanto oradoras ou em algo visível, mas poderosas no seu silêncio, poderosas nas suas aldeias, nas suas comunidades, fazendo a diferença.

Penso que pode melhorar. Gostaria de ter uma varinha de condão e ir por todo o continente, pedir para que se reconheça a capacidade das mulheres para realizar uma mudança no nosso continente. Não sei se isso irá acontecer durante a minha vida.”

E: O que a inspirou a lutar de forma tão obstinada?

BG: “Se eu fosse pessimista, não estaria aqui hoje. Venho de um país chamado Namíbia. Cresci sob o “apartheid” e foi-me dito, enquanto estudava, que a minha inteligência de criança negra era mais baixa do que a de uma criança branca, e que eu nunca conseguiria estudar direito. Tinha 18 anos, na altura. Hoje sou advogada. Decidi que nem a cor da minha pele nem o meu género, têm influência minha inteligência.”