Última hora

Última hora

E tudo começou na Grécia...

Em leitura:

E tudo começou na Grécia...

Tamanho do texto Aa Aa

Tal como muitas coisas na história, a crise da dívida europeia teve origem na Grécia. Hoje o país está à beira da falência e dependente de suporte de vida externo. Toda a gente o sabe. As discussões acerca do resgate prolongam-se há mais de um ano. Mas, para além disso, a Grécia precisa de profundas e drásticas reformas da sociedade, quase de uma revolução cultural. Economia paralela e emprego ilegal, evasão fiscal e nepotismo, bem como um aparelho de Estado sobredimensionado, tudo isto tem de acabar ou o regresso ao crescimento económico será uma ilusão. Falta saber se o país, com a sua mentalidade mediterrânica, é capaz de executar esta tarefa.

Grécia: Luta pela recuperação
 
 
Os taxistas gregos estão em pé de guerra contra a liberalização do setor. As reformas impostas pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional, aquando do primeiro plano de resgate da Grécia no ano passado, preveem a emissão mais licenças para melhorar a competitividade da profissão.
 
Sem saída, os gregos devem tornar a economia, esmagada pelo peso da dívida, mais competitiva.
 
O PIB grego pesa 230 mil milhões de euros contra uma dívida pública de 350 mil milhões. Para equilibrar a balança, Atenas espera conseguir 50 mil milhões de euros até 2015, com a privatização de infraestruturas e outros bens públicos.
 
Mas, de acordo com o ministro grego das Finanças, Evangelos Venizelos, isso não será suficiente: “Estamos prontos para implementar o programa de privatizações, mas também precisamos do apoio real dos nossos parceiros europeus porque sem ajuda não podemos alcançar o nosso objetivo, não formalmente mas sim substancialmente.
Não precisamos de números, mas de resultados reais.”
 
Como tornar sustentável o reembolso da dívida e que a Grécia possa voltar a financiar-se nos mercados, tendo em conta que a economia está em recessão e seca por dois anos de austeridade?
 
De acordo com o Fundo Monetário Internacional, este ano, o PIB grego vai sofrer uma contração de 3,8 por cento. Uma dor de cabeça adicional para desesperar os gregos já afetados por uma taxa de desemprego de 17 por cento. Um número que sobe para os 42,5 por cento se considerarmos os jovens entre os 15 e os 24 anos.
 
Nos últimos dois anos, os preços aumentaram 7,9 por cento, três vezes mais do que os salários. Em Atenas, um capuccino, por exemplo, custa tanto ou mais do que em Paris. Preços caros que penalizam a principal indústria do país: o turismo.
 
Os 15 milhões de turistas anuais representam 16 por cento do PIB da Grécia. Mas também este setor deve desembaraçar-se dos múltiplos entraves burocráticos para melhorar a competitividade.

Loula Katseli: “Não podemos gerir a dívida por nós mesmos”
 
A Euronews entrevistou Louka Katseli, que foi ministra do Trabalho do Governo de Papandreou até ao mês passado e ministra da Economia em 2009 e 2010.
 
Euronews: A senhora fez a sua formação na América e é uma aliada política do primeiro-ministro Papandreou. Deixe-me começar com uma pergunta simples… Ainda acredita no euro e na zona euro?
 
Louka Katseli: Absolutamente, mas tudo depende de os líderes europeus mostrarem a sua vontade para apoiar a zona euro, esta quinta-feira, nos próximos dias e semanas, através de medidas apropriadas, para fornecer estabilidade financeira e sustentabilidade à zona euro.
 
E: À parte dos tumultos e protestos nas ruas, como é que a crise mudou a sociedade grega? Faz algum sentido dizer “temos vivido acima das nossas possibilidades durante muito tempo e agora temos de trabalhar mais” ou é antes “a classe política traiu-nos e somos todos vítimas”?
 
LK: Há um pouco dos dois. Quando temos uma crise com uma magnitude sem precedentes, as pessoas estão zangadas, os orçamentos familiares são cortados, as pessoas veem as suas vidas de pernas para o ar. O poder de compra caiu e o desemprego está a subir. Portanto, há raiva, frustração, mas eu acho que há também esperança de que podemos fazer tudo o que é necessário, avançar, retomar o crescimento e tirar o país desta confusão.
 
E: Algumas das condições impostas pelos credores internacionais são um duro pacote de austeridade e reformas estruturais. O Governo fez uma lista de propriedades públicas que vão ser privatizadas. Como é que isso afeta o orgulho nacional? Estamos a falar de infraestruturas, bens imobiliários, até de ilhas…
 
LK: Bem, o assunto das privatizações é antigo e reformas estruturais significam muito mais do que privatização. Mas a privatização é uma parte integral do pacote para aumentar a competitividade. Não há dúvidas de que os gregos não se oporiam a um programa sensato e credível de privatizações, especialmente em setores onde o setor público não precisa de estar envolvido, mas isto tem de ser feito com transparência, responsabilidade e de forma a que os ativos sejam vendidos a preços razoáveis, num horizonte de tempo credível.
 
E: A Grécia está à beira da falência e é profundamente incompetitiva. Lidar com isso vai exigir anos de reformas dolorosas. Está o país preparado para isso?
 
LK: O país está preparado para fazer tudo o que for necessário para melhorar a competitividade, pôr o emprego no centro da agenda política, e retomar o crescimento. E para isto, precisamos do apoio europeu, porque não podemos gerir a dívida por nós mesmos. Tem de haver uma solução europeia para o assunto da dívida. Precisamos de uma partilha equitativa da carga e precisamos de uma mudança gradual de política à medida que as coisas melhorarem, para que o fardo da austeridade seja partilhado de forma igual em todos os grupos, com um combate à evasão fiscal e uma melhoria da estrutura produtiva, reestruturando e atraindo investimento, o que é muito necessário.