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Itália: uma dívida crónica

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Itália: uma dívida crónica

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A crise da dívida do euro conta, desde há relativamente pouco tempo, com um novo ator: Itália.
 
O país apareceu nos radares dos mercados de obrigações. Para muitos peritos não foi uma surpresa, devido ao caráter crónico da dívida italiana, que ascende atualmente aos 1,8 mil milhões de euros.
 
O que surpreendeu, no entanto, foi a reação rápida do Governo italiano que pôs imediatamente em marcha um plano de austeridade.
 
A febre nos mercados de obrigações baixou, mas o problema está longe de ser resolvido.
 
Na próxima semana, Itália precisa de colocar dez mil milhões de euros no mercado de obrigações. Se os juros subirem demasiado, os líderes da zona euro terão um grande problema.

Itália tenta fugir ao contágio


 
A crise da dívida soberana ameaça agora a terceira economia da Europa: a Itália. Numa tentativa de evitar o contágio, o Parlamento aprovou, na semana passada, um pacote de medidas de austeridade no valor de 79 mil milhões de euros.
 
“É necessária uma renovação de confiança, de atos concretos e de certezas para os cidadãos. É necessário que a política, o Parlamento e o Governo ponham rapidamente em prática medidas eficazes para relançar a economia”, afirma o presidente da Confederação Geral do Comércio Italiana, Carlo Sangali. 
 
O Governo italiano reviu em baixa as previsões de crescimento para 1,1% este ano e 1,3% no próximo. A dívida pública foi revista em alta para 120% do PIB em 2011 e pouco menos em 2012.
 
Paul Mackel do HSBC sublinha que os mercados estão de olhos postos na Itália: “Agora estamos no ponto em que o contágio na zona euro está ao rubro e os mercados estão muito focados no que se passa, em particular, em Itália, e esta é uma das razões, uma das principais razões pelas quais o euro está sob pressão, mais recentemente”
 
Os bancos franceses têm uma exposição à dívida italiana que atinge os 268 mil milhões de euros, segundo o Banco de Pagamentos Internacionais. Um valor mais elevado do que a exposição combinada à Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha. 
 
É por isso que os analistas defendem que se a Itália for atingida, a França vai ser apanhada pelo furacão.
 

Alberto Alesina: "Itália tem uma economia estancada e não cresce há 15 anos"


 
 
Professor na Universidade de Harvard, Alberto Alesina analisa, em entrvista à Euronews, a crise que afeta a economia italiana.
 
Em declarações recentes afirmou que Itália é demasiado grande para falhar e demasiado grande para ser salva e que se não conseguir sobrepor-se, não haverá esperanças para o euro.
 
 
Euronews: Que avaliação faz da economia italiana? Acredita que há um risco real de quebra?
 
Alberto Alesina: “Não creio que haja um risco imediato de quebra, mas penso que a economia italiana precisa de uma forte vaga de reformas para começar a crescer de novo. Caso contrário, vamos arrastar o fardo da dívida durante anos. Arriscamo-nos a arrastar esta crise, mas teremos outra nos próximos meses e anos.”
 
Euronews: O que pensa da manobra económica aprovada pelo Governo de Berlusconi? Será suficiente para que o país arranque, tendo em conta a sua elevada dívida?
 
Alberto Alesina: “Para reativar o país não é seguramente suficiente, uma vez que não inclui praticamente nada que tenha a ver com as reformas estruturais que facilitam o crescimento. Do ponto de vista do equilíbrio orçamental, a manobra tem o problema de estar muito orientada para 2013/2014. É um problema, porque dá aos mercados um sinal de adiamento, mas sobretudo porque em 2013 há eleições em Itália. Ninguém sabe quem vai ganhar, por isso não se sabe se vai haver mudança de enfoque, porque o próximo Governo poderá ser diferente ou ter um ministro das Finanças diferente. E depois, o terceiro ponto fraco do plano é que é desequilibrado: demasiados impostos e uma redução de custos insuficiente.”
 
Euronews: Depois da segunda-feira negra de 18 de julho, a Bolsa de Milão deu ligeiros sinais de recuperação. Os mercados financeiros rejeitaram o plano do ministro Tremonti ou podemos dizer que foi uma reação “fisiológica”?
 
Alberto Alesina: “A incerteza é tão intensa nestes dias que é muito difícil interpretar o que os mercados querem dizer ou fazer. Mas penso que os mercados não se mostraram muito entusiastas com o plano pelos motivos que mencionei anteriormente.
A obsessão de que tudo é culpa dos especuladores e das agências de notação financeira esconde muitas vezes problemas estruturais e reais de muitos países. Por exemplo, os especuladores não parecem atacar o mercado alemão, mas sim outros países com problemas mais sérios.”
 
Euronews: Qual é a particularidade da crise italiana comprando com a que atinge outros países como a Grécia, Espanha e Portugal?
 
Alberto Alesina: “Itália tem outros problemas. Quer dizer, não tem os mesmos problemas que Espanha, Irlanda e Grécia, mas tem uma economia estagnada que não cresce há 15 anos, que já tinha uma dívida pública muito alta antes da crise, que aumentou agora e arrasta o lastro da dívida. É uma economia bloqueada, que não cresce.”