Última hora

Última hora

China é pragmática na ajuda à Europa

Em leitura:

China é pragmática na ajuda à Europa

Tamanho do texto Aa Aa

Mil milhões de chineses e nós e nós e nós…este era o título de uma canção francesa muito em voga.

Nos anos 70, o medo do perigo amarelo um conceito que data do século XIX, ressurge com a explosão demográfica do Império do Meio.

Hoje, o país converteu-se na segunda potência económica mundial logo a seguir aos Estados Unidos e socorre os países europeus endividados, mas a questão continua a colocar-se: há que ter medo da China?

Desde há em vários meses, a China perfila-se como o único salvador possível de uma zona euro em plena tormenta. Multiplica compras de dívidas europeias, e promete ajuda aos países em risco. Pequim está a colocar os peões na Europa.

E tudo isso sem grandes sacrifícios. O país pode permitir-se, o PIB eleva-se a mais de seis biliões de dólares, um crescimento de cerca do 10% e um volume de exportações mundiais que passou do 1 para 10%, em 30 anos.

Dos 2,8 biliões de dólares de reservas de mudança que possui, pode permitir-se fazer injeções pontuais: 5 600 mil milhões a Espanha, outros 5 mil milhões a Portugal…

Difícil calcular o resto, mas segundo os cálculos do Financial Times, Pequim tinha, em 2010, 630 mil milhões de euros de dívida europeia, isto é, 7% do total.

Mas porque está a China a ajudar a zona euro?

Não é por altruísmo, decerto, mas também não é para engulir a Velha Europa.

A estratégia é bastante pragmática. A Europa é um parceiro comercial privilegiado da China, como se vê pelas exportações, por isso não tem qualquer interesse em ver a Europa afundar.

Também espera beneficiar política e diplomaticamente.

Pequim deseja, nomeadamente, obter o estatuto de economia de mercado, oficialmente previsto pela OMS para 2016. Se o conseguir antes dessa data, a China pode evitar pagar direitos aduaneiros a preços proibitivos.

A China tem vantagens incontestáveis com esta ajuda, mas não nos convençamos que vai salvar o mundo.

Lawrence Khun: “principal problema da China é a inflação”
 
 
Tradicionalmente, o Dia Nacional da China marca o início de um período de celebrações das glórias do passado e das conquistas do presente. Este ano as coisas vão ser diferentes? Vamos ouvir o Dr. Robert Lawrence Kuhn, autor de “Como pensam os líderes chineses”.
 
Rian O’Neil, euronews:
Nesta semana dourada da China haverá muito fogo de artifício e bandeiras, mas com as novas preocupações sobre a economia, a inflação e a dívida, parece que há menos para celebrar…
  
Robert Lawrence Khun:
Estamos a um ano da celebração de 18° Congresso do Partido Comunista e este período prévio é um momento muito delicado, principalmente porque se vai dar uma mudança de gerações na direção. 
Este período de transição é muito delicado para a China. Não só vai mudar o mais importante líder, mas toda a liderança do país está em mutação.
No entanto, diplomaticamente 2011 foi um ano muito melhor do que 2010, que foi em um ano desastroso na frente diplomática.
A inflação é o ponto realmente crítico. A China vai preocupar-se essencialmente com o controle da inflação. Há dúvidas sobre a fiabilidade dos números divulgados, qual é verdadeira taxa de inflação? Quais são as preocupações reais do povo? Estas são as preocupações principais.
Por isso é que o abrandamento da economia não está tão mau na China,  a liderança está mais preocupada com a inflação.
  
euronews:
A China, como mencionou, preocupa-se mais com assuntos a longo prazo e foi uma grande defensora da UE durante a crise da dívida atual, mas recentemente assinalou que quer que Europa lhe dê o estatuto de economia de mercado. É a hora da contrapartida? O que podemos esperar da cimeira UE-China do próximo mês?
  
Robert Khun:
A China quer reconhecimento. O que se está a passar é que a Europa é crítica para a China.  A China está a ajudar a Europa para seu próprio benefício, e quer que o mundo reconheça que desenvolveu a sua economia com muito sucesso.
Talvez não possa resolver todos os problemas do mundo, e às vezes o resto do mundo exagera o impacto da China, positivo ou negativo, em termos de resultados.
Mas de facto, em termos de crescimento mundial – se nos fixarmo na taxa de crescimento na China, embora  tenha descido para 9 por cento – o benefício foi enorme em comparação com os Estados Unidos e a Europa
 
 
euronews:
A China tem certas dificuldades com a Europa, mas as relações com os Estados Unidos são bem mais complexas. Nos próximos dias o Senado norte-americano vai votar a legislação para acabar com o que considera práticas desleais da China. Acha que Pequim vai contra-atacar?
  
Robert Khun:
O que receio é que a adoção de medidas repressivas contra a China seja o único ponto, neste ano eleitoral, em que democratas e republicanos estejam de acordo.
Pessolmente, uma decisão destas não seria boa, mas em Washington, há políticos que podem pensar o contrário.
Se isso ocorrer, e espero que não, a China vai responder, mas fá-lo-á de assinalando uma via  que evite uma escalada da tensão. Tem de responder para não perder a face, mas não de um modo contundente.